Linguagem e evolução

Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves

de Ribeirão Preto, SP

André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos¹ destaca o papel de grande importância da linguagem para o desenvolvimento da espécie humana, e do próprio Espírito, pois além de permitir a comunicação e permuta de experiências entre os homens, é instrumento necessário para a fundamentação do pensamento contínuo, pela formação de conceitos e indagações, enfim, é parte fundamental daquilo que diferencia os homens dos animais.

Curiosamente, recentes estudos na área de Educação Infantil, principalmente na Psicologia, têm valorizado a linguagem (verbal, gestual, gráfica, etc.) não mais só como manifestação de um pensamento já pré-formado, mas como um instrumento do pensamento, que fornece conceitos e formas de organização do real. Nosso próprio pensamento verbal (aquela fala interna, que não para um instante) seria construída a partir das experiências da linguagem social.

Tudo começa com a necessidade de intercâmbio social, que é uma das funções básicas da linguagem: O Homem cria e usa sistemas de linguagem para se comunicar com seus semelhantes. Isto é bem visível na criança pequena que está aprendendo a falar: não sabe ainda articular as palavras, nem consegue compreender o significado preciso daquelas utilizadas pelo adulto, mas consegue comunicar seus desejos e estados emocionais. A necessidade de comunicação é que impulsiona, inicialmente, o desenvolvimento da linguagem².

Paralelamente, à medida em que a criança começa a articulação das palavras, ela vai fazendo a organização e orientação do pensamento.

Segundo Davis e Oliveira, “quando a criança começa a designar objetos e eventos do mundo exterior em palavras isoladas ou combinações de palavras, está discriminando esses objetos, está prestando atenção em suas características, podendo guardá-las na memória. Com isso a criança está livre do aqui-e-agora: pode, com ajuda da linguagem, relembrar situações passada e prever eventos futuros. Pode lidar com objetos, pessoas e fenômenos do ambiente, mesmo quando eles não se encontram presentes. A linguagem permite, assim, que o ser humano se distancie da experiência imediata, fato que assegura o aparecimento da imaginação e do ato criativo”³.

Talvez possamos aprender alguma coisa sobre educação infantil, e sobre a própria evolução do Espírito, permitindo-nos um paralelo entre o desenvolvimento do ser humano (ontogênese), com o desenvolvimento da espécie humana (filogênese), mostrado de forma tão grandiosa por André Luiz, no Evolução em Dois Mundos¹. Neste texto ele fala da transformação do homem das cavernas, e de como a linguagem foi fundamental neste processo:

“Pela compreensão progressiva entre as criaturas, por intermédio da palavra que assegura o pronto intercâmbio, fundamenta-se no cérebro o pensamento contínuo e, por semelhante maravilha da alma, as idéias-relâmpagos ou as idéias-fragmentos da crisálida de consciência, no reino animal, se transformam em conceitos e inquirições, traduzindo desejos e idéias de alentada substância íntima. (…) Os porquês a lhe nascerem fragmentários, no íntimo, insuflam-lhe aflição e temor. (…) Entre a alma que pergunta, a existência que se expande, a ansiedade que se agrava e o Espírito que responde ao Espírito, no campo da intuição pura, esboça-se imensa luta. O homem que lascava a pedra e que se escondia na furna, escravizando os elementos com a violência da fera e matando indiscriminadamente para viver, instado pelos Instrutores Amigos que lhe amparam a senda, passou a indagar sobre a causa das coisas… (…) A idéia de Deus iniciando a religião, a indagação prenunciando a filosofia, a experimentação anunciando a ciência, e o instinto de solidariedade prefigurando o amor puro, e a sede de conforto e beleza inspirando o nascimento das indústrias e das artes, eram pensamentos nebulosos torturando-lhe a cabeça e inflamando-lhe o sentimento (…) (O Homem) aprendeu a chorar, amando e perguntando para ajustar-se às Leis Divinas a se lhe esculpirem na face imortal e invisível da própria consciência. Foi, então, que, em se reconhecendo ínfimo e frágil diante da vida, compreendeu que, perante Deus, seu Criador e seu Pai, estava entregue a si mesmo. O princípio da responsabilidade havia nascido. (…) Todavia, com o advento da responsabilidade, que o separara da orientação direta dos Benfeitores da Vida Maior, entregou-se o homem a múltiplos tentames de progresso no campo do espírito. No regime interior de Livre Indagação, conferia asas audaciosas ao Pensamento, e, com isso, mais se lhe acentuava o poder de Imaginar.”¹

Da mesma forma que, num momento da evolução do humanidade, lá na Pré-História, os porquês nasciam fragmentários, e foram servindo para que o Homem se percebesse como gente, Espírito imortal responsável por seus atos, a criança encarnada retoma este momento, tão necessário, também tendo sua fase dos porquês, de busca de entendimento e de construção da sua própria personalidade e de seu futuro.

Se é tão importante, então, que a criança ou pessoa faça uso da linguagem para seu desenvolvimento, qual seria o nosso papel de educadores, pais, evangelizadores, professores?

Faz-se necessário dar condições para que surjam diálogos, oportunidades da criança contar acontecimentos, mesmo que tenham sido vivenciados juntos, perguntar, ouvir, criar situações imaginárias, hipóteses, etc. Tudo isto representa não só um exercício mental para a criança, mas a própria construção da sua idéia sobre o mundo e sobre si mesma. É importante ainda estimulá-la a questionar, perguntar, indagar sobre tudo.

E tal processo de construção e crescimento não tem fim, tanto em termos de desenvolvimento da humanidade quanto de cada um de nós. Ainda estamos em pleno momento de indagar, questionar, perguntar, trocar e crescer juntos.

A linguagem continua como base, fundamental para as idéias, construções, indagações, questões, trocas, reflexões, levando-nos pelo caminho da evolução. Saibamos aproveitar esse instrumento!

Bibliografia:

E-mail: verdeluz.marlene@bol.com.br

(Jornal Verdade e Luz Nº 188 de Setembro de 2001)