Momentos de reflexão

José Argemiro da Silveira

de Ribeirão Preto, SP

“Não se turbe o vosso coração” - Jesus (João, 14:1)

Turbar é o mesmo que turvar. E significa perturbar, revolver, agitar, inquietar. Vivemos época de transição, de mudança nos costumes, de transformações sociais. Tudo parece estar se agitando, em confusão. E muitos ficam preocupados, até um tanto perturbados. Como sempre, os ensinos de Jesus nos fazem muito bem. Quando Ele recomendou aos discípulos tranqüilidade, confiança, “não turbar o coração”, a situação para Ele e os companheiros, não era fácil. Conchavos entre políticos e religiosos, (os poderosos da Terra) buscavam um meio de destrui-Lo. Ele permanecia sereno, firme na sabedoria e na fé, na confiança em Deus. Mas sabia que os discípulos não contavam ainda, com os mesmos recursos de fortaleza íntima. E assim procurou tranqüilizá-los, mostrando que tudo estava bem, sob controle, dentro do plano Divino. Assim, também, nos devemos sentir, hoje e sempre. Nosso planeta, como todo o universo, tem um Criador, sábio, justo e misericordioso. Todos somos seus filhos, estamos subordinados às leis por Ele estabelecidas, e que visam o nosso bem, nosso progresso espiritual, nossa felicidade.

Precisamos lembrar disso, para não perdermos a orientação, não nos perturbarmos, nem “turbar o coração”, em época de confusão, de inversão de valores, de violência, de terrorismo, de opressão dos fortes sobre os fracos e tantas coisas mais. É claro que as organizações humanas, que visam organizar e disciplinar a vida das pessoas são muito importantes no desempenho de suas funções; as leis humanas, as autoridades constituídas, a justiça, a polícia, precisam cumprir o seu papel, e todos nós devemos apoiar e prestigiar as autoridades e trabalhadores no melhor desempenho de suas funções. Mas não nos esqueçamos de que, acima de tudo, está o poder Divino, que nos ensina e corrige, da melhor maneira, para o nosso bem.

Na questão 634 de “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec pergunta: “O mal se encontra na natureza das coisas? Falo do mal moral. Deus não poderia criar a Humanidade em melhores condições?” Resposta: “Já te dissemos: Os Espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa ao homem a escolha do caminho: tanto pior para ele, se seguir o mal. Sua peregrinação será mais longa. Se não existissem montanhas, não poderia o homem compreender que se pode subir e descer, e se não existissem rochas, não compreenderia que há corpos duros. É necessário que o Espírito adquira experiência, e para isso é necessário que ele conheça o bem e o mal”. Portanto, Deus nos cria sem desenvolvimento, sem conhecimento, mas com um potencial, com qualidades a serem desenvolvidas. Aplica conosco o princípio da educação ativa: dá-nos as condições e tarefas para realizarmos nosso aperfeiçoamento. Com o livre-arbítrio, e subordinado a lei do progresso, o Espírito deverá desenvolver-se, crescer em conhecimentos e virtudes. Se escolhe mal o caminho, se transgride a lei, deverá sofrer as conseqüências, reparar o erro, e continuar a jornada evolutiva.

Compreenderemos melhor o processo, se considerarmos que a Terra não representa o total da obra do Criador. Esclarece Allan Kardec, em o “Evangelho Segundo o Espiritismo”: “Espanta-se em encontrar sobre a Terra tanta maldade e más paixões, tantas misérias e enfermidades de toda sorte, e se conclui disso que a espécie humana é uma triste coisa. Esse julgamento provém do ponto de vista limitado em que se está colocado, e que dá uma idéia falsa do conjunto. É preciso considerar que, sobre a Terra, não se vê a Humanidade, mas apenas uma pequena fração dela. Com efeito, a espécie humana compreende todos os seres dotados de razão que povoam os inumeráveis mundos do Universo; ora, o que é a população da Terra, perto da população total desses mundos?” (1) Considerando, pois, a posição do nosso planeta na hierarquia dos mundos, e o grau evolutivo dos Espíritos que, aqui, nos encontramos realizando o nosso aprendizado, podemos entender melhor o porque das dificuldades, do sofrimento, e do comportamento humano.

Emmanuel afirma que “criatura alguma na experiência terrestre poderá marchar constantemente a céu sem nuvens. Cada berço é início de viagem laboriosa para a alma necessitada de experiência. Ninguém se forrará aos obstáculos. O pretérito ominoso para a grande maioria de nós outros, os viandantes da Terra, levantará no território de nosso próprio íntimo os fantasmas que deixamos para trás, vagueantes e insepultos, a se exprimirem  naqueles que ferimos e injuriamos nas existências passadas  e que hoje se voltam para nós, à feição de credores inflexíveis, solicitando reconsideração e resgate, serviço e pagamento. Não passarás, assim, no mundo, sem tempestades e nevoeiros, sem o fel de provas ásperas ou sem o assédio de tentações”. (2)

A subida requer esforço, como o aprendizado requer dedicação, empenho, em resolver problemas, realizar tarefas, para conquistar estágios mais favoráveis na área do conhecimento. Importante considerar a dificuldade como natural, normal, no processo evolutivo e procurar fazer o melhor. Para assegurar uma situação futura melhor é necessário fazer o bem, e não só evitar o mal (O Livro dos Espíritos, item 642). Muitos perguntam o que fazer? Como posso participar? Gandhi afirmou certa vez: “Um homem que desenvolveu o amor em si contribui para neutralizar, amenizar, o ódio de milhares de outros homens”. Trabalhando para edificarmos o bem no nosso íntimo, confiando em Deus, orando, e vibrando pela paz, pelo entendimento, entre as pessoas e nações estaremos colaborando de algum modo. Concluímos com Emmanuel, ao nos afirmar: “não se turbe o vosso coração”, porque o coração puro e intimorato é garantia da consciência limpa e reta e quem dispõe da consciência limpa e reta vence toda perturbação e toda treva, por trazer em si mesmo a luz irradiante para o caminho” (2)

(1) - O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 3, item 6.

(2) - Palavras de Vida Eterna - Emmanuel, por Francisco C. Xavier, item 36.

(Jornal Verdade e Luz Nº 190 de Novembro de 2001)