O dever

Leda de Almeida Rezende Ebner

de Ribeirão Preto, SP

No processo evolutivo do Espírito, quando este toma consciência da sua imortalidade, das suas potencialidades e possibilidades, sente em si a vontade de modificar-se, de transformar-se.

Encarnado na Terra, encontra as melhores oportunidades de trabalhar para realizar-se nesse ideal.

O dever (o substantivo, não o verbo) constitui-se então, um aliado importantíssimo.

Segundo o dicionário, dever é “o conjunto das obrigações de alguém em absoluto ou em determinada situação. Dever de: obrigação ou preceito de . Deveres para com alguém: os serviços ou as provas de respeito e afeição que há obrigação de lhe prestar ou dar.”

Na vida moderna, esta palavra, parece-nos pouco usada, talvez por significar obrigação de ou para com, que fere nosso orgulho, nossa vaidade, nossa ânsia de liberdade Todavia, em todo lugar onde haja pessoas relacionando-se, partilhando de algo em comum ou, simplesmente próximas, existem deveres de uns para com os outros.

É a conscientização desse dever de e para com que consideramos fundamental para quem está iniciando – e a maioria de nós está – sua transformação íntima.

Enquanto não conquistarmos o ideal de amar ao próximo como a nós mesmos, o que nos levará a querer e fazer a ele tudo e somente o que queremos para nós, o cumprimento dos deveres é um importante passo para nosso crescimento espiritual.

Na atualidade, em conseqüência do reconhecimento e aceitação da lei divina de que somos todos iguais nos direitos e que ninguém pode dominar ou subjugar o outro (homem, grupo ou nação), talvez seja necessário dar ênfase mais acentuada aos direitos de cada um. Devemos sim, insistir no trabalho de respeito a eles em qualquer lugar, em qualquer situação, seja esse um quem for.

Todavia, parece-nos que, em virtude da dificuldade e da má vontade dos homens na vivência desse respeito e, consequentemente, da necessidade da defesa desses direitos, talvez estejamos nos esquecendo que os direitos estão relacionados com os deveres. E muitas vezes, os que mais gritam pelos seus direitos, não cumprem seus deveres ou se esquecem de que estes também existem.

A nosso ver, o dever de e o dever para com são também conquistas do homem civilizado. É o reconhecimento de que somos todos iguais perante a lei, assim como o somos perante Deus. Estamos todos envolvidos em um mesmo processo de evolução individual e coletiva.

Há várias formas de dever, tão bem descritos por Léon Denis no livro “Depois da Morte”: o dever para com Deus, na busca do conhecimento de suas leis e no esforço de sua prática; dever para consigo mesmo, que consiste no respeito a si próprio em governar-se com sabedoria e em querer sempre o que for útil, bom e belo; o dever profissional, que exige o cumprimento consciencioso das obrigações, das funções exercidas; os deveres familiares, que quanto melhor compreendidos e cumpridos, concorrem para que a família seja de fato, um núcleo facilitador do desenvolvimento do amor entre seus membros, irradiando-se para a comunidade.

Há tantos deveres... Nem sempre percebidos, analisados, compreendidos e cumpridos. Porém, quanto mais evolui o homem em inteligência e moralidade, mais vai valorizando os deveres e mais ele os realiza com prazer e desprendimento.

Enquanto existir em nós orgulho e egoísmo que nos impedem de amar verdadeiramente, os deveres aceitos e cumpridos auxiliam-nos ( e quanto!) no desenvolvimento do amor em nós.

Não me recordo se foi Emmanuel ou André Luís que escreveu em uma de suas mensagens, que o dever nos faz parecer melhores do que somos.

Cumprindo nossos deveres, mesmo os que consideramos menos agradáveis ou mais difíceis, aproximamo-nos mais das pessoas, o que nos leva a conhecê-las melhor e, conhecendo-as com suas qualidades e defeitos, percebemo-las iguais a nós, almejando também paz e felicidade.

Quantas vezes questionamo-nos através de ações positivas ou negativas de outras pessoas, constatando em nós defeitos ou qualidades até então não percebidas! E nesse exercício, vamos nos conhecendo melhor e com mais facilidade desenvolvendo as qualificações intelectuais e morais que nos tornarão um dia, Espíritos sábios e bons.

No esforço do cumprimento dos deveres diversos, vamos desenvolvendo a disciplina, sem a qual nenhuma conquista se faz, visto que ela se relaciona, intimamente, com a vontade. Ter disciplina, ser disciplinado implica no uso da vontade de querer conseguir algo.

Esforcemo-nos pois, em cumprir bem todos os nossos deveres, com discernimento e disciplina afim de que, num dado momento, nos percebamos realizando-os com alegria e prazer. Mais tarde - a auto-educação é lenta -, em novo estágio, eles deixarão de ser deveres para serem ações espontâneas do amor em nós.

Parodiando André Luís em Sinal Verde, terminamos estas considerações: Quando o homem cumpre seus deveres com alegria, eles se transformam na alegria do homem.

(Jornal Verdade e Luz Nº 189 de Outubro de 2001)