O Espiritismo leva a pessoa a ser otimista?

Leda de Almeida Rezende Ebner

de Ribeirão Preto, SP

Para responder, analisemos o significado do termo otimismo, segundo o dicionário Caldas Aulette: “sistema que admite que o estado do mundo é o melhor possível ou que Deus faz as coisas para melhor e segundo sua infinita sabedoria. Por extensão: Tendência dos que vêem o bem em tudo; opinião dos que se consideram satisfeitos com o atual estado de coisas”.

O Espiritismo nos mostra que a Terra é um mundo de expiações e provas, habitado por Espíritos, em processo evolutivo, tentando, através de inúmeras reencarnações, desenvolver suas faculdades intelectuais e morais que os levarão à perfeição e felicidade.

Ora, se a humanidade da Terra, constituída de encarnados e desencarnados, é ainda, bastante imperfeita, tendo cultivado, no desenvolver da inteligência, orgulho, egoísmo e seus derivados, dedicando pouco esforço ou interesse no desenvolvimento das qualidades morais, fica claro que o estado atual do mundo é o que seus habitantes fizeram, sendo, portanto, sua responsabilidade e adequado às suas necessidades atuais, em função da lei natural de causa e efeito, de ação e reação.

Raciocinemos em tese, visto que inúmeros Espíritos que viveram na Terra, já a deixaram para viverem em mundos melhores, por não precisarem mais das experiências de um mundo de expiações e provas. “Há muitas moradas na casa de meu Pai”, disse Jesus.

Nós, que aqui estamos, temos realmente no estado atual da Terra, as condições e as oportunidades necessárias ao nosso desenvolvimento e ao desenvolvimento da humanidade.

Não se trata então, de admitir o estado atual do mundo como sendo o melhor, mas como sendo o resultado das nossas ações, desde quando surgimos na Terra, herança de nós mesmos. Este estado é o que temos e merecemos para, no esforço de melhorá-lo, melhorando-nos.

Estamos na Terra, na época, no local, na convivência certos, segundo a lei de causa e efeito. Ao invés de lamentar, exprobar, reclamar, busquemos compreender o estado atual das coisas como fruto da própria humanidade. E como dela fazemos parte, analisemo-la com otimismo, porque tudo na criação tende ao aperfeiçoamento e busquemos, fazendo bem nossos deveres no dia-a-dia, torná-la melhor.

Diz-nos o Espiritismo que existe a “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” a que chamamos Deus. Não temos capacidade intelectual e moral para conhecermos sua natureza, conceituá-Lo ou definí-Lo. Mas, pela explicação acima, dada pelos Espíritos a Allan Kardec, podemos percebê-Lo no Universo em expansão, na natureza, em nós, bem como no axioma “Não há efeito sem causa” e se o efeito é inteligente a causa também o é.

Se aceitamos a existência de Deus, como sendo o Absoluto, a perfeição suprema da inteligência e do amor, só podemos considerar suas leis perfeitas.

Aceitando também, que somos seres espirituais criados simples e ignorantes, com potencialidades das qualificações divinas a serem desenvolvidas por nós, num tempo determinado pela nossa vontade no uso do livre-arbítrio, com a conseqüência de colhermos exatamente o que semearmos e com o determinismo de atingirmos a perfeição e a felicidade, somente podemos concluir “que Deus faz as coisas para o melhor e segundo sua infinita sabedoria”.

Assim, apesar do mal que ainda existe nos homens e no mundo, acreditamos que o bem é a lei maior, que prevalecerá um dia na Terra.

Esta certeza nos estimula a termos uma posição otimista do presente, que nos levará, através do estudo, do trabalho, das dificuldades, das dores, alegrias, dos sofrimentos, fracassos e sucessos, a um futuro mais justo, mais harmonioso, primeiro individualmente até alcançar a humanidade como um todo.

Quanto à terceira conceituação: “Tendência dos que vêem o bem em tudo”, aceitamos nós, os espíritas que em tudo existe o bem, precisando apenas encontrá-lo. O próprio mal traz em si o bem. Nem sempre o que consideramos mal é realmente o mal e muitas vezes o que pensamos ser um bem é um mal.

Exemplificando: o alcoólatra vê na bebida alcóolica um bem, um prazer, uma necessidade; só vê nesse bem o mal quando sua saúde física e mental estiver comprometida. E somente quando se conscientiza do mal que aquele bem lhe trouxe é que ele vai ser capaz de perceber todo o mal que causou a si próprio, à sua família e a outras pessoas, na satisfação do que lhe parecia um bem. Assim, nas conseqüências desastrosas do mal, surge o bem que leva o homem a compreender o mal e a estimular-se à superação, à recuperação e à reeducação.

Basta então, que procuremos, em tudo, o bem, percebê-lo, aceitá-lo, desenvolvê-lo e pouco a pouco, o mal irá desaparecendo dos corações humanos e, por conseqüência, da Terra.

No final da definição do otimismo, como sendo também, “opinião dos que se consideram satisfeitos com o estado atual das coisas” não é a visão espírita.

Não acreditamos que o otimista esteja satisfeito com  o estado atual da humanidade. Não, o espírita vê e lamenta o mal, a violência, frutos do egoísmo e do orgulho. Apenas compreende que o mal é conseqüência da inferioridade espiritual do homem. À medida que o seu desenvolvimento moral se aproxime do intelectual, sendo vivenciado em conjunto, o mal irá desaparecendo e um dia, o Bem prevalecerá na Terra, como prevalece em mundos habitados por Espíritos Superiores.

O Espiritismo leva o espírita a ser otimista porque com a visão da imortalidade do Espírito, acredita na capacidade de aperfeiçoamento de todos os homens. Confiando em Deus, em si e nos outros, perfectíveis como ele, compreende os motivos do mal. Não o aprova, combate-o buscando o bem, esforçando-se para fazer a sua parte, no raio de ação em que vive, caminhando assim com mais segurança, com mais equilíbrio, com mais alegria!

Sejamos otimistas racionais, não alienados, não acomodados! Sejamos otimistas dinâmicos, trabalhadores do Bem!

(Jornal Verdade e Luz Nº 168 de Janeiro de 2000)