O jovem suicida do pequeno avião

Nilza Teresa Rotter Pelá

de Ribeirão Preto, SP

O assunto que pretendemos explorar neste artigo tem como referência o fato, largamente explorado nos noticiários, de um jovem americano de 15 anos, que pilotando um pequeno avião Cessna o remeteu contra um edifício na cidade de Tampa nos Estados Unidos da América. No bolso do jovem morto encontraram uma nota suicida na qual ele expressa sua admiração pelos pilotos suicidas na tragédia de 11 de setembro bem como pelo mentor do referido ataque.

Não se pode negar, neste ato do jovem, a forte influência exercida por aqueles que perpetraram e executaram a tragédia. Esse tipo de influência esta já anunciada em uma instrução dos Espíritos ditada em abril de 1866 em Paris.(1)

Dizem os Espíritos, neste ditado, que no processo de regeneração da humanidade, aqueles que perseverarem na rebeldia, no orgulho e no egoísmo partirão para a exclusão definitiva do planeta, mas em… “seus desvarios, eles próprios correrão para a sua perda; impelirão a destruição, que gerará uma multidão de flagelos e calamidades, de sorte que, sem o querer , apressarão a chegada da era de renovação… E como se a destruição não marchasse bastante depressa, ver-se-ão os suicídios multiplicarem-se numa proporção incrível, até entre as crianças.” (destaque nosso). Os Espíritos ainda pedem que se ore por essas pessoas.

Essa influência nociva também está cuidadosamente apresentada em artigo assinado por Kardec(2) quando discute as estatísticas do suicídio. Aborda alguns pontos relevantes tais como o fato do suicídio poder ser contagioso, a covardia moral versus a coragem moral e a tendência ao suicídio ser remediável por ações educativas à luz da Doutrina Espírita.

Quanto a questão do contágio moral explica que ele não se dá por ação fluídica ou por atração, mas pela força do exemplo que leva a pessoa a se familiarizar com a idéia da morte e da maneira para alcançá-la. Descreve, nesse artigo, o evento ocorrido com 14 soldados de Napoleão que se enforcaram em uma mesma guarita e considera que “é tão certo que quando se dá um suicídio de uma certa maneira, não raro ver outros do mesmo gênero.” Discute ainda a questão da publicidade poder gerar uma excitação para o suicídio dando coragem para se buscar esse tipo de morte.

Sabemos que o romance “Werther” do alemão Goethe que viveu entre 1749 a 1832 provocou uma epidemia de suicídios na Europa no século XIX, suicídios estes ligados a sofrimento amoroso, uma vez que o suicídio foi o caminho encontrado pelo personagem para resolução de seus problemas.(3)

Para Kardec a covardia moral está ligada as idéias materialistas, a incredulidade, a dúvida quanto ao futuro. Pois estas crenças vêem na morte a resolução de todos os problemas. Aqui fazemos um parênteses para comentar (e não julgar) a postura de Bin Laden que adepto de uma religião que condena o suicídio não o praticará, mas já ordenou àqueles que permanecem próximo dele que o matem se for localizado pelos seu adversários. Neste caso não se trata de materialismo ou descrença, mas jogar para os outros um compromisso muito sério o que não é compatível com responsabilidade moral.

Opondo-se à covardia moral Kardec preconiza o desenvolvimento da coragem moral advinda de uma certeza no futuro para o que a Doutrina Espírita é facilitadora, uma vez que permite às pessoas entenderem os motivos das desigualdades sociais, das atribulações da vida, bem como entender que o sofrimento é temporário e que a felicidade está a nossa espera, que o objetivo maior da experiência terrena é o progresso moral e intelectual.

Contaram-me, um caso que muito ilustra esta situação: um casal espírita viu a filha envolta em distúrbio psicológico, com evidentes sinais de influenciação negativa por espíritos infelizes, ao lado das terapias psicológicas e medicamentosas e intensivo tratamento espiritual alcançaram a melhora, mas o interessante que no ponto mais crítico do sofrimento de todos, a doente fez a afirmação “se não fosse a ‘porcaria’ do Espiritismo que lhe haviam enfiado na cabeça, com certeza já teria se matado”; neste momento os pais agradeceram por terem se esforçado para levar a criança às aulas de evangelização. A semente foi lançada e no momento necessário lá estava a apresentar sua germinação.

As ações preventivas, nesses casos, mostram-se muito mais eficazes que as intervencionistas ou seja dar a bagagem espírita ou pelo menos espiritualista permite o cultivo gradativo de conceitos relevantes à mudança de condicionamentos solidificados ao longo de nossas experiências terrenas e quando a idéia suicida nasce ela já não encontra vazio o solo mental, será confrontada com os conceitos aí já implantados pela educação e exemplificação do respeito à vida.

Lamentamos a morte do rapaz pensando na nossa responsabilidade da divulgação da doutrina e sobretudo quando nos lembramos das palavras do querido Bezerra de Menezes relativas à necessidade de “…burilar corações, dirigindo a educação dos filhos para as verdadeiras, legítimas finalidades da existência.”(4)

Referências Bibliográficas

  1. Instruções dos espíritos sobre a regeneração da humanidade. Revista Espírita, outubro de 1866, p.301-309.
  2. KARDEC, ALLAN. Estatística de suicídio, Revista Espírita, julho de 1862, p.196-202.
  3. Amor, Super Interessante, julho de 2001, p.70-75
  4. BEZERRA DE MENEZES. Advertência à juventude de boa vontade. In: A tragédia de Santa Maria. FEB.

(Jornal Verdade e Luz Nº 193 Fevereiro de 2002)