O nascimento de Jesus em nossos corações

Leda Marques Bighetti

de Ribeirão Preto, SP

Face às circunstâncias, fatos e acontecimentos que envolvem a sociedade, contestando, visando substituir ou desmerecer os valores do Bem, novamente dezembro chega para relembrar Jesus, na proposta de caminhos que ofereça paz aos corações. Implicita que, quem O conhece, quem O segue, onde quer que esteja, pode, é ou deverá ser, um motivador destas mesmas propostas.

Encontramos em Mt. XXIII - 10; Mt. XXVIII - 19; ROM. XII - 1:

- “Não vos chameis mestres, porque um só é o vosso mestre, que é o Cristo”.

- “Ide e ensinai a todas as gentes”

- “Se ensinar, que haja dedicação ao ensino”, citações estas que levam a questionar:

Como, onde e de que forma, a exemplo de Jesus, ensinar a toda gente, sendo dedicado ao ensino? Se buscarmos entender porque Jesus é chamado de Mestre, certamente encontraremos respostas. Vejamos: - nessa acepção, de Jesus Mestre, não o entenderemos na significação simplista de que é alguém que só ensina, que é perito, versado, conhecedor de uma ciência ou arte, mas sim que reunindo esses dois conceitos torna-se superior pela forma como vivencia esse saber, substanciando-o na construção do bem de todos.

Ensina a Gênese (1-5-4) que Jesus ensinou o que os povos não sabiam ou não teriam condição de por si mesmos descobrirem. Nesse tempo, Jesus é o agente eficiente e principal da educação onde apresenta idéias, propõe caminhos desconhecidos ao Espírito ainda imaturo.

No momento seguinte que se derrama no hoje, surge, com a abertura mental o predomínio do educando, onde, percebendo a grandeza do convite, dispõe-se a aplicá-lo em si, renovando-se frente a valores reais, no contínuo processo da auto-educação.

Como Mestre, propunha Jesus conteúdo imortal. Acenando com a visão do homem ideal surgirá ele, nesse trabalho pessoal que fará eclodir, desabrochar a potencialidade divina, contida em gérmen desde o instante da criação. Crê no homem, tem fé, confia, nele reconhece a riqueza do Espírito; tudo quanto semeia tem em vista esse fim maior a alcançar.

Não perdia oportunidade de lançar questionamentos, conhecedor de que só pelo trabalho da mente ativada pelo conhecimento poderá o homem escolher entre o bem e o mal, e aí livremente decidir com responsabilidade, sem aparências, sem exterioridades frágeis.

Nesse momento precisa compreender para melhorar; nos frutos do melhorar, na renovação que se dá, quer mais compreender. Nesse ritmo descobrirá  o Amor, na vivência iluminada pela fé.

Como Mestre, ensina a respeitar o momento mental em que cada qual se detém - não impõe, não julga, não afasta, não aliena: ensina, mostra, deixa que livremente tire conclusões, compara proposta, o ideal, com a própria realidade.

Não enquadra seu método a divulgar idéias que se detém no limite berço/túmulo. Promove o conhecimento íntimo, onde o homem se vê frente a ele próprio na vida imperecível que, se teve começo projeta-se no imortal.

Propõe a educação integral, enfatizando a necessidade das posições morais isto é, viver, ser, agir, falar, pensar, sentir de acordo, coerente, idêntica ao que se aprendeu, estudou, comparou, aceitou e incorporou de verdade em si e que lhe possibilitará a que mais facilmente perceba as leis divinas inscritas na própria consciência, geradoras agora das posições livremente centradas no Bem.

Jesus, ofereceu e oferece, a cada instante, em que mais e mais se propõe o homem a conhecê-Lo, novos caminhos, ativando aspectos mentais e emocionais, desenvolvendo atitudes cristãs, consigo, com o próximo e por decorrência, com Deus.

A proposta cristã portanto, é toda voltada para a Vida quando preconiza uma sociedade justa na vivência da paz que decorrerá na proporção em que cada um realizar em si os convites morais libertadores., trazidos e vividos por Jesus.

Além do conhecimento, da aplicação renovadora, outro fator altamente marcante na estada do Cristo na Terra foi o exemplo.

Lembra Emmanuel em “Religião dos Espíritos” que nesse afã de despertar o homem, em todos os tempos foram enviados Espíritos, cada um deles ensinou algo importante, beneficiaram muitos e são credores de gratidão e carinho. Cada um deles, porém, lutava vencendo dificuldades pessoais, próprias onde se mesclavam sombras e luzes.

Só em Jesus, encontraremos o Mestre completo, irrepreensível que vivia conforme ensinava, a ponto de constituir-se como o guia real para a ascensão humana.

Quando em “O Livro dos Espíritos” Kardec formula a questão 625, indagando qual o Espírito mais perfeito que Deus enviou ao planeta para servir de modelo ao Espírito aí encarnado, sinteticamente respondem: — “Vede Jesus”, a enfatizar que só Ele é bastante grande, bastante puro para ser integralmente seguido, como Mestre e Senhor, Amigo, Exemplo e Irmão.

Percebemos, a medida que refletimos, Jesus intensamente atuante, hoje, através das propostas e convites contidos na mensagem, onde a renovação moral se destaca como a única capaz de transformação social, pela geração expontânea, livremente buscada na decisão pessoal daquele que crê, que escolhe, que renova porque se conscientizou, entendeu, deseja e quer ser melhor, integrando em seu viver os frutos do Amor: fraternidade, solidariedade, respeito, tolerância, sinceridade, firmeza, decisões enfim, coerentes, onde o bem do outro se prioriza.

Poucos compreenderam que a proposta cristã, ao invés de elaborar ou propor novo modelo de religião, visa despertar a que se elabore, desenvolva, ecloda e se feche, o homem criado à imagem e semelhança de Deus.

Nesse sentido, em Coríntios I-12 a 27, assevera Paulo que “(...) ora, vós sois o corpo do Cristo e seus membros em particular (...)”, fazendo sentir a extensão da responsabilidade que nos compete frente à Boa Nova, onde cada cristão é parte viva do corpo de princípios do Mestre, com serviços em particular.

Nesse sentido não mais cabe a confiança preguiçosa nos poderes de Jesus, as afirmações labiais de fé no Senhor. Surgirá sim, pela adesão consciente, o contínuo esforço no trabalho edificante pessoal, íntimo que é reservado a cada um.

Sentindo, pensando, falando e agindo, nessa ou naquela ocorrência, agirá esse cristão, no sentir, pensar, falar e agir como se o Mestre estivesse sentindo, pensando, falando e agindo em nós e por nós.

Pergunta Emmanuel em “Palavras de Vida Eterna” (330) se tal afirmação, se tal certeza não refletiria “(...) atrevida superestimação de nós próprios”, chegando a concluir que “(...) apesar de nossas evidentes imperfeições é forçoso começar a viver no Senhor para que o Senhor viva onde nos cabe viver.

Para isso, perguntemos diariamente, a nós mesmo como faria Jesus o que estamos fazendo, porque o Cristo, o dirigente e mentor de nossa fé, todos nós, servos dele, somos chamados no setor da atividade individual, a defini-Lo com fiel expressão”.

Assim, o dezembro que chega, trazendo todo um aparato que o diferencia de todos os outros meses do ano, tem sobretudo essa função - de lembrar o Mestre Jesus que “(...) descendo da Glória à Manjedoura, convida a que se reparte com todos nossa “alegria, esperanças, pão e vestes”.

Não importa sejas, por enquanto, terno e generoso para com o próximo, somente um dia.

Pouco a pouco aprenderás que o Espírito do Natal deve reinar conosco em todas as horas da nossa vida.

Então, serás o irmão abnegado e fiel de todos, porque em cada manhã ouvirás uma voz a sussurrar-te sutil: Jesus nasceu! Jesus nasceu!” (Irmão X - Crônica de Natal)

Seja, esse tempo de Natal que chega, também um tempo de reflexões que permita perceber em que ponto nos situamos na vivência das propostas do Amor.

Que a exemplo de Paulo (Gl. 2:20) possamos sentir - “Já não sou eu quem vive - é o Cristo que vive em mim”.

Nesse momento, realmente terá nascido em nossos corações, o Mestre Jesus integrando-nos no mundo de plenitude, justiça e paz que todos almejamos.

(Jornal Verdade e Luz Nº 191 de Dezembro de 2001)