O Natal

Mércia Carvalho

de Natal, RN

O Natal sempre foi para mim, desde criança, um momento mágico. Não pelos presentes, brinquedos, visitas ou uma ceia repleta de pratos especiais, mas pelo que eu sentia nele: uma mansuetude sem igual, uma alegria muito terna quando via as luzes a piscar, iluminando e colorindo tudo diante dos meus olhos.

Na vitrine enfeitada, ali estava a figura central de toda esta intensa alegria que enchia o coração das pessoas - Jesus. Ficava quieta a cismar olhando as figuras que representavam Jesus, Maria, José, os animais deitados no chão batido da gruta e os pastores ajoelhados do lado de fora. E no alto da gruta, um galo com o pescoço esticado cantando como que a anunciar o nascimento de Jesus.

Diante do presépio, eu me postava e observava a simplicidade de tudo que cercava Jesus. Em contato com a natureza o filho de Deus tinha a seus pés, com toda a sua singeleza e humildade, os elementos fundamentais da vida. Todo o quadro interligava-se àquele menino cheio de ternura e soberanamente meigo, de uma forma natural e bela. Os pastores, tocados por um profundo sentimento de respeito, os animais envolvidos na aura de sua candura e a estrela era o sinal de que Deus tinha enviado uma pessoa muito, muito especial para iluminar os caminhos dos homens.

A emoção chegava devagar, enchendo minha alma de uma felicidade muito grande, um enorme desejo de fazer todos felizes, de ajudar, porque era isso que Jesus repassava para meu coração infantil. Ele era singelo, humilde, cheio de amor e dava a impressão de que não cobrava nada de ninguém. Ele era como precisava ser.

Eu ficava olhando as pessoas a comprar presentes, comidas, roupas novas; a manter as casas enfeitadas, pintadas, arrumadas e me perguntava: Mas será isso que Jesus quer de nós? É isto que representa o seu nascimento? E os que não tinham dinheiro para nada comprar, os que estavam doentes, os caídos na estrada, as mulheres escandalosas, mal vistas, mas que choravam às escondidas?

Tinha uma certeza muito forte dentro de mim de que o Natal não era só o que eu via. O tempo passou, ensinando-me a viver e mais tarde, bem mais tarde, conviver.

As alegrias, as dores, as lágrimas, as expectativas, a saudade e a tristeza fizeram parte dos meus dias de uma forma intensa. As cicatrizes, as marcas do aprendizado me levaram a parar, refletir e perguntar: O que Jesus quer de mim?

Diante da violência, da miséria, da fome, das chagas morais que dilaceram o coração do homem, questionava: Onde está Jesus?

Em especial, na época natalina, as cenas iam se repetindo, sempre iguais, acrescidas pelo número de corações solitários, insatisfeitos, reprimidos, esfomeados das almas e dos corpos, que deixavam nas vitrines iluminadas, as marcas de suas mãos. Eu refletia: “foi para ver tudo isso que Jesus veio à Terra?”

Um dia, “O Evangelho Segundo o Espiritismo” chegou às minhas mãos e senti as emoções jorrarem novamente de meu peito. Em cada frase, cada explicação encontrava a presença do Cristo a me dizer: “Necessário vos é nascer de novo”, “A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”, “Quem pela espada fere, pela espada perecerá”, “Aquele que não tomar a sua cruz e me seguir, de mim não é digno”. Completava tantas coisas dizendo: “Vinde a mim todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, porque eu vos aliviarei”. Mais adiante dizia: “Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei a meu Pai e ele vos enviará outro consolador, a fim de que fique eternamente convosco”.

Compreendi então o sentido do Natal. Jesus viera trazer todo o seu amor aos homens e oferecer à humanidade o seu sublime roteiro para se viver feliz. Simples, fez da sua passagem pela Terra o Hino da Libertação, um Poema de Amor Imortal e Permanente.

Ele veio para compartilhar das nossas dores e dispensar amor onde se fizesse necessário, independente de credos religiosos, procedência social. Deixou um convite a todos nós, para que adotássemos como norma de vida a máxima “Amais-vos uns aos outros, como eu vos amei”.

Então aprendi que Natal é o exercício do amor a cada dia, em renascimento constante. Natal é o trabalho diário no bem a serviço do Cristo. Natal é o acolher, amparar, compreender, perdoar, amar, como Jesus faz diariamente conosco.

Natal é ter o Cristo dentro de si, todos os dias e tornar-se o “sal da terra”, o semeador de estrelas nas noites escuras de sofrimento do homem.

Sim, este é o espírito do Natal!

(Jornal Verdade e Luz Nº 191 de Dezembro de 2001)