O Trem da Vida

Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves

de Ribeirão Preto, SP

Em tempos de ameaças terroristas, de ataques surpresas e armas biológicas, parece que vamos perdendo a dimensão da nossa vida, nossa tarefa, nossa missão. Um medo enorme vai tomando conta de todos e passamos a pensar de forma pequena, esquecendo que fazemos parte de um todo maior. Por que não pensar dentro de um contexto mais amplo? Dar uma olhada geral em nossa vida e nos perguntar: O que estou fazendo aqui? Qual o meu papel? O que está reservado para mim? Talvez seja bom aproveitarmos o momento para uma reflexão, e pensar com tranqüilidade sobre como temos levado nossa vida.

Um bom ponto de partida para estas reflexões pode ser um texto, distribuído em sala de espera de um médico, sem referência a seu autor. Tal texto, que apresento a que seguir, foi levado a uma reunião de estudos de um Centro Espírita, propiciando discussão e uma diferente perspectiva para nossa vida:

“Há algum tempo atrás, li um livro que comparava a vida a uma viagem de trem. Uma literatura extremamente interessante, quando bem interpretada.

Isso mesmo, a vida não passa de uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques, alguns acidentes, surpresas agradáveis em alguns embarques e grandes tristezas em outros.

Quando nascemos entramos nesse trem e nos deparamos com algumas pessoas que, julgamos, estarão sempre nessa viagem conosco: nossos pais. Infelizmente, isso não é verdade; em alguma estação eles descerão e nos deixarão órfãos de seu carinho, amizade e companhia insubstituível… mas isso não impede que, durante o viagem, pessoas interessantes e que virão o ser super especiais para nós, embarquem.

Chegam nossos irmãos, amigos e amores maravilhosos.

Muitas pessoas tomam esse trem apenas a passeio. Outros encontrarão nessa viagem somente tristezas. Ainda outros circularão pelo trem, prontos o ajudar a quem precisa. Muitos descem e deixam saudades eternas, outros tantos passam por ele de uma formo que, quando desocupam sou acento, ninguém nem sequer percebe.

Curioso é constatar que alguns passageiros que nos são tão caros, acomodam-se em vagões diferentes dos nossos; portanto, somos obrigados a fazer esse trajeto separados deles, o que não impede, é claro, que durante o trajeto, atravessemos com grande dificuldade nosso vagão e cheguemos até eles… só que, infelizmente, jamais, poderemos sentar ao seu lado, pois já terá alguém ocupando aquele lugar.

Não importa, é assim o viagem, cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, despedidas… porém, jamais, retornos. Façamos essa viagem, então, da melhor maneira possível, tentando nos relacionar bem com todos os passageiros, procurando, em cada um deles, o que tiverem de melhor, lembrando, sempre, que, em algum momento do trajeto, eles poderão fraquejar e provavelmente, precisaremos entender porque nós também fraquejaremos muitas vezes e, com certeza, haverá alguém que não entenderá.

O grande mistério, afinal, é que jamais saberemos em que parada desceremos, muito menos nossos companheiros, nem mesmo aquele que está sentado ao nosso lado.

Eu fico pensando se quando descer desse trem sentirei saudades… acredito que sim. Mas separar de alguns amigos que fiz nele será, no mínimo dolorido. Deixar meus filhos continuarem a viagem sozinhos, com certeza será muito triste, mas me agarro no esperança que, em algum momento, estarei na estação principal e terei a grande emoção de vê-los chegar com uma bagagem que tinham quando embarcaram… e o que vai me deixar feliz, será pensar que eu colaborei para que ela tenha crescido e se tornado valiosa…

Amigos, façamos com que a nossa estada, nesse trem, seja tranqüila, que tenha valido a pena e que, quando chegar a hora de desembarcarmos, o nosso lugar vazio traga saudades e boas recordações para aqueles que prosseguirem a viagem.”

Anônimo, distribuído em sala de espera de clínica médica.

E-mail: verdeluz.marlene@bol.com.br

(Jornal Verdade e Luz Nº 190 de Novembro de 2001)