O voluntário

Lucileide Malaguth Novais

de Sabará, MG

A lei 9.608, que rege o serviço voluntário, nos faz pensar no papel deste distinto membro das instituições filantrópicas espíritas. Voluntariado pressupõe, ação espontânea para auxiliar. Aquele que age de acordo com a sua vontade, age quando pode e como pode. Ficamos então nos perguntando, se as várias atividades que concernem a um grupo espírita, podem esperar, a hora e a vez do querer destes elementos de boa vontade. Mais interessante ainda é notar que, a sincera intenção de ajudar move muitos aos portais das Casas Espíritas, que seguem sua trajetória voltada sempre para os preceitos máximos da Caridade.

Nos lembramos então em dado momento de trabalho intenso de nosso grupo, quando o espaço físico se fazia pequeno e os membros da Casa se multiplicavam em tarefas múltiplas, de um rosto, o de Dona Rosa. Miúda, face marcada pelas lutas dessa vida, pele morena como a de um índio, olhar pequeno, sagaz, profundo. Não era muito de sorrir, pela vergonha que tinha dos dentes falhos, mas quando o fazia, seus olhos se iluminavam de tal forma que não havia quem não sorrisse junto, feliz com sua felicidade.

Pois é, Dona Rosa não era tarefeira de nossa Casa e sim uma atendida. Já idosa, com sério comprometimento cardíaco, vinha sempre em busca da sacola de mantimentos que distribuíamos e, mais do que a sacola, dizia que gostava mesmo era de ouvir a coordenadora desses trabalhos falar das "passagens de Jesus", ou seja, o estudo do Evangelho Segundo o Espiritismo.

De uma forma que pudesse ir de encontro ao coração e à mente de pessoas tão humildes, na sua maioria advindas dos bairros mais pobres da periferia de Belo Horizonte, a fala era rica em imagens (cartazes, fotos, slides, etc.) que pudessem facilitar na compreensão de modo didático e metodológico. E Dona Rosa se encantava com tais exposições e as comentava traduzindo sua compreensão e interesse.

Certa feita quando esta reunião Evangélica já havia terminado e a distribuição das sacolas estava bem a meio caminho, e ela quase a receber a sua, ouviu sem ser vista pelos interlocutores a seguinte conversa:

— Acho que vou dar um "tempo" destas tarefas, estou me preparando para um concurso e não terei condições de me dividir em tantas atividades.

— Bom se você crê que será difícil, então dê um tempo. Pena que sua tarefa aqui é justamente pegar os alimentos com os doadores e trazê-los para a Casa, e nós já temos tão poucos carros disponíveis e que comportam uma quantidade maior de coisas. Não há mesmo outra maneira?

— Não infelizmente. Preciso me preparar e se eu conseguir passar, aí que não sei mesmo o que fazer, pois terei que trabalhar em dois horários, no emprego em que já estou, e mais no novo. Minhas manhãs não estarão mais livres.

A conversa do tarefeiro era com a coordenadora que começou a perceber que ia mesmo ter que arranjar uma outra pessoa para exercer este trabalho. Já era tão complicado alguém se dispor a ir, e mais essa agora, pensou. Mas não podia interferir na decisão do companheiro e por respeito a este acatou, ponderando.

— Vamos então pedir a Deus que as coisas se encaminhem, te desejo sorte.

Donas Rosa que a tudo ouvia atenta pediu licença para entrar na conversa e já foi logo com muita humildade e bom humor perguntando:

— Me desculpem a ignorância, mas gente de melhor condição que a nossa não come todo dia não?

— Claro que sim, Dona Rosa, porquê a pergunta? Quis saber a coordenadora.

— Não, é só para a gente entender, se o tal do trabalhador da última hora anda sem hora para trabalhar, e se ele que tem necessidade de comer todo dia igual a gente não consegue esse tempo, fico imaginando se as sacolas que são cheias de alimento com o que ele traz, vão ficar vazias, por que ele não pode mais ajudar. Olhe moço, pobre come todo dia e fome não tem dó, vem mesmo.

— Não minha querida, interferiu a coordenadora, outro fará este trabalho.

— Ah! Bom, Não pensem vocês que estou reclamando, eu só queira entender. Mas agora estou com pena é do moço aí.

— De mim, porquê?

— Ora, seu moço, o senhor é que vai ficar com fome de ajudar. Porque não é consolando que a gente é consolado? E dando um riso cheio, foi logo completando: gente come todo dia, mas a alma, essa é muito mais "gulosa", só fica calma quando mata a fome com o Cristo. Se eu "tivé" errada me "acorrijam" então. E saiu muito lampeira para receber sua sacola.

A coordenadora para não criar constrangimento saiu mansamente, deixando um tarefeiro boquiaberto sem saber o que dizer.

Dona Rosa já se encontra na Pátria Espiritual, e imaginamos que deva estar lá dando suas lições de vida, grandes lições. Saudade, minha amiga, saudade.

(Jornal Verdade e Luz Nº 193 Fevereiro de 2002)