Os trabalhadores da última hora

José Argemiro da Silveira

de Ribeirão Preto, SP

“O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de aliciar trabalhadores para sua vinha” (Mateus, cap. XX, v. 1 e seguintes).

A parábola dos trabalhadores na vinha não é de fácil interpretação. Diversos grupos de trabalhadores recebem o mesmo pagamento por períodos de trabalho totalmente diversos. Uns trabalham o dia todo, doze horas, das 6 às 18 horas; outros apenas uma hora, das 17 às 18 horas - e todos recebem a mesma quantia. Como entender o fato de Jesus comparar o reino dos céus, onde tudo é justiça, com uma situação aparentemente injusta: a remuneração igual a jornadas de trabalho desiguais. Procuremos entender o ensinamento que o Mestre nos deixou.

O pai de família - Deus; A vinha - O Universo; Os trabalhadores - Os seres humanos; O trabalho na vinha - O trabalho no bem; As horas - Qualquer período de tempo; O salário - A felicidade que se consegue com o trabalho no bem.

Há um aparente conflito da idéia de um Deus justo com o modo pelo qual o senhor da vinha remunerou os trabalhadores. Certamente Jesus não pretendeu caracterizar Deus como injusto. Rui Barbosa disse certa vez que tratar iguais com desigualdade é cometer injustiça, mas tratar desiguais com igualdade também é cometer injustiça. Vamos à parábola.

O pai de família pagou aos trabalhadores da primeira hora exatamente o valor combinado. Portanto, não os prejudicou, como ele mesmo lembrou quando eles reclamaram. Quanto aos demais, a parábola nada diz sobre o acerto de salário, levando-nos a entender que os trabalhadores aceitaram a oferta de trabalho sem combinar, previamente, o salário. O senhor da vinha, ao ser questionado pelos trabalhadores da primeira hora, esclarece que o fato de pagar o mesmo salário a todos foi um ato de bondade de sua parte. Nestas condições, a quantia paga aos que chegaram mais tarde seria, parte remuneração pelo serviço prestado, e parte auxílio espontâneo.

Vemos, portanto, que o senhor da vinha nada fez de injusto. Quando prestamos auxílio a pessoas diferentes, e as ajudamos com quantias desiguais, a critério nosso, não cometemos injustiça, pois temos liberdade de distribuir tais recursos da maneira como entendermos mais acertada. Também quando auxiliamos a instituições beneficentes diversas, não cogitamos de atribuir a mesma quota a cada uma delas, Consideramos o volume de serviços que prestam à comunidade, suas dificuldades, e com base nesses dados é que outorgamos o nosso apoio. Parece não haver injustiça aí.

A parábola mostra que os que foram contratados mais tarde tinham disponibilidade para o trabalho. Faltou-lhes a oportunidade. Trabalharam menos hora não por preguiça ou negligência, e sim por motivos alheios à sua vontade. Quando o senhor da vinha os convocou, aceitaram prontamente e, pelo que consta no texto, sem exigir qualquer pagamento.

Jesus, por certo, valorizou a boa-vontade, a disponibilidade daqueles trabalhadores que, ao serem convocados ao trabalho, atenderam prontamente, sem cogitar da retribuição, da recompensa a ser obtida. Poderiam ter raciocinado que já era tarde, trabalhariam por pouco tempo, e, conseqüentemente, a remuneração não seria compensadora. Mas não agiram assim, com esse cálculo, visando só a recompensa para se entregarem ao trabalho. Trazendo para o campo prático, e entendendo esse trabalho, como atividade no bem, serviço em favor do bem comum, sabemos que muitas vezes pessoas deixam de dar a sua colaboração numa determinada instituição, ou num projeto em favor do próximo, porque não obteriam as “vantagens” (aparecer como bom perante a opinião de terceiros, ficar mais conhecido, ser aplaudido, etc.) que desejariam.

No Livro dos Espíritos, questão 893, Kardec indaga qual a mais meritória de todas as virtudes? Os instrutores respondem: “Todas as virtudes tem o seu mérito, porque todas são indícios de progresso no caminho do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento das más tendências; mas a sublimidade da virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal para o bem do próximo, sem segunda intenção”.

A parábola nos ensina a importância de nosso engajamento na atividade da “vinha”. Ele traz para nós o “salário” da felicidade, a auto-realização, a tranqüilidade moral, ajudando-nos em nossa evolução espiritual, finalidade da existência na Terra.

O fato de os trabalhadores serem arrebanhados em horas diferentes, a nosso ver, significa que o momento em que atendemos o chamado não ocorre no mesmo tempo, nem nas mesmas condições. Cada um está num patamar evolutivo. Assim, embora haja trabalho para todos, “só quando estamos pronto é que o Mestre aparece”. Importante evitar a preguiça e a indiferença, como os personagens da parábola, mas também não nos aventuramos tentando fazer coisas superiores às nossas possibilidades, por orgulho e vaidade, Se cultivarmos o estudo, a reflexão, e buscarmos cooperar com o bem, vamos entendendo o sentido da vida, e encontramos o lugar para atuarmos, naturalmente. “Estar na praça”, aguardando o chamamento, como os personagens da estória, é nos preparar intelectual e moralmente, para atender o chamado.

Se nosso limite não nos permite produzir mais, mas se fazemos o que podemos, com sinceridade, na direção correta, a bondade Divina sabe valorizar nosso esforço. Daí a igualdade de pagamento aos trabalhadores da estória.

Outro ensino importante é o alerta quanto a inveja - “Tens mau olho, porque sou bom?”. Diante da generosidade do pai de família, os trabalhadores da primeira hora reclamaram, embora houvessem recebido o que fora combinado. Mas julgaram merecer mais, já que os outros receberam a mesma quantia. É freqüente acontecer com muitos de nós. Estamos bem, tudo corre normalmente, mas só porque, ao que nos parece, outros (vizinhos, amigos, colegas de trabalho) estão obtendo mais sucesso, neste ou naquele sentido, ficamos frustrados, descontentes. Atitude errada que Jesus combate. Devemos nos alegrar com o bem, o sucesso do outro, e não “ter mau olho, porque o Pai é bom”.

(Jornal Verdade e Luz Nº 186 de Julho de 2001)