Pedagogia da Violência x Pedagogia do Amor

Nilza Teresa Rotter Pelá

de Ribeirão Preto, SP

Temos vivido tempos difíceis onde a violência tem mostrado sua face cruel, quer na guerra, quer no cotidiano de nossas vidas, muitas vezes tão próximo de nós que nos causa mal estar e sentimento de impotência.

Fruto da filosofia de “quem pode mais chora menos”, a intolerância vai fazendo seus adeptos tornando crônico o comportamento de a tudo revidar como sendo força de caráter e não manutenção de uma prática corrosiva e inútil que jamais trará tranqüilidade ao convívio social.

Mas a própria vida se encarrega de nos mandar suas lições e seus exemplos através daqueles que vivendo em clima de violência conseguiram “dar a volta por cima” e reconstruir suas experiências ainda na presente reencarnação.

Com o título “O doutor da FEBEM” o Jornal da USP (3 a 9/9/2001) nos trás um maravilhoso caso real de um vitorioso, que mesmo tendo vivido sua infância exposto à pedagogia da violência conseguiu tornar-se pedagogo e concluir seu mestrado e doutorado na USP.

Esse doutor em pedagogia foi interno da Febem dos 4 aos 17 anos e passou mais sete anos na Casa de Detenção. Seu ingresso na Instituição foi ocasionado pela desestruturação familiar, quando seu pai abandonou a família e a mãe não teve condições financeiras de sustentar todos os filhos. As crianças foram separadas e encaminhadas a diferentes instituições, fato que ele veio saber muitos anos mais tarde. E até hoje procura os irmãos.

Enfatiza que não se lembra de ninguém lhe agraciando com um gesto de carinho, logo se tornou adepto da violência e afirma: “Consegui meu espaço batendo em quem me batia. Para formar minha identidade passei por muitas brigas e disputas...”. A reportagem relata que ele manteve esta situação até que “resolveu que ‘bateria’ em quem o estava surrando, a vida. Assim virou o jogo”.

Está mudança na utilização de seu potencial criativo direcionando suas energias em construir algo para si e desviando-se da destruição do outro foi sua “tábua de salvação”, pois saiu da situação de canalizar forças para a violência gerando situações de construir algo que fosse útil, primeiro para si e depois para os outros.

A partir de suas próprias experiências, propõe uma mudança dos paradigmas institucionais onde as necessidades das crianças prevaleçam sobre as ações punitivas. Para o professor a instituição deveria ser o local de orientação da família e da criança/adolescente, pois a pedagogia que usa exclusivamente a punição embrutece, desumanizando a pessoa que trata de sobreviver e não viver em plenitude de seu potencial.

A humanidade já pagou um tributo muito alto à violência, este modelo já se mostrou falido e indicou a necessidade de troca de referência, o que, aliás, já foi indicada há 2 milênios pelo maior de todos os mestres, Jesus.

Em vários artigos de a “Revista Espírita” Kardec se refere a uma estratégia de Jesus que ele denomina da doce persuasão que tem como referência o amor ao próximo como a nós mesmos.

Os estudiosos da comunicação conceituam persuasão como os efeitos relevantes e úteis naquele que recebe uma mensagem de maneira a facilitar o alcance das metas desejadas por aquele que foi o emissor da mensagem. Assim Jesus usava dessa estratégia de maneira doce e suave para propalar a necessidade de se instaurar a prática do amor como forma indispensável de bem viver.

Quando se dirigiu aos homens que queriam apedrejar a mulher adúltera usou essa técnica fazendo-os refletir sobre a intolerância em relação a uma pessoa que erra, quando eles mesmos estavam cobertos de “pecados”. Não saiu esbravejando, apontando os erros de cada um, o que sem dúvida os deixariam enfurecidos, deu-lhes matéria de reflexão e com isto atingiu sua meta, impedindo que a mulher fosse apedrejada e que cada um olhasse para si mesmo antes de julgar o próximo.

Se o pedagogo de quem conhecemos a história de vida tivesse encontrado em seu caminho alguém que lhe tivesse dado carinho e atendido suas necessidades emocionais, teria , como destaca o repórter: “ o talento, certamente, floresceria, de uma forma ou de outra, a afetividade talvez fosse menos prejudicada, menos moída”.

1) Stephen W. Littlejohn- Fundamentos Teóricos da Comunicação Humana.

(Jornal Verdade e Luz Nº 191 de Dezembro de 2001)