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Inácio Bittencourt

Inácio Bittencourt

Em plena juventude, emigrou para o Brasil, sem alimentar idéia de
enriquecimento, mas buscando um ideal que sua intuição afirmava poder encontrar
em sua segunda pátria.

Sem qualquer proteção ou amparo, desembarcou no Rio de Janeiro, sozinho e com
irrisória quantia no bolso. Entretanto, já era um jovem de caráter sério e de
grandes dotes morais.

Inácio Bittencourt foi um desses abnegados, que só se alegravam com a alegria
do seu semelhante. Por isso foi aquinhoado com a mediunidade natural, que
geralmente depende da evolução espiritual do indivíduo. Ela surgiu
espontaneamente, sem qualquer esforço de planejamento, como um imperativo da
essência de sua alma boa e sempre disposta à prática do bem.

Aos vinte anos de idade inteirou- se da verdade espírita. Bastante enfermo e
desesperançado, foi levado à presença de um médium chamado Cordeiro, residente
na Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, e, graças ao auxílio espiritual
recebido, teve a sua saúde completamente restabelecida. Inconformado com a
rapidez da cura, voltou e indagou do médium: “Não sendo o senhor médico, não
indagando quais eram os meus padecimentos e não me tendo auscultado ou apalpado
qualquer um dos órgãos, como pôde curar- me?”

E a resposta veio incontinenti: “Leia “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e
“O Livro dos Espíritos”. Medite bastante e neles encontrará a resposta para a
sua indagação”.

Bittencourt seguiu o conselho e, desde logo, com grande surpresa e
naturalidade, se apresentaram nele algumas faculdades mediúnicas. Descortinando
novos horizontes, rompido o véu que impedia que conhecesse novas verdades,
integrou- se resolutamente na tarefa de divulgação evangélica e de assistência
espiritual aos mais necessitados.

Bem cedo, com trinta anos de idade, sua personalidade alcançou grande
destaque nos meios espíritas e mesmo fora deles. Poderia ter alcançado
culminância na política, desde que aceitasse a indicação de seu nome para uma
chapa de deputado, uma vez que era apoiado por vários senadores da República.
Sua vitória na eleição não sofreria dúvida. Porém, sempre humilde, fugindo aos
movimentos alheios à caridade, preferiu viver no seu mundo, no qual reinava a
figura exponencial e amorosa de Jesus Cristo.

Fundou a 1.o. de maio de 1912, e dirigiu- o durante mais de trinta anos, o
semanário “Aurora”, que se tornou conhecido e apreciado veículo de divulgação
doutrinária. Sob sua presidência foi fundado cm 1919 o “Abrigo Tereza de Jesus”,
tradicional obra assistencial até hoje em pleno funcionamento, com larga soma de
benefícios a crianças desamparadas, de ambos os sexos.

Fundou o Centro Cáritas, juntamente com Samuel Caldas e Viana dc Carvalho,
presidindo- o até a data da sua desencarnação. Tomou parte ativa na fundação da
“União Espírita Suburbana” e do “Asilo Legião do Bem”, que acolhe vovozinhas
desamparadas. Durante alguns anos exerceu também a Vice- Presidência da
Federação Espírita Brasileira, presidiu o “Centro Humildade e Fé”, onde nasceu a
“Tribuna Espírita”, por ele dirigida durante alguns anos.

A mediunidade receitista e curadora de Inácio Bittencourt mereceu diversas
opiniões. Algumas vezes chegou a ser processado “por exercício ilegal da
medicina”, mas sempre foi absolvido. Em 1923 houve um acórdão importante do
Supremo Tribunal Federal, a respeito.

Certa vez, no Centro Cáritas, ao ensejo de uma prece, ouviram- se na sala, de
forma bastante nítida, acordes de um violino. O artista invisível executava
estranha e belíssima melodia, envolvendo a todos em profunda emoção.

Bittencourt, então, salientou que aquela audição representava magnânima
manifestação da graça de Jesus Cristo, permitindo que chegasse ao grupo o de que
mais ele necessitava, para compreender a ressonância de uma prece sincera no
plano divino.

Manifestações dessa natureza não eram raras no Centro Cáritas, possibilitando
sempre vibrações amorosas dos encarnados, protegidas pelos Mentores Espirituais,
de maneira que essas forças ali chegavam para as sensibilizantes demonstrações
de afeto e carinho.

Não foi somente como médium receitista e curador que Inácio Bittencourt
grangeou a notoriedade, a estima e a admiração de todos, mas igualmente como
médium apto a receber do Alto maravilhosa inspiração que, durante larga fase do
seu mediunato, se manifestou notória e admirável, sempre que ele assomava às
tribunas doutrinárias, principalmente à da Federação Espírita Brasileira, a
cujas sessões de estudos comparecia com bastante assiduidade.

Embora não fosse dotado de cultura acadêmica, escrevia artigos doutrinários
de forma surpreendente, e fazia uso da palavra em auditórios espíritas de forma
bastante eloqüente. O simples fato de dirigir um jornal de grande penetração
como o foi “Aurora”, demonstra a fibra e o valor desse seareiro incomparável e
incansável.

Com 80 anos de idade, retornou à patria espiritual, após lenta agonia. Dias
antes da sua desencarnação, com a coragem e a serenidade de um justo, ditara
para os seus familiares os termos do convite para os seus funerais: “A família
Inácio Bittencourt comunica o seu falecimento. A pedido do morto, dispensam- se
flores”. Dona Rosa, sua bondosa companheira, ponderou: “Você amontoou flores na
vida terrena, e essas flores virão agora engalanar a sua vida espiritual”. O
velho seareiro, dando, mais uma vez, prova admirável da capacidade de
transigência do seu Espírito altamente evoluído, aquiesceu: “Está bem. Concordo
com você e aceito as flores. Elas significarão a simpatia e o afeto de bondosos
amigos para com o meu Espírito. Mas desejo que se transformem na derradeira
homenagem que presto a você, nesta encarnação, ofertando- lhas logo após
recebê-las. Nosso filho Israel se encarregará de proceder à oferenda”.

Inácio Bittencourt foi um exemplo vivo de virtudes santificantes. A todos os
golpes de malquerença e a todos os gestos de ofensa, sempre replicava com
sorriso e perdão. Soube sempre ser tolerante e compreensivo para com aqueles que
o criticavam. Levou sempre a assistência material e espiritual a todos aqueles
que dela necessitavam, fazendo com que sua ação fecunda e benfazeja se baseasse
sempre nos lídimos preceitos evangélicos, pois, como poucos, ele soube viver e
praticar os ensinamentos do Meigo Rabi da Galiléia.

Falando com clareza e simplicidade, esforçou- se sempre em desvendar, para os
seus semelhantes, o véu que oculta as verdades eternas que os homens chamam de
mistérios divinos. Caminhou sempre sem protestos ou lamentações. Que a vida bem
vivida desse grande propagador do Espistismo possa nos servir de bússola a fim
de nos orientar nos momentos de vacilações e de tribulações.

As curas operadas através da mediunidade de Inácio Bittencourt foram das mais
marcantes. Inúmeros casos, que eram considerados perdidos pela medicina oficial,
foram resolvidos pela sua interferência, tornando- se assim um ponto de
convergência para os sofredores de todos os matizes.

(Subsídios fornecidos por Artur Silva Araújo)

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