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A Decisão Radical

A Decisão Radical

Todos nós estamos sujeitos a incertezas e mudanças drásticas neste planeta de
expiações e provas em que vivemos; perdemos fortunas, perdemos nossos
entes queridos, sofremos acidentes, perdemos nossos empregos e nossas casas,
muitas vezes sem uma causa direta e muitas vezes de forma aparentemente injusta
uma vez que alguns de nós são exemplos de virtude, que vivem praticando o bem,
ótimas pessoas que jamais praticaram uma violência. Alguns se revoltam contra
Deus, outros aceitam a perda conscientes de se tratar de uma expiação ou prova.
Mas na sua maioria, após algum tempo, continuam a viver suas vidas da mesma
forma que viviam antes, preocupados com os pequenos problemas do dia a dia,
procurando ainda ser felizes na matéria, achando até que devem agradecer a Deus
pelo ocorrido porque representa um resgate de promissória de uma dívida
contraída em vidas passadas, sem se conscientizarem de que esse resgate não terá
valor se continuarem contraindo novas dívidas.

Alguns ainda se lembram de melhorar a si próprios, mas na primeira situação
de pressão exercida pela vida, voltam a seus hábitos antigos, revidando,
vingando-se, respondendo à altura as ofensas, desertando do trabalho que lhe
competia realizar, virando as costas ante um entendimento mais amplo,
respondendo com provocações e hostilidades, com deboches, com atos de pouca
moral, com demonstrações de raiva e violência, mergulhando em palavrões no
santuário doméstico. Muitos de nós já freqüentam há anos as casas espíritas,
fazem discursos inspirados, pregam passagens do Evangelho, contam longos casos
exemplificadores da forma correta de proceder, censurando e julgando seus
irmãos.

Não mudaram muito. Só diferem de uma pessoa ignorante dos ensinamentos
espíritas pela sua fala, marcada por uma aparente evolução espiritual. Alguns
visitam os doentes nos hospitais, evangelizam nos presídios, aplicam passes,
distribuem sopa aos necessitados; mas dali a minutos estão hostilizando seus
colegas de trabalho com os quais cultivam divergências. E assim a vida vai
passando, as provas e expiações se sucedendo, deixando essas pessoas atônitas
mas conformadas, graças ao estudo da Doutrina.

Quando oram, pedem proteção para que mais nada lhes aconteça e logo voltam a
seu modo de existência que tem sido um hábito de seus espíritos há muitos
séculos. Não conseguem ver nada além de seus interesses imediatos. Procuram
manter a fé, mas recaem sempre nos mesmos erros, com freqüência acarretando
sofrimentos para outra pessoas. Como sempre é o egoísmo e o orgulho que se
disfarça, penetrando em todos os departamentos de suas vidas. Logo se
arrependem, recriminando a si próprios por estarem recorrendo nos mesmos erros,
apesar de já terem decidido se reformar. Mas este arrependimento só dura até que
nova prova os faça demonstrar que na verdade evoluíram muito pouco.
Infelizmente, as pessoas descritas acima constituem a grande maioria entre nós.
Como disse Emmanuel em Pão Nosso: “vivemos num mar vasto de inferioridade …”

Mas o que lhes falta? Se já estudam nos Centros Espíritas o Livro dos
Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo, o Pão Nosso, se fazem o Evangelho
do Lar, o que mais será preciso para uma mudança definitiva?

Em muitos Centros Espíritas falta o exemplo, pois todos, inclusive os
instrutores, estão nesse mesmo nível de evolução. Mas o exemplo de Jesus não
seria suficiente? Sim, mas nós ainda não temos condições de entender em toda sua
extensão o exemplo que nos foi dado. Interpretamos tudo à nossa maneira e
fugimos das questões que nos deixam confusos ou que, se seguidas, implicariam
numa mudança total em nossas vidas, coisa que não desejamos. Acreditamos que
ainda não estamos em condições de dar esses passos. Achamos que só Jesus poderia
agir neste mundo da forma que exemplificou, que não adiantaria tentar porque não
funcionaria conosco.

Para indivíduos que se demoram na realização parcial do bem a evolução deve
prosseguir lentamente, conforme sua capacidade de compreensão e de resistência
ao mal e às tentações. Dentro desse contexto, até que estamos justificados de
pensar e agir assim. E quando nos atrevemos a mudar, parece que nossos
protetores espirituais nos preparam novas provas, nas quais não conseguimos
passar, demonstrando a nós mesmos que ainda não estamos prontos para mudar, que
não deveríamos ter nos atrevido a voar tão longe, que seria até uma pretensão
pensar que já estaríamos em condições de passar para um nível mais elevado na
hierarquia espiritual. Continuamos então no Centro Espírita, eternamente
estudando, certos de que a evolução deva ser lenta, que demorará ainda muitas
encarnações para melhorarmos e passarmos para o próximo nível da hierarquia,
colocando para nós próprios objetivos bem próximos e fáceis de serem atingidos.
É óbvio que dentro dessa forma de pensar, dessa auto limitação, isto também
acabará por se tornar uma realidade.

Na verdade seria necessário uma revolução na forma de pensar, de encarar a
vida. E essa revolução não é favorecida com o modo atual de ensinar, de
evangelizar e de exemplificar, mesmo dentro do espiritismo. O ensino das Casas
Espíritas é bom para os que estão começando. Mas quando se chega neste ponto da
evolução ou a pessoa muda ou permanece estacionada por muitas encarnações,
pagando dívidas antigas e acumulando novas dívidas para as vidas futuras, lendo
e relendo as lições, participando ano após ano dos cursos do seu Centro
Espírita.

É fato que apenas poucos conseguem realizar essa mudança radical, um em cada
dez mil. Este é o significado do passar pela porta estreita e de que muitos são
os chamados e poucos os escolhidos. Essa mudança não pode ser ensinada: a
partir deste ponto da evolução a pessoa tem que caminhar sozinha. Talvez até não
seja mesmo para ser feita enquanto o espírito estiver encarnado, mas sim para
quando já estiver no mundo espiritual, onde terá mais condições de realizar os
passos necessários. Talvez, em muitos casos, seja mesmo uma pretensão a pessoa
pensar que já pode encarar essa mudança, sem antes passar por tudo que lhe
esteja reservado nesta vida.

Mas para quem já merece mudar, para quem já está pronto e deseja tomar esta
decisão radical, e existem exemplos de pessoas que o fizeram, terá de fazê-lo
sozinho, somente o indivíduo com o auxílio de nosso mestre querido, Jesus. E a
partir dessa decisão, dessa mudança, não mais deixará de acreditar que o mais
importante de tudo, a chave para todos os paradoxos, é justamente esse:
Deus. Agora nada mais será tão importante, tudo estará compreendido no Amor
Divino. O filho que perdemos não foi na verdade perdido, está em Deus, e teremos
finalmente o grande e verdadeiro amor pelo nosso próximo, que antes era só um
aspecto teórico, longe de nosso alcance. Teremos finalmente feito nossa
Reforma Íntima.

Bem, mas ainda não a fizemos, apenas falamos sobre ela. Que tal começarmos
procurando fazer conforme foi dito, e colocarmo-nos a sós com Deus? Esta a parte
mais difícil, porque Deus já está conosco mas não nos permitimos estar com Ele.
Se duvidam, experimentem. Logo surgirão pensamentos sobre coisas com as quais
estivemos preocupados há milhares de anos. E será preciso aprender a nos
desligarmos deles, até dos mais preciosos para nós, até que não tenhamos mais
nada ocupando nossa atenção. Só então poderemos nos voltar para Deus. Isto não
quer dizer que precisaremos nos afastar de tudo. Apenas que deveremos aprender a
ter desapego e fé. Desapego para nos desligarmos de todo sentimento de egoísmo,
atingindo o esquecimento total de nós mesmos; para saber que não somos donos de
nada, nem de nossos entes queridos, que tudo pertence a Deus. E fé para
acreditar que aconteça o que acontecer, terá sido pela Vontade de Deus que é
infinitamente justo e bom. Mas então o Amor de Deus para conosco crescerá em
nós, pouco a pouco, até nos arrebatar de tal forma que não precisaremos mais
estar preocupados com isto, tudo irá se encaixando automaticamente.

Por outro lado essa decisão não livra a pessoa de passar pelas provas desta
vida, até pelo contrário, como dissemos acima, as provas deverão se
intensificar. Este o preço que devemos pagar por termos tomado esta decisão, de
nos candidatarmos a subir na hierarquia.

Mas não foi para fazermos esta Reforma Íntima Radical que estamos aqui? Ou
será que já nos esquecemos do porque viemos?

Rio de Janeiro, 16 de junho de 1999.


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