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Apometria: Ingênua Técnica de Desdobramento Perigoso

Apometria: Ingênua Técnica de Desdobramento Perigoso

O Editor do site A Jornada encaminhou-nos indagação da Sra. L. do dia 30/03/02,
diz ela: “Gostaria que a minha dúvida fosse encaminhada a algum dos médicos que
tem Coluna neste site para esclarecimentos sobre:

 

– HIV sob a vista espiritual; tratamento de pessoas portadoras numa Casa Espírita
Apométrica; procedimentos, etc.

– QUIMIOTERAPIA – como age nos corpos sutis, até que ponto usá-la ?

Obrigada e meu fraternal abraço a todos

L. ” .

 

Em princípio, as perguntas da Sra. L. estão prejudicadas por distorções
terminológicas; assim, ela fala em “Casa Espírita Apométrica” e “corpos sutis”.
As Casas Espíritas não usam ou não deveriam usar a apometria; não
há nenhuma relação entre Apometria e Espiritismo. Parece que a Sra.
L. é ramatisista e ramatisismo não é Espiritismo e quem diz isso não somos
nós somente: J. HERCULANO PIRES era dessa essa opinião e CARLOS B. IMBASSAHY também
é; aí estão nomes de peso do Espiritismo brasileiro. Quanto aos “corpos sutis”,
não são admitidos pelo Espiritismo, este só admite um “corpo” sutil, o perispírito...

 

HIV sob a vista espiritual. O HIV (Human Immuno-deficiency Virus)
é um retro-vírus produtor de uma síndrome extremamente grave – a AIDS (Acquired
Immuno-deficiency Syndrome
) -, em que o indivíduo fica exposto a uma série de
infecções oportunistas em função de uma deficiência das suas defesas orgânicas portanto,
é uma doença orgânica, não há dúvida nenhuma.

Do ponto de vista espiritual, acreditamos que a SIDA (ou AIDS) é resultante
do mau uso do livre-arbítrio durante a encarnação ou em encarnação pretérita.
É o que costumam denominar lei de causa-e-efeito, que preferimos chamar lei
de reajuste em ação. Esta lei atua, automaticamente, em conseqüência de atos de
encarnação atual em que se prioriza a sensualidade em detrimento das virtudes espirituais,
como por exemplo: na homossexualidade, heterossexualidade promíscua, uso e abuso
de drogas ilícitas injetáveis, enfim, atos irresponsáveis; mas também em conseqüência
de atos reprováveis em encarnações pretéritas – nestes casos, a contaminação dar-se-á
através de transfusões sangüíneas, principalmente. A propósito destes
casos, muitas vezes argumenta-se que uma pessoa de boa índole, com doença sangüínea
que necessita de constantes transfusões, deveria ser poupada de tão grave enfermidade
e exclamam: por que DEUS permite que ela seja contaminada pelo vírus HIV?! Este
questionamento é daquele que só admite a encarnação única e assim, seria
até injustiça de DEUS! Mas se considerarmos as encarnações pretéritas e futuras,
então, veremos a Justiça e Providência de DEUS atuando em toda a sua pL.tude.

Enfim, a SIDA é o “remédio” amargo atuando, não como castigo, mas como
reajuste para o reequilíbrio espiritual da pessoa, ou seja, a cada um segundo
as suas obras, cumprindo-se assim a finalidade da encarnação (cf. resp. à
questão 167 de O Livro dos Espíritos).

 

Apometria. Como já dissemos, a Apometria não faz parte da Doutrina Espírita.
O termo apometria é derivado do grego Apó- preposição significando
além de e fora de e Metron– relativo à medida. Segundo
aqueles que a aplicam, representaria o clássico desdobramento entre o corpo físico
e os “corpos” espirituais do ser humano. Não seria propriamente uma técnica mediúnica
e sim uma “técnica de separação desses componentes”.

Diz-se que “um médico da turma de 50”, “espírita”, JOSÉ LACERDA DE AZEVEDO teria
iniciado o método no Brasil; no entanto, não sabemos em que Faculdade teria se formado
o tal “médico da turma de 50”. Posteriormente, em 1965, o porto-riquenho LUIS RODRIGUES
teria aplicado a técnica com outro nome. JOSÉ LACERDA teria tentado a metodologia
em sua esposa, Dona Yolanda, que seria médium.

Diz-se, também, que teria sido identificado um tal “grande complexo hospitalar
na dimensão espiritual denominado Hospital Amor e Caridade”. Bem, o internauta que
leu nosso artigo neste site sobre a erraticidade
já conhece a nossa opinião sobre os chamados “hospitais” da erraticidade, isto
é, são fantasias espirituais sem a menor base científica nem doutrinária
para validá-los como verdadeiros.

Ora, a apometria é então uma técnica totalmente estranha à Doutrina Espírita,
pois segundo esta não existem “corpos espirituais”, a Doutrina faz referência apenas
ao perispírito. Logo se observa, ao estudarmos o assunto, que se trata de
uma técnica que absorve conceitos da Teosofia e do hinduísmo e não é por acaso que
a Sra. L. é uma entusiasta desse método, pois adota os princípios do ramatisismo.
Apesar de respeitar o seu ponto de vista, repudiamos com veemência a catalogação
dessa técnica de desdobramento como espírita, até porque em Espiritismo não
técnicas.

Dizem aqueles que praticam a Apometria que ela “apresenta resultado eficaz em
todos (o grifo é nosso) os pacientes, mesmo nos oligofrênicos” (cf. página da Internet
intitulada ‘Algumas notas sobre Apometria’). Assim, essa técnica seria aplicável
para tratamento, inclusive, de deficientes mentais. Ora, em Medicina
não existe nenhum tratamento em que se obtém eficácia em todos os casos e
até hoje não há cura para os deficientes mentais; logo, a afirmação de cura
desses pacientes é, no mínimo, leviana.

O método, em resumo, consistiria em se aplicar “pulsos magnéticos concentrados
e progressivos” no “corpo astral” do paciente e, “por sugestão” comandar-se-ia seu
afastamento. Desdobrar-se-iam o médium e o doente para contato com “entidades médicas
do astral” !!! Está visto que não há a menor cientificidade no método: é
um amontoado de termos, sem a menor possibilidade de controle científico e com o
falso pressuposto de que os Espíritos estariam à disposição dos médiuns em dias
e horas marcados. Enfim, parece-nos um verdadeiro Ôba, Ôba espiritual…

Só para se ter uma idéia: na propaganda de um livro que trata especificamente
do assunto, diz o autor que tratou de 16.000 casos nos últimos 10 anos, ou seja,
uma média de 1.600 casos por ano… Como conseguir-se o desdobramento de
um paciente, do médium e doutrinar os Espíritos num hospital espiritual em tão pouco
tempo de trabalho?! Num “estalar de dedos” ?…

Desculpe-me, a Sra. L., mas não recomendamos esse método para ninguém; além disso,
ele pouco difere da Projeciologia, tão divulgada pelo Dr. WALDO VIEIRA, que
abandonou o Espiritismo para dedicar-se a ministrar Cursos sobre isso…

Finalizando este tópico, diremos que o conhecimento da técnica da Apometria
demonstra que a imaginação humana não tem limites, principalmente quando se quer
auferir dividendos com a credulidade das pessoas, pois dentro deste barco encontram-se
alguns médicos, psicólogos, etc., inescrupulosos; a julgar-se pela propaganda já
referida. Não citamos nomes das pessoas porque não queremos personalizar e, embora
não conheçamos a Sra. L. – que parece ser de boa-índole – dar-lhe-emos este conselho:
saia dessa canoa, ela não está furada não, ela nunca teve fundo!…

Enfim, há um adágio atribuído a ALBERT EINSTEIN que, infelizmente, temos repetido
em nossos artigos: “HÁ DUAS COISA INFINITAS: O UNIVERSO E A TOLICE DOS HOMENS”.

 

Quimioterapia . A Sra. L. pergunta como age a quimioterapia nos corpos sutis
e até que ponto usá-la? Aqui, novamente a pergunta está prejudicada pela
expressão “corpos sutis”. Como vimos, a Doutrina só admite um “corpo” sutil – o
perispírito; que aliás, é pouco conhecido na sua estrutura íntima. Logo,
falar-se em “corpos” sutis é usar uma linguagem, de antemão, obscura, do Ocultismo.

A Sra. L. confere uma tal importância aos “corpos sutis” que chega a duvidar
da ação benéfica da quimioterapia ao questionar: “até que ponto usá-la?”.
Ora, a quimioterapia é extremamente importante para as pessoas que apresentam
vários tipos de lesões malignas (câncer), apesar dos seus inúmeros efeitos colaterais,
sérios, ela tem prolongado a vida de muitas pessoas, que passam a viver com razoável
qualidade de vida (há inúmeros exemplos disso no meio artístico, como é público
e notório).

Quanto à ação dos quimioterápicos sobre os “corpos sutis”, ou melhor,
sobre o perispírito, qualquer coisa que se afirmar será uma temeridade, posto
que até hoje não se conhece completamente o mecanismo de ação de muitos quimioterápicos
sobre o corpo físico, imagine-se, então, sobre o perispírito !!

Se os ramatisistas, vegetarianos roxos, vêem com horror a alimentação carnívora,
principalmente a questão do sangue derramado dos animais, além das supostas “substâncias
tóxicas” para os “corpos sutis” – confundindo-se digestão com putrefação
– o que diriam da ação dos quimioterápicos sobre os corpos sutis?? Verdadeiros
horrores! Digam o que disserem, pois todos têm o direito de dizer o que pensam,
mas nada provaram…

Contudo, não acreditamos que uma substância grosseira como um quimioterápico
possa ter ação sobre os “corpos sutis”, mesmo dinamizado em fórmulas homeopáticas.
A propósito, disse KARDEC:


SAMBA (1927) – E. Di Cavalcanti
(Di Cavalcanti pintou a gente simples e
crédula dos morros do Rio de Janeiro).

“Os medicamentos homeopáticos, por sua natureza etérea, têm uma ação de certa
forma molecular; sem contradita podem, mais que outros, agir sobre certas partes
elementares e fluídicas dos órgãos e lhes modificar a constituição íntima.”

(ALLAN KARDEC. Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos. 1867, EDICEL,
SP, p. 71). Enfim, ele mostra que os medicamentos homeopáticos poderiam inibir ou
excitar a expressão de um sentimento, mas o sentimento não deixaria de subsistir;
então, seria um mero paliativo. A seguir, diz KARDEC:

“Não se pode agir sobre o ser espiritual senão por meio espiritual!”

(op. cit., p. 71).

Será que teria passado pelo pensamento de alguém, recomendar aos doentes em tratamento
quimioterápico, que o suspendam pelos efeitos colaterais e os submetam a um “tratamento”
apométrico?!… Acreditamos que não, pois isto seria uma conduta de aprendiz
de feiticeiro
, mesmo com todo o aparato do suposto Hospital Espiritual “Amor
e Caridade”; aliás, Amor e Caridade têm sido palavras fáceis de pronunciar
e difíceis de se encontrar, como diria o sambista; e o “samba” da apometria é o
“samba do crioulo doido” como diria STANISLAU PONTE PRETA.

Enfim, procuramos analisar uma técnica, muito ingênua, exótica, com inúmeras
fantasias e ações pseudocientíficas, incomprováveis, cujas conseqüências são imprevisíveis;
pois além de iludir a boa-fé de pessoas simples, abre campo para a atuação dos inescrupulosos,
encarnados e desencarnados.

 

Iso Jorge Teixeira
CREMERJ:52-14472-7
Psiquiatra. Livre-Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de
Ciências Médicas (FCM) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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