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Aqui é um Centro Espírita?

Aqui é um Centro Espírita?

Paulo silenciou por alguns instantes. A pergunta, que sempre tivera uma
resposta automática, agora o levava a profundas reflexões. Aquelas paredes, as
reuniões e todas aquelas pessoas que vinham em busca de auxílio…

Lembrou-se de como tudo começara. Fora a vontade de ajudar uma senhora,
carinhosamente chamada de Naná por todos que a conheciam, já idosa e de cabelos
brancos, portadora de interessantes dons mediúnicos, que o levou a reunir um
grupo de amigos, alugar uma casa e iniciar um trabalho mais organizado de ajuda
aos que vinham buscar, naqueles dons, lenitivo para suas dores.

E eram muitos os que chegavam e que ajudados partiam, voltando outras vezes
com outros pedidos ou com amigos também desesperados. Muitos, multidões. Esses
mesmos é que chamaram o lugar de Centro Espírita. Talvez, porque acontecesse o
aconselhamento aos desesperados, por Espíritos que falavam com os recursos de
Dona Naná, ou por causa da água que depois da prece parecia curar as dores de
alguns, ou mesmo da paz que todos levavam de volta a seus lares quando
partiam…

Mas, cismava Paulo, seria ali um Centro Espírita?

De início, ele sempre sorria e afirmava confiante que ali era o Centro
Espírita da Dona Naná. Aceitara sem questionar a afirmação, até que lhe
perguntaram o que significava a palavra “espírita”? Percebendo sua ignorância, e
como era um dos responsáveis pelo lugar, saiu à procura do conhecimento. Então
descobriu Kardec, a Codificação e se pôs a estudar e a refletir… Percebeu que
os fenômenos mediúnicos aconteciam desde há muito tempo e em diversas escolas
religiosas.

Exemplos claros de mediunismo se percebem nos cultos afro-brasileiros, na
manifestação do “espírito santo” que cura nos cultos evangélicos, assim como
estiveram presentes nas pitonisas e adivinhos nas religiões do passado.

O fato de ser uma casa onde se manifestam os Espíritos, portanto, não
bastaria para que o local fosse denominado ou credenciado como “Centro
Espírita”. Outros locais também prestavam socorro aos necessitados. Sem
conotações religiosas, muitos homens de boa vontade se organizam na prática da
solidariedade, objetivando minimizar o sofrimento humano.

São tantas outras “casas e centros” não religiosos que reequilibram
socialmente as pessoas que batem às suas portas, em busca de apoio e orientação,
e que trabalham para uma vida social mais justa e harmoniosa. Tão só ministrar
essa ajuda solidária não caracteriza uma casa como Centro Espírita, mesmo que um
“bom Espírito” esteja na orientação dessas atividades caridosas.

Paulo compreendeu que nem mesmo a junção das duas características acima
seriam suficientes para caracterizar corretamente o Centro Espírita. Recordou
que as palavras Espiritismo e espírita (ou ainda espiritista) só passaram a
figurar dos dicionários a partir do instante em que Allan Kardec criou esses
termos para designar a Doutrina que codificara e os seus seguidores.

O senso comum, presente no povo, a tudo dava uma feição generalizada e
simplória. Mas os dirigentes e semeadores da Terceira Revelação – percebeu Paulo
– não podem equivocar-se quanto aos princípios e os postulados básicos dessa
Doutrina, pois serão cegos a conduzir outros cegos!

O papel do Centro Espírita transcende o auxílio material e o serviço
solidário. Em primeiro lugar, é escola da alma. No Centro Espírita compreendemos
o significado da existência, o porquê das vicissitudes que enfrentamos em nossa
jornada terrena. Nele, bebemos as lições que o Espírito de Verdade veio trazer à
Terra, revelando-nos uma nova visão de Deus e ensejando-nos o entendimento
ampliado das leis que regem a vida em todos os cantos do universo.

Antes do conforto material dispensado ao carente, antes da cura de uma
enfermidade, o Centro Espírita é caminho para o entendimento do Evangelho de
Jesus. É o ponto de luz, o farol a clarear a senda escura de quem procura a
Verdade. Aí reside sua maior finalidade: educar o ser humano, no sentido mais
profundo do termo, para ultrapassar os limites temporais da existência corpórea
e enxergar-se como Espírito imortal, viajante no tempo, herdeiro de suas ações e
construtor do seu amanhã.

Tem o Centro Espírita, por missão, libertar a criatura dos condicionamentos
psicológicos a que foi acorrentada, durante séculos, pelas igrejas dogmáticas,
que tanto medo infundiram nas massas com um Deus impiedoso ameaçando as
consciências culpadas com as labaredas do fogo eterno…

O Centro Espírita, que educa o ser, constrói a consciência, fortalece a
vontade para o bom combate. Falamos da luta travada contra as próprias
imperfeições, a luta contra o orgulho e o egoísmo.

Para que um Centro possa ser verdadeiramente Espírita, será preciso,
portanto, que assuma primeiramente esse papel de condutor de almas. Do
contrário, poderá reduzir-se a um posto distribuidor de víveres ou fornecedor de
passes, água energizada, aconselhamentos e paparicos, correndo assim mesmo o
risco de ouvir as queixas da ingratidão.

Ensinemos, por isso, aos que mendigam a luz, o caminho do autoconhecimento e
da transformação moral. Ao pão do corpo, acrescentemos o alimento para a alma,
que está no Evangelho de Jesus, desdobrado no conhecimento espírita. E, em vez
do passe compulsório, apontemos o serviço da caridade, em favor de si mesmo e do
semelhante.

Agindo assim, poderá o dirigente responder com segurança à indagação,
dizendo: Sim, aqui é um Centro Espírita.

Extraído do jornal Alavanca – jan/98

“Para que um Centro possa ser verdadeiramente Espírita, será
preciso, portanto, que assuma primeiramente esse papel de condutor de
almas…”

(Jornal Mundo Espírita de Março de 1998)

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