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Atualidade do Espiritismo

Atualidade do Espiritismo

Deus quer que o homem pense nele, mas não quer que só nele pense, pois que
lhe impôs deveres a cumprir na Terra. (“0 Livro dos Espíritos”, capítulo II da
parte III.)

Os Espíritos encarregados da Codificação doutrinária forneceram a Allan
Kardec preciosas instruções sobre o tema “Vida Contemplativa”, instruções que o
sábio lionês inseriu no livro básico do Espiritismo.

É certo que o homem tem, de modo mais ou menos geral, relativa inclinação
para o misticismo, excluídas, evidentemente, as tradicionais exceções da regra.

E, essa tendência, ainda bem generalizada em nosso tempo e em todos os climas
e latitudes, tem feito que muitas criaturas, de ambos os sexos, se consagrem a
uma vida em excesso contemplativa, desperdiçando, assim, valiosa cota de tempo,
o que equivale dizer: enterrando, lamentavelmente, os talentos que a Divina
Bondade lhes confiara através da existência física.

Este despretensioso artigo tem o objetivo de acentuar a manifesta atualidade
do ensino espírita em face do momentoso tema “adoração a Deus”, embora devamos
ressaltar que essa atualidade também se observa no que diz respeito a outros
ângulos do conhecimento humano.

O Espiritismo não é, nem poderia ser contra a adoração ao Criador do
Universo, embora defina e conceitue essa adoração em termos bem diversos dos
adotados por outras respeitáveis correntes religiosas.

Para a Doutrina dos Espíritos, a adoração consiste, em princípio, “na
elevação do pensamento a Deus”.

Disseram, ainda, as Entidades Superiores, responsáveis pela Codificação, que
“a adoração está na lei natural; pois resulta de um senti­mento inato no homem”.

Mas — reflitamos bem —, entre admitir, filosoficamente, como natural e justa,
a adoração a Deus, e transformá-la em comportamento apático, formalista,
convencional, do qual não participem a alma e o coração, e em virtude da qual se
arrisque o homem ou a mulher a tornar-se inútil, à margem da dinâmica da vida,
há, por certo, uma grande distância.

“A adoração verdadeira é do coração” —acentuaram os Espíritos,
esclarecendo a Allan Kardec.

Adorar a Deus, em termos espíritas, significa amá-Lo com fervor e
sinceridade; converter o próprio coração num santuário de compreensão e bondade;
transformar a alma numa forja viva de ações práticas que resultem no bem e na
felicidade do próximo.

A prática da caridade, que procede do mais profundo do ser, é o ato adorativo
mais agradável a Deus.

Os Instrutores Espirituais, sem qualquer desapreço à adoração através da
prece, costumam lembrar, com muita frequência, a “oração do trabalho” — isto é,
o ato pelo qual o homem, pelo trabalho em favor do seu semelhante e que reverte,
inevitavelmente, em seu próprio benefício, movimenta os seus recursos
interiores, dinamizando a vida no sentido do esclarecimento e do progresso.

O que as Entidades Amigas desaconselham, sumariamente, sem o menor
subterfúgio, é a vida simplesmente contemplativa.

Divergem elas dessa vida inoperante, extática, na qual foge a criatura humana
das lutas redentoras, necessárias ao processo de despertamento e consolidação
dos valores morais e espirituais.

Quando Allan Kardec perguntou se têm, perante Deus, algum mérito os que se
consagram à vida contemplativa, responderam eles, taxativa e claramente:

“Não, porquanto, se é certo que não fazem o mal, também o é que não fazem
o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que. o homem
pense nele, mas não quer que só nele pense, pois que lhe impôs deveres a cumprir
na Terra. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de
meritório aos olhos de Deus, porque vive uma vida toda pessoal e inútil à
Humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.”

É oportuno lembrar que a Doutrina Espírita tem mais de um século, eis que o
seu primeiro livro, o básico, o filosófico, foi editado, precisa­mente, em 18 de
Abril de 1857.

Essa questão, pois, de imprimir à religião um sentido dinâmico, uma feição
operosa, não é nova para os Espíritas, os quais, de modo geral, aliam, às suas
tarefas de interpretação evangélica ou doutrinária, serviços assistenciais que,
na verdade, constituem legítimo ato de adoração a Deus pelo trabalho

As correntes religiosas que, na época presente, sentem o imperativo de
participação nos problemas humanos, no que toca à solidariedade, simplesmente
executam aquilo que a Codificação preconiza há mais de um século.

O que se procura fazer hoje, nos quadros religiosos alheios ao Espiritismo,
com a finalidade de dinamizar igrejas e templos, constitui fato re­moto para a
comunidade espírita-cristã.

É mensagem bem antiga, dos idos de 1857.

Os pioneiros da Doutrina no Brasil deram exemplo dessa fecunda atividade,
onde o impositivo maior sempre foi o amor ao próximo, exemplificando, assim, a
verdadeira adoração a Deus.

A medicação aos enfermos.

O passe magnético no recinto dos centros es­pintas ou nas visitas
domiciliares.

As excursões a morros e favelas, conduzindo o pão e a roupa, o alívio e o
reconforto, foram uma constante na vida dos que vanguardearam o movimento
espírita na “Pátria do Evangelho”.

Asilos e orfanatos, hospitais e creches fala­ram ontem e falam hoje dessa
compreensão que o Espiritismo transmitiu à mentalidade e à cons­ciência de seus
adeptos, de que “Deus quer que o homem pense nele, mas não quer que só nele
pense, pois que lhe impôs deveres a cumprir na Terra”.

A inclinação geral dos espiritistas, sempre sob o estímulo e a orientação dos
Instrutores Espirituais, continua sendo no sentido de que a nossas instituições
não sejam somente o templo que esclarece e consola, nos domínios da fé, mas
também, escola, orfanato, hospital.

No livro “Missionários da Luz” (autor, André Luiz, médium Francisco Cândido
Xavier, edição da FEB), Alexandre, respeitável Mensageiro Espiritual, informa
que, no futuro da Humanidade, os templos materiais do Cristianismo estarão
transformados em igrejas-escolas; igrejas-orfanatos, igrejas-hospitais, onde não
somente o sacerdote da fé veicule a palavra de interpretação, mas onde a criança
encontre arrimo e esclarecimento, o jovem a preparação necessária para as
realizações dignas do caráter e do sentimento, o doente o remédio salutar, o
ignorante a luz, o velho o amparo e a esperança. O Espiritismo evangélico é
também o restaurador das antigas igrejas apostólicas, amorosas e trabalhadoras.
Seus intérpretes fiéis serão auxiliares preciosos na transformação dos
parlamentos teológicos em academias de espiritualidade, das catedrais de pedra
em lares acolhedores de Jesus”.

A atualidade dos ensinos espíritas, no que concerne à adoração a Deus,
assunto objeto deste artigo, é patente.

Não perderemos por esperar, a fim de verificarmos, inclusive no que toca a
problemas científicos, que tudo quanto o Espiritismo pro­clamou no século XIX
será comprovado e aceito no século XX por esta mesma Ciência que, ontem,
preconceituosa e dogmática, tentava ironizar a Nova Revelação.

O Espiritismo não tem pressa em que lhe sejam reconhecidos os fundamentos,
consciente, como está, de sua natureza divina.

Se a Doutrina Espírita teve opositores entre cientistas e religiosos, contou,
por outro lado, com dezenas de homens ilustres, eminentes sábios que lhe
estudaram as leis supranormais e proclamaram, alto e bom som, como exatos e
verdadeiros, os seus princípios, através de pronunciamentos que marcaram época
entre os legítimos valores culturais da velha Europa.

O Espiritismo continuará, pois, onde sempre esteve — altaneiro em sua humilde
soberania.

Nós, os espiritistas, esperaremos que os homens de pensamento, penetrando nos
vastos e imensuráveis oceanos da Codificação Kardequiana, se decidam, por eles
próprios e pela evidência dos fatos, aceitarem-na, espontaneamente, numa atitude
que os engrandeça e glorifique, ao invés de humilhá-los.

Aqueles que nunca duvidaram da Filosofia Espírita rejubilam-se, naturalmente,
quando observam que, tal qual se verificou com relação ao Cristianismo, do qual
“nem um til foi tirado ou nele posto”, também o Espiritismo, à medida que a
Ciência avança e as Religiões evoluem, se afirma, no tempo e no espaço, por
doutrina in­vulnerável em seus fundamentos e capaz de, sob o crivo da razão e da
lógica, impor-se ao consenso universal.

É profundamente confortadora a observação de que, entre o Cristianismo de
Jesus e o Espiritismo de Allan Kardec, seu Codificador, existe mais este
admirável ponto de concordância: ambos desafiam o tempo e cumprem, junto ao
espírito humano, sua redentora missão.

(Reformador de fevereiro de 1964)

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