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Chico Xavier: a Liderança Insubstituível

Chico Xavier: a Liderança Insubstituível

Neste meio século de mediunidade de Chico Xavier, encontro-me em tarde
pardacenta de junho, retido em casa, a revirar velhas páginas, escritos de
encarnados e desencarnados, pessoas que vêm e vão no campo da vida, quando
releio cartas e recados, entre eles correspondência do Chico Xavier e mensagens
pessoais captados pelo médium da cidade de Pedro Leopoldo, desde os idos de
1948.

O talentoso Luciano dos Anjos sempre costuma dizer que carrega seus arquivos
implacáveis, constituídos de cartas, apreciações, manuscritos, momentos
fotográficos e impressões de confrades em desacordo com a correspondência que
esses mesmos confrades dirigiram na mesma ocasião a outros amigos e conhecidos,
tomando atitudes incoerentes, antagônicas. Fraquezas humanas, perdoáveis…

Logicamente, não possuo arquivo implacável, pois sou portador de natureza
diferente. Longe do meu psiquismo, o colorido do Luciano, reflexo ainda da
inquieta personalidade de Camile Desmoulins que fora, a incendiar com o verbo os
apaixonados freqüentadores do Café Procope, nos frágeis dias de Luíz XVI, que
antecederam à bastilha. Sem pretender dizer daí que o longe possa traduzir boas
possibilidades espirituais em mim e más do lado dele. Até porque, como diz o
nosso César Burnier naquela eloqüência que Deus lhe deu, “a alma humana é cheia
de esconderijos…”

Coleciono, no entanto, meus documentos sigilosos, mensagens particularíssimas
cartas que vieram até mim por diferentes vias, de pessoas atuantes no movimento
espírita ou a ele ligadas, de alguma forma. Dois objetos do Chico, guardo em meu
poder: uma caixinha contendo o tora – a Lei dos Judeus -, que o médium me
ofertou em Pedro Leopoldo, com dedicatória, caixinha que presenteei ao Museu
espírita fundado pelo Antônio Lucena, existente em sala da Federação Espírita do
Estado do Rio de Janeiro ( Secção Capital – da qual extraí dos xeroxes
igualmente ofertados. A outras peça é uma caneta de metal, que o Chico me deu de
presente quando do nosso encontro na noite de 9 de abril de 1969, em Petrópolis,
caneta que psicografou várias mensagens reconfortantes.

Acredito que, no referente às cartas recebidas ou espontaneamente obtidas,
talvez nunca serão publicadas, pois devemos fazer jus à confiança que as pessoas
depositam em nós. Existem momentos em que a alma quer se entornar sem
obstáculos, desfazendo amaras, como que por um desafogo. quem não viveu ou vive
esses momentos, por certo está na Terra por um descuido da Providência. Assim, o
melhor mesmo é contribuirmo-nos em túmulo fechado…

Chico Xavier está comemorando meio século de mediunidade valorosa, muitas
vezes posta à prova por exigência dos outros,muitas vezes lacrimosa e sofrida
por não encontrar eco nem nos mais chegados… Mediunidade histórica, deixando
profundos reflexos para muito tempo. Geralmente, depois que se vai, a pessoa
fica maior. Luiz Homero de Almeida, poetíssimo, verseja que “É que estes homens
mal acostumados

Nos vivos vêem apenas os defeitos / Nos mortos só enxergam predicados…”

O certo é que Chico Xavier é indimensionável. sobre ele nada adiantam os
critérios humanos que sempre refletem os seus biógrafos, nunca o biografado. E
muitas vezes o biógrafo, por mais prive com a pessoa focalizada, para
sondar-lhes escaninhos psicológicos, não pode perceber sutis oscilações da alma,
o que vai lá nas profundezas e acaba fazendo biografia exterior, incompleta,
falha…

Somente podemos valorizar a permanência na carne, parcialmente. Poderemos,
depois, sem as paixões e imediatismos contraproducentes, mapear essa trajetória
ímpar. sou dos que acreditam que, após a partida de Francisco Cândido Xavier
para o Imponderável, teremos de esperar muito tempo, mas muito tempo mesmo, até
que as Leis da Vida nos enviem outro instrumento mediúnico da mesma estrutura.

Isto será bom, porque as obras produzidas pela “antena psíquica”da cidade de
Pedro Leopoldo têm sido adquiridas, amiudadas vezes, numa exaltada farolice por
muitas pessoas; todavia dormem nas estantes, quando a algaravia e o alvoroço que
se estabeleceram por ocasião das visitas dele se afrouxam.

Com retorno do médium à Pátria de Cima, se levantarão pesquisas e
comentários, ensejando o estudo, não de superfície mas de profundeza.

Assim como o século passado, em termos de Espiritismo, foi o “Século e
Kardec”, o século vinte será o “Século de Chico Xavier”. Líder absoluto se
desejar tal posição, dizendo obedecer, porém, em realidade, determinando
espontaneamente, com a livre aceitação por parte dos que estimam a pessoa e
admiram a faculdade mediúnica que o ser possui, pode-se, sem sombra de dúvida,
avançar, dizendo ainda mais, que não e encontrará, no imediato da vida humana,
quem possa substituí-lo na mesma força e na mesma freqüência vibratória.

Ele foi ele, ele será ele, com o colorido que conhecemos, em retrato de bom
ângulo ou em retrato sem retoques; até porque, e assim não fosse, ele não seria
o Chico, o nosso Chico…

Uma coisa é ouvir dizer que o Chico disse; outra é ouvir o Chico dizer. Uma
coisa é ler narrações a respeito do médium; outra é vê-lo expressar-se naquela
singelíssima modalidade, como ele o faz.

Jamais cometeríamos a leviandade de dizer que a sua desencarnação paralisaria
ou paralisará o movimento espírita no Brasil, porque as Leis da Vida atuam fora
de quaisquer opiniões, critérios, arbítrios ou motivos humanos. O universo
funciona independentemente de nossa aceitação ou repulsa, sem nenhuma questão
pendente, pois, como disse distinto pensador espiritualista, bastaria existir
qualquer problema no Universo para situá-lo imperfeitamente.

Chico Xavier sabe que, com a sua desencarnação(quando tiver de vir), os
espíritos que por ele se manifestaram não desencarnarão com ele, contudo,
incontestavelmente, ficará contínuo, na forma gráfica ou na substância do seu
amor, em nossas mentes e em nossos corações. Ele é, no máximo do concebível
humano, aquele amor que se doou, invariavelmente, e que, agora, por íntima
satisfação de si mesmo reinará sem trono. Aquele amor que aprendeu a beber na
fonte do Amor Maior que um dia se manifestou aos nossos olhos, nas margens de
Tiberíades, Amor que não guarda distância e, quando encontra deficiências nos
seres a que busca ao invés de ausentar-se, ao contrário, multiplica as suas
quotas de carinho e bondade.

Pensemos nisto tudo, no cinqüentenário de sua atuante mediunidade
missionária”.

(Jornal A Nova Era – Setembro de 1980)

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