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Clonagem: e o Espírito?

Clonagem: e o Espírito?

De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, o mundo inteiro
deu-se conta de que entrara na era da clonagem quando, em Fevereiro do ano
passado, a revista inglesa “Nature” publicou um artigo de Iam Wilmut, com a sua
bem sucedida experiência nessa área.

Embriologista de uma instituição de pesquisa agro-pecuária próxima de
Edimburgo, capital da Escócia, Wilmut, de 52 anos, dava ali uma completa
explicação de como clonara a ovelha Dolly. Em termos bem simples, clonar
significa produzir uma cópia idêntica de outro ser vivo, através da engenharia
genética, de forma artificial e assexuada. Assim como Eva, na alegoria do Velho
Testamento, Dolly nasceu graças a uma parte do corpo de outro ser adulto, sem
pai nem mãe. O seu nome é uma homenagem a Dolly Parton, a cantora country
norte-americana de seios avantajados, porque Dolly teve origem na célula
extraída da mama de uma ovelha.

A fórmula para se elaborar um clone não é difícil. O ponto de partida é o
princípio holográfico de que a parte contém o todo, assim como o todo é
constituído de partes. Wilmut e a sua equipa de cientistas escoceses associaram
um óvulo não fecundado, de onde tinham retirado o miolo genético, com uma célula
mamária doada pela ovelha que desejavam copiar. Em seguida, implantaram o
resultado dessa fusão no útero de uma outra ovelha, onde se deu a gestação de
Dolly com pleno êxito. Antes, porém, sabe-se agora, houve muitas tentativas
frustradas. “Algumas não passavam de um amontoado informe de tecidos vivos”,
acaba de confessar o cientista.

O bebé-clone

Naturalmente, o passo seguinte seria a clonagem de outros animais úteis à
humanidade, como as vacas, cavalos e galinhas, mais a fauna que está sob ameaça
de extinção. Entretanto, muito antes do que se poderia imaginar, neste início de
1998 o mundo é novamente surpreendido por outro cientista genético. O seu nome é
Richard Seed, detentor de Ph. D. em medicina e um currículo que inclui várias
experiências pioneiras em fertilidade, com participação na primeira experiência
bem sucedida de embriões entre mulheres, procedimento fundamental em qualquer
clínica de reprodução humana na actualidade. Ele anunciou à imprensa
internacional que no prazo de 3 meses (a periodicidade desta revista) estaria a
utilizar a mesma técnica aperfeiçoada em Dolly para gerar um bebé-clone. Com
este objectivo, já seleccionou 4 casais inférteis, para servirem de cobaias, e
mais 4 mulheres para serem usadas como mães de aluguer. “Vou fazer pelo menos
500 clones por ano numa clínica em Chicago e, mais tarde, abrirei filiais em
cidades dos Estados Unidos e em outros países”, declarou de forma bombástica.
“Se o Governo americano tentar impedir-me, vou para o México, ou qualquer outro
país que esteja disposto a aceitar-me”, completou.

A reacção mundial a essas declarações foi imediata, devido às suas
implicações éticas e morais que não estão a ser levadas em devida conta. O
presidente norte-americano, Bill Clinton, disse que as pesquisas científicas não
devem ser conduzidas num “vazio moral” e exortou o Congresso a aprovar a
proibição das experiências de clonagem humana, pelo menos durante os próximos 5
anos. A Associação Médica Mundial exortou os médicos a boicotarem as pesquisas
desse tipo, e o próprio criador de Dolly, em entrevista à rede de televisão NBC,
classificou a ideia de antiética e desaconselhável. Há o risco de abortos,
anormalidades e mortes na primeira infância, confirmou o Instituto Roslin, de
Edimburgo, onde Wilmut fez a primeira clonagem de um mamífero.

No Reino Unido, porém, está a ser preparado um documento oficial de consultas
que expõe as possíveis razões pelas quais a té-cnica pode beneficiar a
humanidade.

Criada há cerca de um ano para assessorar o Governo britânico na questão dos
avanços da genética humana, a comissão que elabora esse documento vai apresentar
os seus estudos aos ministros da área, até Junho vindouro. Cabe-nos esperar as
novas surpresas que a ciência nos reserva para um futuro não longínquo.

Aliás, as descobertas do século que ora chega ao fim vieram sempre de forma
contínua e avassaladora. Eu, por exemplo, nasci antes da televisão, da
penicilina, da fralda descartável, da fotocópia, do plástico, das lentes de
contacto e da pílula anticoncepcional. Na minha infância ainda não havia o
radar, cartões de crédito, bebés-proveta, as esferográficas, as máquinas de
lavar louças, de secar roupas, cobertores eléctricos, operações pelo astral,
computadores, ar condicionado e, muito menos, Internet. Nunca tinha ouvido falar
em terapia de vida passada, videocassetes, corações artificiais, raios laser,
videojogos e rapazes sérios a usarem brincos. Em todo o caso, os que estão a
nascer agora talvez possam dizer, quando chegarem à minha idade actual, lá pelos
2060: Eu sou do tempo em que não se clonavam seres humanos, ainda não se viajava
pelos planetas vizinhos, a reencarnação ainda não tinha sido comprovada
cientificamente, nem havia linhas de comunicação públicas e directas entre os
planos material e espiritual.

Óptica espírita

Ao contrário da maioria das religiões, o espiritismo nunca se opôs aos
avanços da ciência. Allan Kardec, no primeiro capítulo de “A Génese”, é
peremptório: “O espiritismo, marchando lado a lado com o progresso da ciência,
jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas demonstrarem estar em
erro sobre determinado ponto, ele se modificará sobre esse ponto; se uma nova
verdade se revelar, ele a aceitará”. Em “O Livro dos Espíritos”, na introdução
ao estudo da doutrina, item VII, acrescenta: “Os factos, eis o verdadeiro
critério dos nossos julgamentos, argumento sem réplica. Na ausência dos factos,
a dúvida é a opinião do homem prudente”.

A genética diz-nos que já é possível clonar um ser humano; a ética afirma que
ainda não estamos preparados para isso. O facto, porém, é que nenhum tipo de ser
humano ou animal consegue sobreviver sem espírito porque é este, através do seu
perispírito, também chamado modelo organizador biológico, que mantém a forma e
integração do corpo físico. E se Deus, na sua infinita sabedoria, permitir que
tais factos aconteçam, é porque há espaço para eles na mente divina. Somos cerca
de seis bilhões de espíritos encarnados, a população mundial, enquanto no plano
espiritual da Terra há mais de 20 bilhões de almas a aguardarem por uma nova
oportunidade de voltar à salutar escola do plano material.

As leis naturais decerto não desperdiçarão nenhuma hipótese para que a volta
de alguns desses espíritos aconteça, mesmo que isso, neste momento, possa
parecer-nos uma forma precipitada ou antiética de reencarnação.

Muita coisa vai mudar a partir da obtenção genética de um clone humano. A
primeira delas vai ser o fim do cepticismo em relação ao espírito. Finalmente, a
humanidade vai dar-se conta de que, como esclareceu Kardec, o homem é um
espírito vestindo transitoriamente uma roupagem carnal. Os clones, embora iguais
na aparência física, terão personalidades diferentes, pois os espíritos são
diferentes uns dos outros, tal como acontece com os gémeos univitelinos, que em
última análise são uma clonagem natural.

A respeito do cepticismo, vale a pena lembrar a sabedoria de Galileu. Para
demonstrar que podíamos ver coisas invisíveis a olho nu, através de uma luneta,
resolveu levar os eruditos da época para uma praia. Ao ouvir sobre a
possibilidade de ver um navio com a luneta, a metade do grupo foi embora,
tratando-o como um impostor. A outra metade só se convenceu quando ele a colocou
num barco e aos poucos se foi aproximando do navio.

Desde já, a clonagem de partes do corpo humano em laboratório poderá produzir
tecidos, incluindo células sanguíneas e da pele, para reparos cirúrgicos ou
enxertos.

Aliás, há uns dias, pesquisadores da empresa Reprogenesis, na cidade de
Boston, EUA, anunciaram uma técnica para produzir próteses naturais de seios
femininos, a partir da multiplicação em laboratório de células extraídas do
próprio corpo da mulher. Tais cientistas calculam que dentro de cinco anos serão
capazes de reproduzir até mesmo a função da lactação humana. Ou seja, o difícil
está a ser feito, o impossível será feito amanhã. O poder da mente humana é
muito inferior ao do nosso Criador, mas assemelha-se muito a dele. Não é de
surpreender assim que os homens estejam a brincar, fazendo de conta que são
Deus. Não foi o próprio Jesus quem confirmou: “Vós sois deuses”? (Evangelho de
João, 10/34).

Pedro Fagundes Azevedo, autor deste artigo, é doutrinador espírita (nos seus
tempos pós-profissionais) e psicólogo (profissão), e actua a nível de
consultório clínico, com terapia regressiva a vidas passadas, na cidade de Porto
Alegre, extremo sul do Brasil.

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