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Doutrina Espírita

Doutrina Espírita

Fico agradecido por ser mais um elemento participativo de vosso grupo.

Perdoem-me a minha sinceridade, mas além do GEAE, ser mais um meio de mais valia
para o Movimento Espírita, como foi reconhecido, depois de uma leitura atenta, faço
humildemente alguns reparos:

  1. a Doutrina dos Espíritos não foi reconhecida por Allan Kardec como Religião.
  2. Chico Xavier, também diz a mesmíssima coisa.
  3. Caso fosse uma religião, o máximo que poderia ser era seita.
  4. Hoje temos ap. Mais de 3000 religiões e seitas, será que os abnegados educadores
    espirituais iriam-nos colocar mais uma, sabendo eles, que foram os homens que
    personalizaram estas tantas religiões, cada uma com as suas características e
    personalismo dogmáticos, místicos e ritualistas? Não nos parece a luz da razão.
  5. Não confundamos “religião” com Moral, ou Ética.
  6. Ao longo a historia da humanidade ate aos dias de hoje, as lutas sanguinárias
    que se travaram, travam e travarão em nome das religiões. Basta estar atento aos
    media.
  7. Não pretendo dar qualquer ensinamento sobre esta delicada temática, mas simplesmente
    transmitir aquilo que Jesus nos ensinou: “os meus discípulos reconhecer-se-ão
    por muito se amarem.
  8. Como nos diz o Codificador, que ate utilizou um pseudônimo, para evitar esses
    endeusamentos e igrejices, o espírita e aquele que procura se aperfeiçoar, lutando
    contra as suas próprias imperfeições.
  9. Não importa que tipo de religião, mas sim qual a nossa conduta perante a Vida.
  10. E devido a esta palavra que hoje começam a proliferar Igrejas Espíritas, e
    que alguns espíritas tem comportamentos puramente fanáticos, dogmáticos, ritualistas
    e mesmo místicos. Onde se casam, fazem velórios etc.
  11. Eu, L.A. sou um aprendiz a espírita e não tenho qualquer religião, nem nunca
    tive, desde o dia em que reencarnei.
  12. Sou coordenador do Estudo Sistemático da Doutrina Espírita e da Reunião de
    Estudos da Educação da Mediunidade, de uma instituição espírita. Partindo da falsa
    premissa que o Espiritismo e uma religião, como meus companheiros e amigos me
    hão de chamar? Padre Luis, Bispo Luis, Mestre Luis, Sacerdote Luis, Mentor Luis,
    Ministro Luis, ou simplesmente Luis, e qual devera ser o meu salário? E como terei
    que estar vestido? E que rituais devo ministrar?

Perdoem-me mais uma vez, mas e com toda a minha boa intencionalidade, que faço
estas pequenas considerações.

José Luis Almeida, Portugal


Caro Amigo,

Suas considerações são razoáveis, mas o grande problema do tema é que ele gira
em torno do significado das palavras, que infelizmente tem múltiplos sentidos. O
próprio Kardec preferia não enfatizar a palavra religião, mas não deixou de considerar
o Espiritismo como religião no sentido filosófico, Leon Denis também o considerava
assim, Emmanuel, André Luiz e diversos outros espíritos seguem a mesma linha de
pensamento . Eis porque no grupo preferimos adotar o meio termo, ou seja, o Espiritismo
não e uma religião no sentido vulgar da palavra, mas e uma religião no sentido mais
espiritualizado da palavra, no sentido filosófico de ligação da criatura com Deus.
O Espírita não e católico, protestante, budista, etc… mas também não e ateu –
Crê em Deus, Crê na imortalidade da alma, tem um modo particular de relacionar-se
com o criador e com a criação – e não existe uma palavra no dicionário que qualifique
essa situação a não ser a surrada palavra “religião”.

Em resumo, a questão e difícil porque envolve questões de foro intimo, envolve
o modo como cada um vê as religiões e o conceito que atribuiu a palavra religião.
A “carga emocional” dessa palavra e grande, e debatê-la e um trabalho árduo e na
nossa opinião infrutífero, pois no fundo todos concordam com que o Espiritismo “e”,
a disputa fica em como “rotulá-lo”.

Um comentário adicional: Na minha opinião não se pode “condenar” a “religião”
pelos abusos cometidos em seu nome. Uma idéia não e necessariamente ma por ter sido
mal empregada, deve-se estudar a idéia, deve-se estudar as religiões e, isto sim,
verificar o que são em sua essência e quanto os seus adeptos as praticaram verdadeiramente
ou não. Pouquíssimas religiões em seus ensinamentos incitam a violência e com certeza
o Cristianismo não e uma delas, se foram mal empregadas foi devido a outras ambições
que nada tinham a ver com “religião”, ambições que tiveram também efeito sobre outros
campos da atividade humana.

Se seguíssemos a ferro e fogo o mesmo “critério” nas demais palavras, não chamaríamos
o Espiritismo de ciência. Um dos usos vulgares desta palavra, no sentido de ciência
“oficial” (do que é aceito nas academias, das posições estabelecidas, do que fazem
os cientistas dos institutos e dos órgãos oficiais) representa algo que derramou
neste século muito mais sangue do que todas a guerras religiosas em todos os tempos
da humanidade. Se não acredita no que digo lembre-se que o nazismo se utilizava
de uma grosseira teoria cientifica (a pureza da raça germânica – se me disser que
era uma “falsa” ciência, direi que as cruzadas foram movidas por uma “falsa” religião,
usemos o mesmo peso e a mesma medida) para justificar as matanças que cometia, que
o Stalinismo se considerava justificado dentro da concepção “cientifica” da historia
marxista, que os criadores da bomba atômica não foram fanáticos religiosos mas sim
as mais brilhantes mentes cientificas de sua época.

Em resumo, nessa questão nos parece que a melhor posição e a de moderação, outra
posição só levaria a divisões completamente inúteis e, ai sim, estaríamos nos comportando
como os adeptos “desnaturados” dessas religiões que você cita – que por questiúnculas
se matavam mutuamente, ignorando o maior mandamento que e a essência de qualquer
religião: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a si mesmo”.

Por favor, de uma olhada na coleção de boletins, lá você encontrara os mais diversos
pontos de vista sobre a questão e como o debate se desenrolou.

Atenciosamente,

Carlos Iglesiam Brasil

(Retirado do Boletim GEAE Número 272 de 23 de dezembro de 1997)

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