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Espiritismo Dialético

Não se pense, porém, que o desprezo ficou no que dissemos. Longe disso, ele
foi e vai muito além. Quando se trata de contradizer o Espiritismo e de fatos
espíritas, tudo parece permitido aos homens de ciência e aos homens de letras.
Não há fronteiras para a imaginação, nem limites para o raciocínio.

É assim que, ilustrando o volume com varias fotografias espíritas, os
autores reproduzem um quadro de Tissot e o comparam à famosa fotografia da
“cabeça materializada”, obtida por Notzing e madame Bisson, com a médium Eva
Carriere; para concluírem: “Antes da época dos flagrantes fotográficos, o grande
pintor Tissot mostrou-nos o que acreditava ser a reencarnação de uma mulher
amiga, acompanhada do seu espírito-guia; é uma bela pintura, onde ele reproduziu
a impressão de verdadeira beleza, recebida numa sessão espírita. Os métodos mais
rigorosos, que hoje se usam, já não permitem essas sublimações do testemunho
visual: as câmaras fotográficas mostram as coisas como elas se passam. E vemos
que essas figuras e rostos materializados começam pequenos e às vezes
desproporcionalmente. Quaisquer que possam ser essas figuras e faces achatadas e
amarfanhadas, não são, certamente, materializações em carne e sangue humano”.

Richet escreveu o “Traité” sem aceitar a tese espírita, mas contudo jamais
cometeu a heresia de dizer que as materializações eram fantoches amarfanhados.
Encontramos no “Traité” essa mesma cabeça de que se servem os Wells e Huxley,
mas apresentada em outro sentido, ou seja, no bom e verdadeiro sentido que se
lhe deve dar: como uma das mais belas fotografias já obtidas, revelando e
documentando, de maneira insofismável, uma das fases do processo de
materialização. Não tivéssemos essa e outras fotografias obtidas por Notzing e
madame Bisson, e esses mesmos ilustres cavalheiros nos acusariam de não havermos
surpreendido jamais uma das fases daquilo que chamamos “processo de
materialização”. Não teriam dúvidas em utilizar esse fato como argumento
“poderoso” contra a teoria da formação progressiva do fantasma, com a matéria
plástica do ectoplasma ou teleplasma.

Perguntaremos, porém, a esses ilustres divulgadores do conhecimento, se não
tiveram a oportunidade de ver outras fotografias, como a médium Linda Gazzera,
constantes do seu livro “Fotografias de Fantasmas”, livro em que elas figuram,
não através de clichês, mas nas próprias cópias fotográficas, para que não haja
dúvidas.

MAIS VALE UM PÁSSARO NA MÃO

Essas fugas pela tangente representam o método mais freqüente de combate ao
Espiritismo, inclusive por parte dos materialistas dialéticos. Para os
observadores serenos e sensatos, bastaria essa insistência na deturpação dos
fatos e na distorção do raciocínio, para comprovar a seriedade e a importância
desses mesmos fatos. Aliás, ainda com Engels, encontraremos o argumento mais
apropriado: “A única questão consiste em saber se o pensamento está ou não
certo, e o desprezo pela teoria é, evidentemente, a maneira mais segura de se
pensar de maneira naturalista, e, conseqüentemente, de modo errado.”

Engels não ficaria mal nas fileiras espíritas. De fato, ele via bem estes
problemas. O desprezo pela teoria espírita, única que pode explicar os
fenômenos, tem levado esses homens a trair a Dialética a todo momento, entrando
a fundo e às cegas pela Sofisticaria. A punição da Dialética, porém, não se faz
tardar. Os que pensam de maneira naturalista, voltando as costas à teoria,
terminam de encontro à parede, com a espada do ridículo no peito. Porque a
“maneira naturalista de pensar”, a que Engels se refere, é a do pensamento a
priori, instintivo, que não provém da razão orientada pelo processo da
civilização, mas da herança comum e obscura do passado biológico da espécie. Age
por meio de impulsos mecânicos, é um automatismo inconsciente. Dir-se-ia, diante
das suas manifestações, que o homem tem a vocação da fuga. Como a lebre, colhida
de surpresa na beira da estrada, precipita-se no mato, assim o homem, colhido na
sua posição materialista pela surpresa dos fatos supranormais, precipita-se no
matagal das lembranças ancestrais. Improvisa teorias e fabrica rótulos com a
desenvoltura inconseqüente da avestruz ao enterrar a cabeça na areia. Comete,
com uma confiança absurda na impunidade, o crime da desfiguração da verdade, ou
passa apenas a negar, indiferente a todas as provas e argumentos, como a criança
teimosa que não quer ver a louça quebrada. É o outro lado da crendice o reverso
do fanatismo religioso. Por isso, o médico Sergio Valle nos lembra, no livro
“Silva Mello e os Seus Mistérios”, recentemente publicado: “Enquanto não se
realize o fiat da ciência (que se mantém, teimosamente, orgulhosa e cega), para
iluminar os fatos que possuímos, não é justo que uma criatura sensata despreze o
que se acha detido, seguramente detido nas suas mãos, por mínimo que seja, pelo
que voeja no espaço do fanatismo religioso ou do fanatismo científico”.

INTERPRETAÇÃO DO HOMEM

O homem, segundo o materialismo, seja ele mecanicista dialético, é um animal
pensante. Para Marx, e portanto para o dialético, é ainda o resultado da ação
simultânea do trabalho, sobre ele e a natureza. Agindo sobre o meio em que vive,
trabalhando-o, ele se modifica a si mesmo. Essa concepção materialista do homem
não se enquadraria na doutrina de nenhuma das religiões corporificadas em
igrejas. O Espiritismo, entretanto, não a contradiz. Apenas a amplia, ensinando
que o princípio inteligente, no homem como no animal, independe do corpo. E por
isso é condenado e combatido, ao mesmo tempo e por todos os lados, pelos
religiosos e pelos materialistas. No capítulo III de “O Livro dos Espíritos”, de
Kardec, encontramos esta definição: “O trabalho é lei da natureza, por isso que
constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais
porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.” Logo adiante: “Sem o trabalho, o
homem permaneceria sempre na infância, quanto à inteligência.”

A lei de causas e efeitos é o princípio fundamental da Doutrina, a evolução
constitui a sua própria essência. Por outro lado, não se estruturou o
Espiritismo através de formulações hipotéticas. Todo o seu edifício doutrinário
se assenta na observação e na experimentação. Richet, que condenava a
“credulidade excessiva” de Kardec, já o notara, no “Traité”. Dialético por
natureza, em essência e pelos métodos que emprega, o Espiritismo, se bem
estudado, revela-se o legítimo e natural herdeiro do título a que se candidata o
materialismo dialético: síntese do conhecimento. Realmente, o Espiritismo,
diante dos mundos em litígio do materialismo e do espiritualismo, não peca por
exclusão, não comete o pecado proudhoniano ou marxista da escolha. Na sua
estrutura encontraremos aquelas duas concepções, não apenas conjugadas ou
ajustadas, mas superadas na transfiguração de um novo corpo, — a síntese — em
que a ciência, a filosofia e a religião, as três províncias antagônicas do
conhecimento, aparecem encadeadas no verdadeiro “processus” da mais pura
dialética, uma resultando da outra.

No “Anti-Dühring”, Engels lembra as origens do marxismo e expõe a doutrina
como a seqüência lógica destas fases: a filosofia, a economia-política e o
socialismo. No Espiritismo, a seqüência se tresdobra na ciência, na filosofia e
na religião. Partindo da observação e da análise dos fenômenos materiais, de
natureza supranormal, criamos a filosofia do ser, e atingimos, logo a seguir, a
religião. Esta, porém, não se traduz na organização de uma nova igreja, de um
novo culto, de um novo “suborno da divindade”. Nem se traduz no antropomorfismo
socialista, erguido no altar da produção. Mas é, ao mesmo tempo, a comunhão de
bens, de corações e de espíritos, pela qual todos ansiamos, espiritualistas e
materialistas, para a construção do mundo melhor amanhã.

Porque o homem, para o Espiritismo, não é apenas “o último anel da vida
animal na terra” (” A Gênese”, Kardec), nem o produto quase exclusivo da ação
simultânea do trabalho; mas também aquele ser que se mostra nos fenômenos de
materialização, de aparição, de visão, de voz direta, de incorporação, de
psicografia ou de tiptologia, para demonstrar “aos que ficaram” que ele não se
extinguiu com a morte, e que o seu conteúdo moral continua a viver e a se
desenvolver indefinidamente, na multiplicidade das formas, sem prejuízo da
identidade substancial.

O VELHO E O NOVO

É evidente que o fato da sobrevivência alarga a concepção humana da vida e do
mundo, muito além dos limites terrenos ou orgânicos da concepção materialista.
Oliver Lodge classificou o Espiritismo de “nova revolução copérnica” Assim como
Copérnico rompeu de vez o ergástulo mental do geocentrismo, a revolução espírita
desloca dos organismos materiais o conceito de vida, rompe o organocentrismo da
biologia moderna e reduz a uma simples confusão do efeito pela causa o chamado
“materialismo-psicológico”.

Em conseqüência, leis e perspectivas novas aparecem, exigindo verdadeira
revisão dos conhecimentos do homem e do seu modo de encarar a vida e o mundo.
Mais uma vez nos deparamos com a luta clássica entre o velho e o novo tão bem
definida no Evangelho do Cristo e nas obras de Kardec.

VAGAS ASPIRAÇÕES

Alegam os mais ferrenhos materialistas que o conhecimento da sobrevivência, —
se de fato ela existisse, — não serviria senão para perturbar a visão presente
do homem desviando-o da execução pura e simples das tarefas imediatas. Kardec,
que condenou a vida contemplativa, e pregou a necessidade da ação contínua,
dando o exemplo concreto da sua própria vida de militante espírita, replica:
“… a incerteza, no tocante às coisas da vida futura, faz que a homem se lance,
com uma espécie de frenesi, sobre as da vida material.”

A réplica de Kardec não exige demonstrações. A vida moderna, baseada no
materialismo prático do mundo capitalista, vale por uma experiência natural, em
escala de assombro. Nunca se viu tamanho frenesi na procura dos bens materiais.
A advertência de Bacon: “Busca primeiro as boas coisas do espírito, que o resto
será suprido ou não sentirás a sua falta”, com base naquela do Cristo: “Busca
primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais te será dado por
acréscimo”, não soa no coração, mas apenas nos tímpanos desatentos do homem
moderno. Diante disso, poderíamos esperar do materialismo teórico ou filosófico
uma nova aplicação do princípio de Hahnemann, — similia similibus curantur
— para curar o mundo desse delírio febril? Kardec diz ainda: “Esse é o
inevitável efeito das épocas de transição. O edifício do passado rui, sem que o
do futuro esteja construído. O homem é como o adolescente, que não tem mais a
crença ingênua dos primeiros anos e não adquiriu ainda os conhecimentos da idade
madura. Não possui mais do que vagas aspirações, que não sabe definir.”

A sociedade socialista, baseada na filosofia materialista mais avançada,
terminaria atormentada por essas “vagas aspirações” de que nos fala Kardec. E
mais uma vez surgiria, no seu próprio seio, a luta entre o velho e o novo. A
hipótese não é gratuita, pois para tal não acontecer, seria necessário que não
existisse uma vida futura, que a sobrevivência não fosse uma das realidades do
Universo.

DA ESPECULAÇÃO À EXPERIMENTAÇÃO

Mas Kardec não fala “por ouvir dizer”, ele não foi jamais um homem levado
pela imaginação: foi um observador rigoroso. E é através da mais pura dialética
que nos explica a razão dessas vagas aspirações.

“Se a questão do homem espiritual permaneceu até os nossos dias em forma de
teoria, é que nos faltaram os meios diretos de observação, que tivemos para
constatar o estado do mundo material, e o campo ficou aberto às concepções do
espírito humano. Enquanto o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não
pôde aplicar o método experimental, errou de sistema em sistema, no tocante ao
mecanismo do Universo e à formação da Terra. Deu-se na ordem moral o mesmo que
na ordem física; para determinar as idéias faltou-nos o elemento essencial: o
conhecimento das leis do princípio espiritual. Esse conhecimento estava
reservado à nossa época, como o das leis da matéria foi obra dos dois últimos
séculos. Até o presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na
Metafísica, tem sido puramente especulativo e teórico; no Espiritismo é
inteiramente experimental.”

Chegados a este ponto, defrontamo-nos com o aspecto mais crítico da hora
presente. De um lado, temos em marcha, com indiscutível eficácia, a aplicação do
método dialético, à história, à política, à sociologia etc., como a mais alta
conquista do espírito no terreno prático e objetivo. De outro, o abuso, que
perdura, do método empírico, nas questões espirituais, com as conseqüentes
explorações e deformações da realidade No meio, lutando entre as duas correntes,
ambas poderosas, o Espiritismo, que não pode trair a realidade espiritual, para
endossar a aplicação materialista da dialética, e não pode trair a sua própria
natureza dialética, para apoiar o empirismo da prática espiritual. O resultado,
infelizmente, é o que vemos: ele também, o Espiritismo, deformando-se, no
aspecto sectário e místico de uma nova religião, ou na estrutura fria e
materialista da simples observação metapsíquica.

Todo o esforço do homem moderno tem de convergir para a superação dessa
tremenda crise do conhecimento. E a superação somente se fará possível com a
compreensão dos verdadeiros princípios do Espiritismo como doutrina dialética,
por isso mesmo capaz de aplicar à história, à política, à sociologia, à
economia, à arte, os seus métodos de análise, de observação, de pesquisa, sem se
perder na mística de confessionário, nem se confundir com o tumulto dos comícios
subversivos. Além do misoneísmo das religiões, do reformismo do socialismo
politico-liberal e da violência do materialismo-dialético, o Espiritismo
indicará ao homem o caminho seguro das transformações substanciais da vida
social, ou perderá a sua razão de ser. Como esta última hipótese não nos parece
possível, o mais certo é que a história nos esteja empurrando, segundo observa
Mariotti, apesar da incapacidade geral e desoladora dos espíritas de hoje, na
direção do Espiritismo Dialético, verdadeira síntese do conhecimento, com que
nos acena Kardec.

Humberto Mariotti afirma que “a realidade visível” da ação espírita no mundo
se traduz no cultural, e “mais do que em qualquer outra parte, no
bibliográfico”, faltando-lhe, entretanto, entrosar-se “no processo histórico da
humanidade”. Este entrosamento se faz pela penetração nas massas através do seu
aspecto “ingênuo”, de seita religiosa. Mas, se não houver, neste momento, a ação
da alavanca da Filosofia Espírita, salvando o Espiritismo da “ingenuidade
popular” e transformando-o, não mais em simples crença, mas em conhecimento, o
processo natural desse entrosamento pode ser desvirtuado, pelo trabalho de sapa
das forças contrárias.

Aos espíritas, portanto, cabe o dever indeclinável de lutar para que esse
entrosamento se realize. A bibliografia espírita, — “quiçá insuperável pela de
qualquer outro movimento filosófico”, — deve descer das estantes e penetrar nas
massas, não para se submeter à “ingenuidade” destas, mas para orientá-las no
sentido da sua libertação moral, espiritual, intelectual e social. Para tanto, é
necessário um novo trabalho de elaboração, de aglutinação, de sistematização do
conhecimento espírita, na forma de compêndios culturais e de manuais populares.

O aspecto religioso ou “ingênuo” do Espiritismo salvou-o da indiferença e da
hostilidade conjugada de todas as forças dominantes do século 19 e do século 20,
escondendo-o no coração do povo, onde ele viveu e progrediu em silêncio, e
permitindo, ao mesmo tempo, o trabalho cultural dos intelectuais espíritas.
Temos hoje uma população espírita no mundo, e temos uma cultura espírita. Mas
não temos a sociedade nem a civilização espíritas, como observa Mariotti, e nem
mesmo a necessária e prévia ligação entre as massas espíritas e a cultura
espírita, para a criação daquelas. Estamos, porém, no caminho dialético do
desenvolvimento de uma nova civilização, e se compreendermos isso, lutando para
alcançar o futuro, chegaremos até lá.

Humberto Mariotti fez uma concessão de boa-vontade ao “pensar naturalista”
quando deu ao seu livro o título de “Dialética e Metapsíquica”. Porque o título
verdadeiro do volume seria o de “Espiritismo e Dialética”. Evitou assim,
assustar a lebre na beira da estrada. Não se iludam, porém, os espíritas,
mormente os espíritas brasileiros, tão afeitos a deixar de lado o que foge ao
aspecto religioso da doutrina. As páginas de Mariotti não se referem apenas a
uma controvérsia filosófica entre as duas doutrinas que lhe formam o título
eventual. Elas são, pelo contrário, um brado de alerta e um convite sério à
meditação e ao estudo. Principalmente ao estudo da natureza dialética do
Espiritismo e das possibilidades imediatas da sua aplicação ao mundo, — para
transformá-lo.

SITUAÇÕES NOVAS

Essas possibilidades se tornam cada vez mais visíveis, graças ao aceleramento
do processo histórico no século atual. A teoria marxista da luta de classes,
comprovada pelos fatos, caminha, entretanto, dentro das novas condições da
evolução técnica e do progresso científico, para formas inteiramente novas. A
idéia da revolução proletária já não parece tão nítida e precisa como nos fins
do último século e nos princípios deste. Os derradeiros movimentos
revolucionários, inclusive o maior deles, a revolução chinesa, apenas
teoricamente se basearam no proletariado. As forças em luta foram antes
populares do que proletárias, e não somente no conjunto da massa, mas, também,
nos organismos dirigentes. Por outro lado, nos países de maior desenvolvimento
industrial, ao contrário do que pressupõe a tese marxista, a revolução
proletária se torna mais difícil, como nos Estados Unidos, na Inglaterra, na
Alemanha, na França, na Itália. Nos três últimos, o Partido Comunista tem
crescido, não em virtude das condições específicas da vida proletária, mas das
condições gerais, com indiscutível predominância da situação camponesa e da
pequeno-burguesa. Podemos perguntar, diante disso: Onde se encontra a
“consciência de classe” do proletariado norte-americano ou do inglês, – este o
mais antigo e o mais impenetrável ao marxismo, – para o golpe de libertação no
capital acumulado em escala jamais vista? As condições sociais evoluem com
rapidez vertiginosa, os progressos da técnica, aliados ao desenvolvimento
intelectual e psíquica do homem, geram situações inteiramente novas, e os
marxistas se esquecem dos princípios dialéticos da sua própria filosofia;
continuando apegados a dogmas já superados pelo processo histórico.

Pietro Ubaldi, em “A Grande Síntese”, emite este conceito, que os
materialistas dialéticos deviam meditar: “Se a luta foi, a um tempo, de natureza
física, hoje é econômica e nervosa, e amanhã será espiritual e ideal, muito mais
digna de ser travada.”

O CHOQUE APOCALÍPTICO

Marx viu, na sua época, a necessidade de construir-se uma filosofia de classe
para o proletariado, a fim de que este, tomando consciência da sua missão
histórica, se colocasse à altura da mesma. A filosofia foi construída e
tornou-se um dos grandes momentos do conhecimento humano, mas o proletariado não
a absorveu, senão em doses mínimas. Criou-se, por isso mesmo, a teoria das
“minorias dirigentes”, e o exemplo do bolchevismo, na Rússia, tornou-se
clássico. As minorias, entretanto, só podem vencer, não pela violência, mas pelo
excesso de violência, e só podem manter o seu domínio pela opressão crescente.
Quanto estas duras realidades colocaram o sonho do socialismo científico
distanciado das suas raízes revolucionárias, o tempo se encarregou de
mostrar-nos.

Surge, assim, uma nova situação mundial. As minorias marxistas criam as
potências orientais, enquanto as minorias capitalistas se entrincheiram no
ocidente. O nosso grão de areia é dividido nos hemisférios antípodas que hoje se
digladiam, ameaçados de mútua destruição, pelas perspectivas da guerra atômica.
Para lutar contra o imperialismo, contra os trustes imperialistas, a Rússia
Soviética teve também de construir o seu próprio poder imperialista, criar o seu
estatismo absorvente. O que Marx não previa, aconteceu.

A violência dirigida, metódica, intencional, revelou-se fonte inesgotável de
novas formas de violência, em escala incalculável. E a força das idéias
mostrou-se mais poderosa do que a própria luta de classes, mais criadora e
destruidora do que os próprios antagonismos da produção capitalista. A lei da
“negação da negação” lançou-se, como o monstro Frankenstein, contra o próprio
criador, pois o idealismo marxista superou de muito, na sua própria aplicação, a
realidade proletária dos princípios do século. O marxismo negou-se a si mesmo,
para dar nascimento ao poder proletário, face a face com o poder capitalista.
Não são, por acaso, a tese e a antítese da dialética hegeliana, que se
defrontam, neste momento, em proporções apocalípticas, no panorama
internacional? E a síntese não virá do novo choque mundial, já em pleno
desenvolvimento?

HORA DE LIBERTAÇÃO

Essa conclusão tem de ser a seguinte : os marxistas cometeram um dos grandes
equívocos da história, ao oferecerem à força a resistência de outra força. Não é
do choque dos “semelhantes”, mas dos “contrários” que resulta a progresso, e os
“contrários” não são determinados pela forma, pela aparência, mas pela
substância.

A forma proletária da violência não modifica a substância mesma da violência,
e os “contrários”, traduzidos apenas numa expressão formal, não podem produzir o
progresso substancial. Por outro lado, o proletariado não é uma substância, mas
uma eventualidade, pois a divisão da sociedade em classes é artificial.
Armando-se o proletariado de poderes semelhantes aos da burguesia,
transformamo-lo em massa burguesa, da mesma maneira por que esta, em muitos
países, inclusive o nosso, armada com os poderes do feudalismo, tornou-se um
poder feudal, a antítese da burguesia francesa que derrubou a Bastilha. Pois o
homem é o mesmo, numa classe como noutra, e a influência das condições sociais
não tarda a se fazer sentir, na sua atitude perante a sociedade. Esquecer a
substância humana no processo econômico é fugir para a abstração de uma economia
autônoma, solta no espaço e no tempo. Nem foi por outro motivo que a jovem
revolucionária polonesa Larissa Reissner, a grande autora de “Homens e
Máquinas”, ao ver os seus antigos camaradas transformados nos comissários
econômicos, verdadeiros “negociantes oficiais do partido”, temeu pelo naufrágio
da revolução no pântano burguês, e preferiu deixar o território da revolução
para voltar ao inferno da sua gênese, na Alemanha burguesa.

Nesta altura, poderíamos surpreender o sorriso irônico dos
materialistas-dialéticos, a nos perguntarem: “Mas o que deveríamos então, opor à
força e ao poder do capitalismo?” Não, não responderemos “o que deveriam”, pois
palavras foram deturpadas, perderam o seu verdadeiro sentido, e não queremos que
os interlocutores, mesmo imaginários, nos dêem as costas sem mais aquela.
Responderemos que tudo quanto se fez até agora tinha de ser feito, estava nas
linhas do determinismo-histórico, na exigência das próprias condições sociais,
não poderia fugir às contingências de um mundo em fermentação, impulsionado pelo
instinto e pela paixão. Voltemos a Ubaldi, que mais uma vez nos esclarece o
problema: “Não sois ainda uma sociedade, mas apenas uma grei, um desencadeamento
de forças psíquicas primordiais, explodindo confusamente.”

Mas responderemos, também, que a hora chegou, – e agora é, – em que as coisas
devem tomar novo rumo. Esse rumo, o Espiritismo o aponta com clareza, a todos os
que tiverem “olhos de ver”. É o rumo do Espírito, da solução espiritual, e só
ela nos livrará do torniquete da força contra a força, da violência contra a
violência, do jogo cego e inconseqüente do poder material. Ruskin, Tolstói,
Tagore e Gandhi avultam neste momento da história humana.

O INDIVÍDUO E O MEIO

Alguns espíritas não compreendem esse imperativo histórico da doutrina.
Pensam que a lei de causa e efeito explica e resolve todas as coisas,
cabendo-nos apenas compreendê-la e aceitar passivamente a sua ação. Esse
pensamento misoneísta, de fundo místico, aparece até mesmo em “A Grande
Sintese”, o livro de Ubaldi, que já citamos algumas vezes, e que comete ainda o
pecado filosófico de confundir o comunismo científico de Marx e Engels com o
comunismo igualitário e ingênuo de Weitling. Outros entendem que a revolução
espírita é essencialmente individualista, cabendo-lhe transformar o homem, para
que a estrutura social, em conseqüência, se transforme. É novo equívoco de fundo
místico, e Mariotti o menciona, chegando mesmo a tropeçar nele. Kardec nos
indica, entretanto, a necessidade do contínuo esforço do homem para se superar a
si mesmo e às circunstâncias. A passividade diante das leis naturais caracteriza
as formas inconscientes de vida. A consciência está submetida a uma nova lei, em
plano mais alto: a lei do esforço próprio, a lei do trabalho e da atividade
livre, que a fará progredir, a si mesma e ao todo a que pertence, à
coletividade. Em “O Livro dos Espíritos” encontramos esse pensamento claramente
definido, impregnando toda a obra, e podemos surpreendê-lo em passos como o
seguinte: “Tudo se deve fazer para chegar à perfeição, e o próprio homem é
instrumento de que Deus se serve para atingir os seus fins. Sendo a perfeição a
meta da natureza, favorecer essa perfeição é corresponder aos propósitos de
Deus.” (Perg. 692).

Kardec não é misoneísta. Deus, para ele, é sinônimo de incessante atividade
na direção do bem, é o constante “vir-a-ser” do Universo, atuando por todos os
meios e por todas as formas, para atingir o objetivo ideal. Vejamos, por
exemplo, o seguinte trecho do seu comentário ao número 783 de “O Livro dos
Espíritos”: “O homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância, pois
tem de atingir a finalidade que a Providência lhe assinou. Ele se instrui pela
força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, germinam
durante séculos. Depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do
carunchoso edifício do passado, que já não se encontra em harmonia com as
necessidades novas e as novas aspirações.”

A renovação do homem implica a renovação social, – mas desde que o homem
renovado se empenhe na transformação do meio em que vive, sendo esta, aliás, a
sua indeclinável obrigação espírita. Ora, querermos ficar no conceito de uma
renovação puramente individualista, seria um contra-senso, simples ignorância da
estrutura social como um todo. Que diríamos de um pedreiro que, para embelezar
um edifício, não cuidasse do seu aspecto de conjunto, mas de cada um dos
tijolos, isoladamente? E quem poderia negar, dentro da concepção espírita, que o
homem não é um indivíduo abstrato, mas parte integrante do todo social, sobre o
qual exerce a sua influência e pelo qual é influenciado, resultando, dessa
constante simbiose, a sua evolução e a evolução coletiva? Como, pois, isolarmos
o homem, para que o Espiritismo o trabalhe no espaço, independentemente das suas
raízes gregárias?

A função do Espiritismo é a renovação integral do homem, não apenas do homem
na sua expressão individual e transitória, mas na sua permanente expressão
coletiva. A propósito, aliás, poderíamos lembrar aos defensores do pensamento
isolacionista, a lei maior do Evangelho, que é a do amor ao próximo. Não
conheceriam eles o poder do ambiente sobre os indivíduos, mormente sobre os
menos evoluídos? Não saberão que as influências, mesológicas determinam quase
sempre, o próprio caráter individual? Não perceberão que uma vida social mais
equilibrada, e portanto mais justa, será o grande e permanente estímulo do
progresso individual?

POR UMA CONSCIÊNCIA HUMANISTA

Se a experiência nos mostra que a formação de uma “consciência proletária” é
praticamente inviável, pois, entre outros motivos, a própria revolução
proletária vem sendo impulsionada e dirigida por forças estranhas ao
proletariado; não somente desde os seus pródromos, mas ainda, hoje, e cada vez
mais; se nos mostra que a “filosofia do proletariado” não consegue atraí-lo e
empolgá-lo mais do que a demagogia fascista ou o diversionismo democrático dos
países capitalistas mais altamente industrializados; se nos revela ainda que a
vitória das chamadas “minorias conscientes” cria novos e violentos antagonismos
internacionais, cada vez mais agressivos, – é evidente que só nos resta procurar
uma saída humana, e não proletária nem burguesa, para essa terrível situação. A
saída não será a da submissão, a do pescoço entregue mansamente à canga, mas não
será também a da violência e a da força.

Se Marx reconhece no proletariado o potencial revolucionário, que a sua
filosofia devia armar da necessária orientação para a luta, e se essa orientação
só seria possível através da criação da “consciência de classe”, não teremos,
nesse mesmo fato, o exemplo e a indicação do que nos cabe fazer? A massa que
hoje se depara à nossa frente, explorada e sofredora, não é apenas o
proletariado, mas essa multidão heterogênea, que se chama povo, humanidade, e
que as classes dividem de maneira formal, mas não substancial. Ao mesmo tempo, a
situação das classes dominantes é de angústia e desespero, pesando sobre elas as
conseqüências morais inevitáveis do usufruto indevido e da exploração dos
semelhantes. O capital, o dinheiro, o poder, as comodidades, não bastam para
salvá-las e, pelo contrário, cada vez mais as precipitam no pântano da corrupção
moral e social.

Diante disso, cabe-nos repetir o gesto de Marx, oferecendo agora uma
filosofia, não a esta ou àquela classe, mas a toda a humanidade, para armá-la da
orientação necessária, através da criação de uma “consciência humanista”.
Entreguemos essa filosofia de libertação, essa arma de defesa moral, esse
instrumento de luta social, ao homem de todas as latitudes e de todas as
classes, e trabalhemos pela criação da “consciência humanista” nos indivíduos em
particular e no meio social em geral.

ELEVAR A TERRA NA ESCALA DOS MUNDOS

Não nos iludamos, porém, quanto aos métodos de ação que devemos empregar.
Simples evangelização ou catequização, nos moldes religiosos, não dará
resultados, porque nos amarram, pelo contrário, às antiquadas formas sectárias,
que proliferam por toda a parte e criam divisionismos estéreis e perigosos. O
Espiritismo tem de descobrir a sua própria maneira de agir, tem de forjar as
suas próprias armas, inteiramente novas, tão diferentes das usadas pelo processo
do religiosismo clássico quanto pelo materialismo-dialético. Talvez nesta altura
nos pudessem servir de “pontos-de-referência” algumas longínquas tentativas
históricas, como a de comunidade apostólica, de que nos dá notícia “O Livro de
Atos”, ou ainda as recentes colônias de produção do Estado de Israel. O certo,
porém, é que precisamos estabelecer os fundamentos sólidos e definidos, do
Espiritismo Dialético, aplicando-o, no plano sociológico ou histórico, rumo à
sociedade futura.

Ele mostrará, com base na experiência secular e no estudo objetivo da
natureza humana, do homem psicológico, que não se pode construir um mundo social
harmônico através da violência social, mas tão-sornente do desenvolvi mento do
espírito coletivista de cooperação. E que a sociedade, como o homem, – sem
cairmos rigidamente mo organicismo spenceriano, – tem as sua fases evolutivas
bem definidas, que não poderemos deixar de considerar, pois Engels já nos
ensinou que não desprezaríamos impunemente a dialética.

Assim, se aquilo que o homem só podia resolver pelo emprego da força bruta,
no seu estado primitivo, consegue fazê-lo pelo raciocínio e pela técnica, no
estado de civilização, também a humanidade, superada a fase primitiva da sua
elaboração social, pode caminhar, sem o uso da violência brutal e instintiva,
para a revolução coletivista. Isso não quer dizer que a luta não se processe,
que tenha sido interrompida no seu organismo, e que tenhamos de esperar o
advento espontâneo da nova forma social, mas apenas que a luta se desenvolve de
maneira diversa, em plano mais alto, como bem o definiu Ubaldi.

Aproveitemos, pois, a oportunidade que Humberto Mariotti nos oferece, com a
sua “interpretação espiritual da dialética”, para meditarmos sobre esses
assuntos e buscarmos a forma que nos falta, de oferecer ao mundo a solução
espiritual do problema social. De fazermos, enfim, que o Espiritismo cumpra a
sua missão histórica, vencendo a crise que o reduz, no momento, a uma luz
bruxuleante em meio de densas trevas, a uma espécie de simples refúgio
individual para as decepções e para as aflições humanas. Pois o seu destino,
como assinalou sir Olíver Lodge, não é apenas o de consolar corações
desalentados, mas o de rasgar para o mundo as perspectivas de uma nova era. Se a
fé dogmática determinou o fanatismo religioso da Idade Média, com suas fogueiras
sinistras, a fé raciocinada criará o positivismo religioso do terceiro milênio,
com as piras da fraternidade acesas em todos os quadrantes do planeta. Porque,
como já o dissera Kardec, a tarefa do Espiritismo é a de elevar a Terra na
escala dos mundos, transferindo-a da categoria expiatória para a de Mundo
Regenerador.

Prefácio da obra Dialética e Metapsíquica, do filósofo portenho
Humberto Mariotti, originalmente publicada pela Édipo – Edições Populares Ltda.
em fevereiro de 1951. Republicado em livro por A Fagulha, de Campinas-SP,
editora do Movimento Universitário Espírita (MUE), em 1971.

José Herculano Pires (1915-1979), jornalista, filósofo, tradutor e grande
intelectual espírita brasileiro, autor de mais de 80 obras sobre Espiritismo,
Filosofia e Parapsicologia, dentre outros temas.

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