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Espiritismo e Empresa

Espiritismo e Empresa

José Cid

Algum tempo atrás foi publicado em um dos jornais brasileiros com foco em
notícias econômicas, uma série de artigos sobre a religiosidade em empresas. Foi
analisado o fato dos fundadores abraçarem determinada religião e trazer para
dentro da empresa alguns princípios da sua doutrina religiosa. Foram citadas
empresas com base protestante, católica, mulçumana e o conhecido caso da Quaker.
Desde então tenho pensado no assunto…

Não encontrei referencia sobre empresas fundadas por espíritas, ou que
identificasse algum de seus princípios como espírita. Entretanto, o Espiritismo
é uma doutrina que encontra aplicação no dia-a-dia das pessoas. Será possível
que seus princípios não tenham aplicação no mundo empresarial? Duvido!

Me propus então a iniciar uma discussão sobre o assunto. Gostaria de trazer
para este forum a questão. Vou trazer mensalmente um artigo discutindo aspectos
empresariais e sua relação com a doutrina espírita. E, o mais importante de
tudo, espero a participação de todos que se interessem pelo assunto. Somente com
a discussão e participação poderemos tirar algum proveito para nossas vidas.

Vou tentar estimular a discussão em torno do assunto, escrevendo sobre alguns
temas:

  • Propriedade (dinheiro)
  • Ética
  • Informação
  • Lucro
  • Relacionamento interpessoal (com chefes, subordinados, colegas)
  • Empresa

Para começar, então, vamos analisar alguns aspectos da propriedade. Possuir
bens. Seria isso natural, importante, ou uma fonte de problemas? Afinal, seria o
dinheiro o mal do mundo?

Em primeiro lugar, vale lembrar que nós somos espíritos. Momentaneamente
estamos encarnados, mas não deixamos de ser espíritos. Portanto, nossa presença
aqui é temporária e deveríamos nos preocupar mais com os aspectos do espírito.

Agora complicou… Se nossa presença aqui é temporária, para que acumular
bens? Será que isso não traz nenhum benefício para o espírito, já que mais cedo
ou mais tarde retornaremos ao mundo espiritual e não teremos mais como usufruir
dos bens? Será que os bens são para ser usufruídos?

Nós estamos encarnados com o objetivo de progredir, tanto no aspecto moral
quanto no aspecto intelectual. Nosso corpo é um instrumento material a serviço
do espírito em aprendizado. Ora, se o espírito precisa da encarnação para
progredir, de um elemento material (corpo) para progredir, não seriam os outros
bens que recebeu – por empréstimo – instrumentos para seu progresso?

Claro que sim! Tudo que acontece em nossas vidas, cada instante, pode – e
deve – ser usado favoravelmente para nosso progresso. E, como na parábola dos
talentos, se não usarmos bem o que recebemos, não teremos o que dar em retorno
no momento de prestarmos contas com Deus. Por isso compre cuidarmos bem de nossa
saúde, de nossa família, de nossos bens. Apesar de que nada disso é nosso
realmente.

Por outro lado, qual a real função dos bens materiais, mais especificamente
do dinheiro?

Muitos acreditam que o dinheiro é ruim. Ele leva à discórdia, guerras e
problemas diversos. Esta é uma afirmativa muito fácil de fazer, mas totalmente
superficial. Transfere para a matéria um defeito que realmente é nosso, fruto de
nosso atraso moral, fruto de nossa ignorância. Nós não sabemos lidar com
dinheiro, por isso falamos mal dele, atribuímos a ele a razão de todos os
problemas. Mas no fundo o problema está em nós.

Podemos encontrar facilmente muitas pessoas reclamando que não tem dinheiro.
Dizem que se tivessem dinheiro ajudariam muita gente. Mas, também é fácil
encontrar pessoas que tiveram muito dinheiro em suas mãos, gastaram e
distribuíram seus bens a esmo. E ficaram sem nada. E aqueles que ajudaram
ficaram sem nada. Seria o dinheiro a fonte do mal? Ou seria a falta de
conhecimento do que fazer com o dinheiro para que ele seja realmente útil?

A nossa sociedade está estruturada de forma que todos precisamos do dinheiro.
Ele possibilita trocas que de outra forma seria difícil ou mesmo impossível.
Para obter dinheiro, nós trabalhamos. Para conseguirmos empregos melhores, mais
bem pagos, estudamos mais. Entretanto, existe uma grande legião de irmãos que
não tem como estudar, se preparar ou mesmo arranjar um emprego…

Aí entram aqueles que, por uma razão que certamente desconhecem, recebeu
dinheiro “emprestado” da providência.

Os bens materiais, o dinheiro que recebemos por empréstimo, deve ser usado na
geração de progresso. Gerar emprego, gerar conhecimento e, em conseqüência,
gerar progresso só é possível com investimento. Ora, estaria isso em desacordo
com a Doutrina Espírita? Qual a relação disso com o “Fora da caridade não
há salvação
“?

Voltemos à questão da parábola dos talentos. É bastante comum encontrarmos
pessoas que são tomadas por uma necessidade quase compulsiva de consumir. Eu já
me peguei varias vezes assim. E tenho que pensar muito para conseguir não entrar
no ciclo vicioso do consumismo. Tenho certeza que todos nós conhecemos pessoas
que estão muito endividadas, em uma situação realmente difícil, porque gastam
mais do que recebem.

Na minha opinião estas pessoas estão enfrentando esta situação porque, como o
sujeito que desperdiçou seu talento e quando encontrou Deus tinha as mãos
vazias, não soube viver de acordo com o que lhe foi emprestado. Faltou encarar a
vida do ponto de vista do espírito.

Vamos analisar agora outro aspecto da parábola. Quando encontramos alguém na
rua, com aparência maltrapilha, que nos pede dinheiro, damos, quase como quem
quer se livrar de um incômodo, de uma visão ruim… Mas será que este é um bom
emprego para o talento que recebemos emprestado?

Não discuto a necessidade de cada ser humano de ter suas necessidades básicas
providas. Mas é muito mais importante que cada ser humano seja capaz de prover
suas próprias necessidades! Na minha opinião, a esmola é como o talento que é
devolvido para Deus intacto, como recebido, sem se multiplicar.

E aquele que soube multiplicar seus talentos? Este promoveu o progresso, que
é confundido pelos críticos com a riqueza. Soube multiplicar os talentos que
recebeu emprestado e com isso pode proporcionar boas coisas para muitos.

Como mensagem final, gostaria de relembrar que nós somos espíritos, portanto,
o que importa é o uso que fazemos dos bens materiais que chegam à nossas mãos.
Ter bens não é ruim. Não ter também não é ruim. O mal está no destino inadequado
que damos aos nossos bens.

José Cid
Editor GEAE

(Publicado no Boletim GEAE Número 435 de 16 de abril de 2002)