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Espiritismo e frenologia

Foi no séc. XVIII que o médico vienense Franz Joseph Gall (1758-1828) analisando
as saliências do crânio de pessoas mortas, criou a frenologia, mapeando o crânio
em 27 regiões, que seria complementada mais tarde pelo seu principal discípulo e
seguidor Johann Spurzheim (1776-1832) com mais 10 regiões. A importância de Spurzheim
foi muito grande, pois, além de ajudar a ampliar o modelo frenológico, foi ele o
responsável pela disseminação da frenologia na Europa e EUA.

Foi na obra “A anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso em Geral e do Cérebro
em Particular
“, que Gall colocou os princípios no qual ele baseava a sua doutrina
de frenologia. Entre os princípios estava o de que as faculdades morais e intelectuais
do homem e que sua manifestação depende da organização do cérebro. Daí concluía
que o cérebro era o responsável por todas as propensões, sentimentos e faculdades.
Foi além ao dizer que o cérebro é composto de muitos sub-órgãos particulares, cada
um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental, e acreditava
que os ditos sub-órgãos se desenvolviam conforme o desenvolvimento das faculdades
mentais.

Quanto aos sub-órgãos, Kardec em O Livro dos Espíritos, na questão 370,
comenta:

“Encarnando, traz o Espírito certas predisposições e, se se admitir que a cada
uma corresponda no cérebro um órgão, o desenvolvimento desses órgãos será efeito
e não causa. Se nos órgãos estivesse o princípio das faculdades, o homem seria máquina
sem livre-arbítrio e sem a responsabilidade de seus atos. Forçoso então fora admitir-se
que os maiores gênios, os sábios, os poetas, os artistas, só o são porque o acaso
lhes deu órgãos especiais, donde se seguiria que, sem esses órgãos, não teriam sido
gênios e que, assim, o maior dos imbecis houvera podido ser um Newton, um Vergílio,
ou um Rafael, desde que de certos órgãos se achassem providos. Ainda mais absurda
se mostra semelhante hipótese, se a aplicarmos às qualidades morais. Efetivamente,
segundo esse sistema, um Vicente de Paulo, se a Natureza o dotara de tal ou tal
órgão, teria podido ser um celerado e o maior dos celerados não precisaria senão
de um certo órgão para ser um Vicente de Paulo. Admita-se, ao contrário, que os
órgãos especiais, dado existam, são conseqüentes, que se desenvolvem por efeito
do exercício da faculdade, como os músculos por efeito do movimento, e a nenhuma
conclusão irracional se chegará. Sirvamo-nos de uma comparação, trivial à força
de ser verdadeira. Por alguns sinais fisionômicos se reconhece que um homem tem
o vício da embriaguez. Serão esses sinais que fazem dele um ébrio, ou será a ebriedade
que nele imprime aqueles sinais? Pode dizer-se que os órgãos recebem o cunho das
faculdades.” 2

Eis aí o bom-senso encarnado com o lógica irretorquível da Doutrina Espírita!

Finalmente, concluiu Gall, que a forma externa do crânio é um reflexo da forma
interna do cérebro, daí sugeriu que o desenvolvimento relativo de seus órgãos causam
mudanças na forma do crânio, com isso seria possível diagnosticar as faculdades
mentais de cada indivíduo, com uma análise adequada.

O ataque da ciência oficial foi desferido inicialmente pelo Instituto da França,
em 1808, quando foi reunido um comitê de sábios liderados pelo naturalista francês
Georges Cuvier (1769-1832), que declarou que a frenologia não era confiável. Alguns
historiadores suspeitam que a conclusão foi forçada por Napoleão Bonaparte (1769-1821)
que ficou furioso com a interpretação de Gall sobre seu crânio, o imperador achou
que foram esquecidas algumas qualidades nobres que ele pensava que tinha. A frenologia
foi comparada a outras formas de charlatanismo.

No período de 1820 e 1842, os “consultórios frenológicos” germinaram na Europa
e EUA, a frenologia era usada para tudo, por exemplo: contratação de empregados,
escolha de parceiro para casamento e também para diagnosticar doença mental ou a
origem de problemas psicológicos.

Até mesmo Herbert Spencer (1820-1903) que foi um dos pais da psicologia americana,
era adepto da frenologia e inventou um aparelho batizado de cefalômetro para que
as medidas do crânio fossem mais precisas.

Também foi criada uma máquina frenológica “onde o paciente sentava-se em uma
cadeira e um capacete de metal era baixado sobre o topo de sua cabeça. Dentro do
capacete, haviam vários sensores conectados a pequenos circuitos, os quais sentiam
as saliências do crânio e as mediam. A informação liberada pelos circuitos eram
então traduzidas em comandos para um registro impresso sobre a personalidade do
paciente.” 3

Em julho de 1860, através da Revista Espírita, Kardec resolveu também dar sua
opinião e focalizar o assunto dentro da ótica espírita:

“Não vamos aqui discutir o mérito desta ciência, nem examinar se é verdadeira
ou exagerada em todas as suas conseqüências. Mas ela foi, alternadamente, defendida
e criticada por homens de alto valor científico. Se certos detalhes ainda são hipotéticos,
nem por isso deixa de repousar sobre um princípio incontestável, o das funções gerais
do cérebro, e sobre as relações existentes entre o desenvolvimento ou a atrofia
desse órgão e as manifestações intelectuais. O nosso propósito é o estudo das suas
conseqüências psicológicas.

Das relações existentes entre o desenvolvimento do cérebro e a manifestação de
certas faculdades, concluíram alguns cientistas que os órgãos do cérebro são a própria
fonte das faculdades, doutrina que não passa de materialismo, porque tende para
a negação do princípio inteligente estranho à matéria. Conseqüentemente, faz do
homem uma máquina sem livre arbítrio e sem responsabilidade por seus atos, pois
sempre poderia atribuir os seus erros à sua organização e seria injustiça puni-lo
por faltas que não teriam dependido dele. Ficamos, com razão, abalados pelas conseqüências
de semelhante teoria.” 4

Em 15 de janeiro de 1861, Kardec publica “O Livro dos Médiuns” e mais uma vez
cita a frenologia:

“É corrente ser a memória o resultado das impressões que o cérebro conserva.
Mas, por que singular fenômeno essas impressões, tão variadas, tão múltiplas, não
se confundem? Mistério impenetrável, porém, não mais estranhável do que o das ondulações
sonoras que se cruzam no ar e que, no entanto, se conservam distintas. Num cérebro
são e bem organizado, essas impressões se revelam nítidas e precisas; num estado
menos favorável, elas se apagam e confundem; daí a perda da memória, ou a confusão
das idéias. Ainda menos extraordinário parecerá isto, se se admitir, como se admite,
em frenologia, uma destinação especial a cada parte e, até, a cada fibra do cérebro.”
5

Também em 1861, o cirurgião e antropólogo francês Pierre Paul Broca (1824-1880)
estudou o cérebro de um de seus pacientes com afasia (“perda da capacidade de falar,
por lesão cortical”) e descobriu, após a morte do paciente, uma zona relacionada
à linguagem na terceira circunvolução cerebral esquerda, hoje conhecida como área
de Broca. O que ficou evidente é que a área atingida no cérebro do paciente de Broca,
era completamente diferente da área prevista pela frenologia, com isso, a frenologia
foi para o limbo, graças a pá de cal jogada por Broca.

No final do século XIX, o conceito de localização cerebral foi firmemente estabelecido
nas neurociências. E apesar da grande revolução na captação de imagens do cérebro
no século XX, só nos últimos 20 anos os cientistas puderam ver finalmente quais
áreas do cérebro estão em ação quando lemos, falamos ou estamos assustados. A técnica
de Tomografia por Emissão de Posítrons mede a quantidade de energia que cada área
consome em uma dessas atividades. O resultado foi o que muitos já desconfiavam:
uma única tarefa requer o casamento de várias regiões, mostrando como um dano localizado
pode repercutir em outra área aparentemente sem ligação com a região atingida.

Gall acertou quando propôs que o cérebro era o órgão da mente e sobre a localização
da função no cérebro, mas, errou redondamente quando disse que os sub-órgãos do
cérebro cresciam de acordo com o desenvolvimento da faculdade mental correspondente
e também quando disse que as formas e dimensões externas do crânio reflete a forma
interna do cérebro e que o desenvolvimento relativo de seus órgãos causam mudanças
no crânio.

O maior erro da frenologia foi confundir o efeito com a causa. Entre as 37 áreas
do mapeamento frenológico, havia uma responsável pela “propensão de roubar”, isto
é, se a saliência fosse grande nessa área… cuidado com a carteira! Um absurdo!

Para encerrar vamos repetir com Kardec:

“Das relações existentes entre o desenvolvimento do cérebro e a manifestação
de certas faculdades, concluíram alguns cientistas que os órgãos do cérebro são
a própria fonte das faculdades, doutrina que não passa de materialismo, porque tende
para a negação do princípio inteligente estranho à matéria.” 4

Bibliografia:

  1. Grande Enciclopédia Larousse Cultural, Nova Cultural, 1998, vol.11, pág. 2572
  2. O Livro dos Espíritos, FEB., 76ª edição, pág. 206
  3. www.epub.org.br
  4. Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, terceiro Ano 1860, julho,
    Edicel, tradução de Julio Abreu Filho, A Frenologia e a Fisiognomonia, Allan Kardec,
    pág. 209
  5. Livro dos Médiuns, cap. VI, item 113, 62ª edição, pág. 150, FEB

(Publicado na REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO, Ano LXXVIII, Nº 06, Julho
de 2003)

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