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A Evolução e o Exílio

A Evolução e o Exílio

Uma das características mais interessantes das ruínas de Cnossos, cidade
situada em Creta, a maior ilha do Egeu, e que foi o centro da civilização
minóica, é o fato de que os palácios e as cidades não são amuralhados. Isso
transmite a idéia de uma civilização pacífica e sem rivais. O auge de Cnossos
coincide com uma parte da história faraônica do Egito e com a civilização
Assíria. Ora, os documentos de ambas as civilizações narram batalhas e
conquistas durante essa mesma época, as quais ficaram registradas inclusive na
decoração dos principais monumentos históricos. Também se sabe que os minóicos
tiveram contatos comerciais com os egípcios. Mesmo assim, não há indícios de que
eles tenham assimilado um comportamento belicoso. Por fim, os minóicos tinham
certas cerimônias religiosas que ficaram retratadas em peças de decoração como
cálices de metal. Elas retratam jovens, vinhas e bois. Estas características são
um primeiro indício de ligação entre Creta e Atlântida pois, segundo o
documentário, Platão havia se referido cerimônias parecidas com aquelas
retratadas naquelas peças.

O que pareceria muito divergente seria o fato, ao que parece também narrado
por Platão, de que a civilização atlântida havia desaparecido no mar em uma
única noite. E isso não aconteceu com nenhuma parte da ilha de Creta. Mas
aconteceu com a ilha de Tera. Atualmente, essa outra ilha é um rochedo
vulcânico, recoberto por cinzas de uma grande explosão que ocorreu durante a era
minóica. As modernas escavações feitas no local revelaram traços muito
semelhantes aos de Cnossos, indicando que os habitantes faziam parte da mesma
civilização que dominava Creta durante aquela era. Mais do que isso, as
construções de Tera se mostraram extremamente avançadas para os padrões da
época: afrescos em quase todos os cômodos, fontes, água corrente no interior das
casas. Assim como em Cnossos, as construções de Tera não revelaram o menor sinal
de atividade militar. Os temas dos afrescos são cenas do cotidiano. A
representação de animais africanos nesses afrescos mostra que Tera, assim como
Cnossos, também deve ter mantido contato comercial com a África.

Essa civilização desenvolvida e pacífica, que possuía atividades religiosas
onde o touro desempenhava papel central, é bastante assemelhada com o relato
platônico da civilização atlântida. Além disso, existem muitos registros de que
a erupção que soterrou a ilha foi de proporções gigantescas. Existem relatos dos
antigos escribas egípcios e chineses descrevendo as nuvens (certamente de origem
vulcânica) que cobriram os céus no ano da erupção. Para que a tal nuvem tenha
chegado até a China, sua causa tem que ter sido realmente catastrófica.

Também existem indícios de que os efeitos da erupção tenham chegado até a
América do Norte. Na Califórnia existem pinheiros milenares cujo padrão de
crescimento é alterado ao longo do ano devido à duração do dia. A cada ano, uma
nova camada de madeira se forma nos pinheiros, que acabam servindo como um
registro histórico de alterações climáticas. Precisamente na data provável da
erupção no Egeu (aproximadamente século XVII antes de Cristo), os pinheiros
registram uma redução de luminosidade fora de época, apontando para a provável
influência da erupção em Tera.

A tese, portanto, é de que a lenda de Atlântida corresponde a uma narrativa
um pouco distorcida dos acontecimentos passados em Tera. Mais ainda, é possível
que o maremoto formado com a erupção tenha abalado seriamente a marinha mercante
em Creta, contribuindo para a decadência relativamente rápida da civilização
minóica.

Existe um contraste intrigante entre a civilização minóica e a grega clássica
em termos do contato com outros povos e em termos da herança que deixaram para
as gerações futuras. Isto porque a civilização minóica simplesmente desapareceu,
restando apenas uma sombra nas lendas gregas até as escavações de finais do
século passado e começo deste século. Já a civilização grega, que dominou Creta
durante o período micênico após a decadência final dos minóicos, transmitiu seu
conhecimento tanto para as civilizações do Oriente Próximo (fase helenista)
quanto para os romanos. Em outras palavras, é como se os minóicos, apesar de seu
desenvolvimento material e moral, tivessem ficado isolados em termos culturais,
mesmo mantendo contatos com egípcios, assírios e outros povos do mediterrâneo,
enquanto os gregos influenciaram e foram influenciados continuamente. Ao mesmo
tempo, a filosofia se desenvolveu muito mais na Grécia Clássica, mas os gregos
foram muito mais belicosos do que os minóicos parecem ter sido. Em resumo, a
civilização mais pacífica e relativamente mais desenvolvida em termos materiais
permaneceu isolada e depois desapareceu abruptamente. A menos pacífica e
filosoficamente mais desenvolvida não se isolou e influenciou todas as gerações
futuras. Qual será a lógica disso ? Neste ponto é preciso passar do documentário
original para o campo da Doutrina.

Desde a Codificação, passando, evidentemente, por Emmanuel em seu A Caminho
da Luz, a Doutrina Espírita admite a tese de que a evolução dos diversos mundo
planetários possui um certo conteúdo de solidariedade. Ou seja, em determinados
momentos, críticos do ponto de vista da evolução planetária, comunidades
inteiras de espíritos relativamente atrasados são exiladas em mundos que lhes
são inferiores moral e intelectualmente. Isto contribui tanto com o avanço da
esfera planetária de origem como com o daquela que recebe os exilados. Estes,
por sua vez, não apenas expiam seu relativo retardo moral, razão de seu exílio,
como influenciam positivamente a humanidade planetária que os recebe. O
surgimento abrupto de civilização altamente avançadas em termos intelectuais na
história terrena tem sido apontado como motivado essencialmente pela chegada ao
nosso planeta dessas comunidades exiladas.

Muito embora os membros de tais comunidades tenham todo um rol de
características comuns, não haveria porque imaginar que todos estivessem em um
mesmo nível de evolução moral e intelectual. E aqui começo a enunciar minha
própria tese. Acredito que os minóicos tinham um afastamento natural em relação
aos seus contemporâneos porque não compartilhavam de certas características como
a belicosidade. E como eles possuíam, ao mesmo tempo, uma grande capacidade
empreendedora, acho que se pode arriscar que se tratava de um grupo específico
de exilados, mais desenvolvidos moralmente e com um elevado conhecimento
intelectual prático. O contraste com a civilização grega micênica que a sucedeu
na hegemonia sobre o Mediterrâneo Oriental, guerreira e opressora, conduz
diretamente ao principal livro da Codificação. No Livro dos Espíritos,
encontramos a seguinte passagem:

“Questão 786:

– A História nos mostra uma multidão de povos que, depois dos abalos que os
agitaram, caíram na barbárie; onde está, nesse caso, o progresso?

– Quando tua casa ameaça cair, tu a derrubas para a reconstruir de maneira
mais sólida e mais cômoda; mas, até que ela esteja reconstruída, há perturbação
e confusão em tua residência.

Compreende ainda isso: eras pobre e habitavas um casebre, porém, tornado-te
rico o trocaste para habitar um palácio. Então, um pobre diabo, como tu o eras
vem tomar teu lugar no casebre e está muito contente, porque antes disso não
tinha abrigo. Pois bem! Aprende que os espíritos que estão encarnados nesse povo
degenerado não são aqueles que o compuseram ao tempo do seu esplendor. Os de
então, que avançaram, foram para habitações mais perfeitas e progrediram,
enquanto que outros menos avançados tomaram seu lugar que, a seu tempo,
trocarão.”

A conclusão desta breve discussão é que os minóicos foram muito mais do que a
origem provável da lenda da Atlântida. Esse povo constitui um exemplo marcante
da relevância da Doutrina Espírita para o bom entendimento de certos fatos
históricos que poderiam parecer no mínimo surpreendentes se adotássemos métodos
de análise de caráter materialista. A lei das afinidades, bem como o princípio
fundamental da evolução, regem os destinos da Humanidade em toda parte e devem
servir tanto de guia para nossa conduta moral como de método para nossas
reflexões sobre os acontecimentos históricos de todos os tempos.

(Publicado no Boletim GEAE Número 308 de 01 de setembro de 1998)

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