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Expandindo a Consciência

“O olho com que vejo Deus é o mesmo com que Deus me vê.” – Mestre Eckhart

Se tivéssemos de eleger um propósito para a vida, esse seria, sem dúvida, a expansão da consciência. No século que se encerrou, ninguém o expressou melhor do que o Pe. Teilhard de Chardin. Segundo ele, a cada forma mais complexa de vida corresponde um novo nível de consciência e vice-versa. Propôs um quadro geral da evolução das espécies baseado nesse princípio da complexificação / conscientização, que tem seu início no reino mineral como pré-consciência e culmina no que chamou de Ponto Ômega ou Cristo Cósmico.

Em nosso ensaio anterior, mostramos que a ‘ética do caráter’ desenvolve-se pari passu com a tomada de consciência pelos indivíduos, “de dentro para fora”. No dizer de Teilhard de Chardin e outros estudiosos do fenômeno da consciência, o que caracterizaria o ser humano seria precisamente essa autoconsciência. Mas seria assim? Seriam todos os homens auto-conscientes? Ou essa autoconsciência só existiria em nós como potencialidade a ser desenvolvida?

Se a autoconsciência for o critério para definição do ser humano, a maioria da humanidade ainda se encontraria bem próxima de uma consciência animal, isto é, não desenvolveu plenamente a consciência de si. Mas o que melhor caracteriza o ser humano e o distingue do animal é a linguagem. Ela só se tornou possível a partir do ‘eu’. Com o surgimento do homem estava inaugurado o ‘eu’ no mundo, essa falsa impressão de que nos encontramos separados de tudo o mais. Esse sentido de um eu separado é que vai nos permitir dar nome às coisas, projetando no exterior o princípio da separatividade (Em grego,diabolos, que deu origem a “diabo” e significava “aquilo que separa”). É ele o responsável pelo paradigma, segundo o qual o mundo é o somatório de coisas separadas, um grande mecanismo ou coisa parecida.

Mas, graças a Deus, existe um outro princípio que lhe é oposto e que lhe equilibra o impacto desagregador: o sentido da unidade de todas as coisas (Em grego, symbolos, que deu origem a “símbolo” e significava “aquilo que une”). Apesar dos pesares, o princípio da separatividade parece ter um papel importantíssimo a desempenhar no desenvolvimento da consciência do homem, em sua fase verbal e analítica. Para redescobrir o sentido da unidade, obscurecido com o surgimento do ‘eu’, é preciso transcender as limitações impostas pela palavra e não nos tornarmos prisioneiros dela. No dizer do Zen, é“não confundir a lua [a realidade] com o dedo [a palavra] que aponta para a lua; o ignorante olha o dedo, o sábio olha a lua”.

Não que o ‘eu’ não exista. Existe sim, mas é efêmero e transitório. Em sua origem, não passa de projeção de um ‘Eu’ maior, universal, e seu propósito é ser semente de uma consciência que lhe seja superior. Não tem substância própria permanente.

Essa percepção de nossa verdadeira natureza tem como contrapartida um alinhamento maior de nossos aspectos físicos, emocionais e mentais. Já não experimentamos grandes conflitos internos entre o nosso fazer, sentir e pensar. É o que os budistas chamam de processo de iluminação. Sua eclosão marca o início da jornada propriamente espiritual. Abrem-se, então, novos horizontes em nossa vida. Vivendo de forma mais conscientes, passamos a ser menos reativos e mais “responsivos” diante dos desafios que a vida nos coloca. Ou seja, aprendemos a dar verdadeiras respostas ao invés de simplesmente reagir diante das dificuldades. No dizer de Viktor Frankl, em sua logoterapia:

 Entre o estímulo e a resposta encontra-se a liberdade do ser humano.

A conquista dessa liberdade interior vai nos permitir desenvolver a autoconsciência e alcançar uma condição plenamente humana, rumo ao Divino em nós.

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