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História do Cristianismo VI

A história de Jesus não termina com a sua morte, mas continua com a fé dos
cristãos na sua ressurreição, que transcende a ciência histórica. Não é um fato
que pertence simplesmente ao passado, é atual, ultrapassa os limites da
história. Os primeiros cristãos viviam desta fé: “Agora o Cristo ressuscitou,
primícia daqueles que dormem”(1 Coríntios 15, 20). A morte e a ressurreição de
Jesus constituem o ponto central da mensagem do Novo Testamento. Através delas é
que Deus anunciaria e realizaria a salvação dos homens e do mundo. A morte e a
ressurreição de Jesus representam, para os cristãos, um acontecimento único e
definitivo: o “evento Jesus Cristo”. Na verdade, todo o Novo Testamento e toda a
teologia cristã limitam-se a desenvolver o significado desse evento de Cristo.
Assim, se Jesus Cristo é o centro da verdadeira profissão de fé cristã, a
cristologia é o centro vital de toda a teologia cristã.

O fundamento de todas as reflexões teológicas cristãs é a união
hipostática
, união da natureza divina e da natureza humana numa só e mesma
pessoa: “Ensinamos que Ele é perfeito na divindade, perfeito na humanidade,
verdadeiro Deus e verdadeiro homem” (Concílio de Calcedônia, 421 d.C.).

A partir da fé na ressurreição de Jesus, o grupo disperso dos discípulos se
recompõe e, na espera de sua volta iminente, torna-se a Igreja. Os seus lábios
se abrem e proclamam, no Espírito do Senhor ressuscitado, “as grandezas de Deus”
(Atos 2, 11). O seu testemunho suscita novos crentes, mas renova também a
oposição e as perseguições. Tem início a história da Igreja, da sua missão e
expansão para além dos confins da Palestina, em todo o mundo. Uma história rica
de conflitos e de tensões, na qual o mundo se defronta com o Evangelho, mas
também a Igreja se encontra com o mundo, obrigada a apresentar a mensagem de
Jesus Cristo em formas e em línguas sempre novas. História de ações e reações,
de fidelidade e infidelidade, de intuições e erros, de vitórias e fracassos
entre os povos e no coração dos homens. Tudo isso é ainda, aos olhos da fé, a
história de Jesus Cristo e do seu poder, mas também a história da sua paixão e
morte que não termina jamais.

O cristianismo nasceu na Palestina, que estava em grande ebulição, quando foi
oficialmente anexada por Roma em 6 d.C. Existiam então muitas seitas, algumas
espirituais e outras políticas, que esperavam o Messias, o Salvador prometido,
que os livraria do domínio romano.

O Império Romano foi bastante tolerante em assuntos religiosos enquanto as
novas crenças não atentavam contra os princípios do Estado romano, e os
conflitos que teve com religiões estrangeiras foram mais de ordem política que
espiritual.

O fundador do cristianismo, Jesus de Nazaré, começou a pregar que “o Reino de
Deus estava próximo”, mensagem que muitos judeus esperavam. Multidões o
seguiram, porém as autoridades judaicas suspeitaram dele e seus seguidores
diminuíram. Depois de pregar seus ensinamentos por três anos, foi detido,
julgado e crucificado pela autoridade romana. Apesar disso, a fé cristã começou
a se propagar, embora inicialmente se limitasse a um contexto essencialmente
judaico.

Paulo de Tarso, judeu converso, ampliou o âmbito do cristianismo pregando nas
ilhas do Egeu, Ásia Menor, Grécia, Itália, etc., onde existiam comunidades
judaicas, que nem sempre se convertiam. Muitas vezes explodiram revoltas contra
o cristianismo, chegando estas comunidades a se separarem irremediavelmente
quando os cristãos não apoiaram a revolta judaica em 66 d.C. O número de
convertidos crescia à medida que se deteriorava a situação econômica do império,
e adquiria mais seguidores nos centros urbanos do que no campo, já que neste
conservavam-se as crenças pagãs.

Antióquia, considerada o berço do cristianismo dos gentios, estendeu sua
influência para o norte e para o leste. No séc. I foram construídas igrejas em
Roma e, ao que tudo indica, na Espanha. Em meados do séc. II, estas haviam-se
estendido para as províncias orientais do império e apareciam no Vale do Reno e
ao norte da África. A importância que atingiu o cristianismo atraiu a atenção de
escritores como Plínio, o Jovem, e Tácito, que descreveu como Nero utilizou os
cristãos para desviar a hostilidade que havia contra sua pessoa.

Apesar das perseguições e da repressão, as conversões continuaram, e a
negativa dos cristãos em exercer o cargo de magistrado, portar armas ou render
culto ao imperador os tornaram oficialmente suspeitos. No séc. III, com a
decadência dos cultos tradicionais, o cristianismo passou a ser uma força
considerável.

No ano de 313 o Edito de Milão decretou a liberdade religiosa e a igualdade
de direitos para os cristãos, a devolução de bens expropriados à Igreja e a
abolição do culto estatal. Posteriormente, o cristinaismo foi reconhecido como a
religião oficial do império.

2 – A Doutrina Secreta

Quando se lança um golpe de vista sobre o passado, quando se evoca a
recordação das religiões desaparecidas, das crenças extintas, apodera-se de nós
uma espécie de vertigem ante o aspecto das sinuosidades percorridas pelo
pensamento humano. Um primeiro exame, uma comparação superficial das crenças e
das superstições do passado conduz inevitavelmente à dúvida. Mas, levantando-se
o véu exterior e brilhante que ocultava às massas os grandes mistérios,
penetrando-se nos santuários da idéia religiosa, achamo-nos em presença de um
fato de alcance considerável. As formas materiais, as cerimônias extravagantes
dos cultos tinham por fim chocar a imaginação do povo. Por trás desses véus, as
religiões antigas apareciam sob aspecto diverso. Todas as grandes religiões
tiveram duas faces, uma aparente, outra oculta. Está nesta o espírito, naquela a
forma ou a letra. Debaixo do símbolo material, dissimula-se o sentido profundo.

A doutrina secreta achava-se no fundo de todas as religiões e nos livros
sagrados de todos os povos. Na Índia, os Vedas narram que o Ser Supremo
imola-se a si próprio e divide-se para produzir a vida universal. O mundo e os
seres saídos de Deus voltam a Deus por uma evolução constante. Daí a teoria da
queda e da reascensão das almas que se encontra no Oriente. Os Vedas afirmam a
imortalidade da alma e a reencarnação: “Há uma parte imortal do homem que é
aquela, ó Agni, que cumpre aquecer com teus raios, inflamar com teus fogos. – De
onde nasceu a alma? Umas vêm para nós e daqui partem, outras partem e tornam a
voltar
.”

Durante a época védica, na vasta solidão dos bosques, nas margens dos rios e
lagos, anacoretas (1) e rishis passavam os dias
no retiro. Intérpretes da ciência oculta, da doutrina secreta dos Vedas, eles
possuíam já esses misteriosos poderes, transmitidos de século em século, de que
gozam ainda os faquires e os iogues. Dessa confraria de solitários
saiu o pensamento inovador, o primeiro impulso que fez do Bramanismo a mais
colossal das teocracias.

Krishna, educado pelos ascetas, foi o inspirador das crenças dos hindús. Essa
grande figura aparece na História como o primeiro dos reformadores religiosos.
Renovou as doutrinas védicas, apoiando-se sobre as idéias da Trindade, da
imortalidade da alma e de seus renascimentos sucessivos. “O corpo, dizia ele,
envoltório da alma que aí faz sua morada, é uma coisa finita; porém, a alma que
o habita é invisível, imponderável e eterna. Quando o corpo entra em dissolução,
se a pureza é que o domina, a alma voa para as regiões desses seres puros que
têm o conhecimento do Altíssimo. Mas, se é dominado pela paixão, a alma vem de
novo habitar entre aqueles que estão presos às coisas da terra. Assim, a alma,
obscurecida pela matéria e pela ignorância, é novamente atraída para o corpo de
seres irracionais
.”

Em que pese toda a sabedoria contida neste pensamento, se considerarmos o
Bramanismo somente pelo lado exterior e vulgar, por suas prescrições pueris,
cerimonial pomposo, ritos complicados, fábulas e imagens de que é tão pródigo,
seremos levados a nele não ver mais que um acervo de superstições.

Assim como na Índia, também a religião do Egito, com seu culto popular
a Íris e Osíris, não era senão uma brilhante miragem oferecida à multidão.
Debaixo da pompa dos espetáculos e das cerimônias públicas, ocultava-se o
verdadeiro ensino dos pequenos e grandes mistérios. Isto ficou comprovado,
quando Champollion descobriu três espécies de escrita nos manuscritos e sobre os
templos egípcios: os primeiros caracteres, demóticos, eram simples e
claros; os segundos, hieráticos, tinham um sentido simbólico e figurado;
os outros eram hieróglifos, que tinham um triplo sentido e não podiam ser
decifrados sem chave.

Assim também, poderíamos citar a Grécia e a Gália. A Gália
conheceu a grande doutrina; possuiu-a sob uma forma poderosa e original; soube
dela tirar conseqüências que escaparam aos outros países. “Há três unidades
primitivas, diziam os druidas, Deus, a Luz, e a Liberdade
“. Quando a Índia
já andava dividida em castas estacionárias, em limites infranqueáveis, as
instituições gaulesas tinham por bases a igualdade de todos, a comunidade de
bens e o direito eleitoral. Nenhum dos outros povos da Europa teve, no mesmo
grau, o sentimento profundo da imortalidade, da justiça e da liberdade.

Durante os primeiros tempos do cristianismo, sente-se perfeitamente
acentuado o cunho da doutrina secreta. Os primeiros cristãos acreditavam, com
efeito, na preexistência e na sobrevivência da alma em outros corpos, como vemos
nas perguntas feitas a Jesus sobre João Batista e Elias, e também da que os
apóstolos fizeram relativamente ao cego de nascença, que parecia “ter atraído
esta punição por pecados cometidos antes de nascer”. A idéia da reencarnação
estava espalhada por tal forma entre o povo judeu, que o historiador Josefo
censurou os fariseus do seu tempo, por não admitirem a transmigração das almas
senão entre as pessoas de bem.

Os cristãos entregavam-se às evocações e comunicavam-se com os Espíritos dos
mortos. Encontram-se nos Atos dos Apóstolos numerosas indicações sobre este
ponto; Paulo, em sua primeira epístola aos Coríntios, descreve, sob o
nome de dons espirituais, todas as espécies de mediunidade.

Santo Agostinho, o grande bispo de Hipona, no seu tratado De Cura
pro Mortuis
, fala das manifestações ocultas e ajunta: “Por que não
atribuir esses fatos aos espíritos dos finados, e deixar de acreditar que a
divina Providência faz de tudo um uso acertado, para instruir os homens,
consolá-los e induzi-los ao bem”
?

Na sua obra intitulada Cidade De Deus, tratando do corpo fluídico,
etéreo, suave, que é o invólucro da alma e que conserva a imagem do corpo
material, esse padre da Igreja fala das operações teúrgicas (2),
que o punham em condições de se comunicar com os Espíritos e os anjos, e de ter
visões admiráveis.

Clemente de Alexandria e Gregório de Nice exprimem-se no mesmo
sentido. Este último expõe que a alma imortal deve ser melhorada e
purificada; se ela não o foi na existência terrestre, o aperfeiçoamento se opera
nas vidas futuras e subseqüentes
.

3 – A Expansão do Cristianismo

Já se tem dito que o maior milagre do cristianismo foi sua própria difusão e
posterior triunfo como a religião predominante do mundo ocidental. Ninguém teria
profetizado que a nova religião duraria muito, quando, na morte de Jesus, passou
aos cuidados dos doze Apóstolos, pequeno grupo de homens pobres e incultos,
membros de uma raça oprimida que habitava remota província do Império e
renegados pelos próprios judeus. Contudo, dentro de uma geração após a morte de
Cristo, seus ensinamentos eram conhecidos em todo o mundo mediterrâneo.

A difusão do Cristianismo inicia-se no seio da comunidade judaica de
Jerusalém. A seguir, devido a perseguição à Igreja movida por Saulo, e a morte
do primeiro mártir, Estevão (At 7, 54-60, 8, 1-3), o Cristianismo conquista os
judeus dispersos por todo o Império Romano, ganhando as províncias orientais – o
Egito, a Ásia Menor e a Grécia. Convertendo os judeus de Alexandria, Éfeso,
Antióquia, Corinto e outros centros lança as primeiras bases para se fazer ouvir
pelos pagãos. Até meados do séc. II d.C., o número dos seus seguidores cresce em
Roma penetrando igualmente na Gália e no norte da África, onde se salienta a
comunidade de Cartago. Apesar de submetido a duras perseguições, por parte dos
romanos e dos judeus, o Cristianismo adquire, no decorrer dos séc. II e III,
grande força política que se consolida no governo de Constantino (306-337),
primeiro imperador cristão.

Em Antióquia, pela primeira vez, os discípulos foram chamados cristãos (At
11, 26), designação que os próprios seguidores de Cristo só começam a aplicar a
si mesmos por volta do séc. II.

O número de mártires crescia à medida em que as conversões aumentavam e o
império se sentia contestado. Inicialmente considerado pelos romanos como um
simples ramo do judaísmo (At 18,14-16), o cristianismo foi aos poucos suscitando
a hostilidade dos judeus e cresceu o bastante para assinalar diferenças e evocar
toda sorte de perseguições. Surgiram então os Atos dos mártires,
documentos que narravam os padecimentos e morte dos cristãos condenados e que se
destinavam à leitura nas comemorações anuais em sua honra, como ato de culto
público. Tomavam como base as informações oficiais dos julgamentos e os
testemunhos pessoais. Entre os Atos conhecem-se o Martírio de
Policarpo
(115), Atos de Justino e seus companheiros (163-167) etc.

A expansão da Igreja, no entanto, continua intensiva. No ano 200, o rei
Abgaro, de Edessa (Mesopotâmia), converte-se ao cristianismo. Na Grécia, sem
contar Tessalonica e Corinto, os progressos não eram grandes. No Egito penetra
entre a população nativa.

Na medida em que a nova crença vai se difundindo, implantam-se as primeiras
comunidades cristãs, fora dos limites da Palestina, passando a ação apostólica a
se dedicar à conversão dos gentios. O desenrolar desses acontecimentos acha-se
registrado nas epístolas de Paulo, dirigidas a núcleos estabelecidos em
diferentes regiões do Império Romano. A coríntios, tessalonicences, gálatas,
efésios, filipenses, romanos e colossences, envia o apóstolo suas mensagens,
confortando-os e aconselhando-os como agir de acordo com os desígnios cristãos.

A nova religião organiza-se sob forma comunitária, capaz de levar a Boa Nova
às mais longínquas regiões do Império Romano, ultrapassando os limites da
pequena comunidade judaica de Jerusalém. Gozando, por vezes, de completa
liberdade religiosa, perseguidos e martirizados em determinados momentos da
história, os cristãos procuraram conquistar o maior número possível de adeptos.
Graças à dedicação dos Apóstolos, apesar dos inúmeros obstáculos, a propagação
do Cristianismo transpôs os limites da Palestina e atingiu os judeus da Diáspora
e os gentios. Salientaram-se nessa tarefa, de modo especial, Pedro, João, Tiago
e Paulo.

No início de sua pregação, os Apóstolos, que antes de sua conversão ao
Cristianismo haviam sido adeptos do Judaísmo, procuravam evangelizar os judeus
que se encontravam reunidos nas sinagogas. Em conseqüência, o aparecimento dos
principais núcleos cristãos deu-se nas áreas em que se havia estabelecido a
Diáspora. Nesse período são implantadas inúmeras ecclesias (assembléias
de fiéis) nos principais centros urbanos do Império Romano: Antióquia, Éfeso,
Cesaréia, Esmirna e Alexandria.. Em Corinto, um dos centros comerciais mais
importantes do Império, Paulo, Silas e Timóteo fundam uma das primeiras
comunidades cristãs.

A seguir, o Cristianismo começa a difundir-se no Oriente, durante o séc. I.
Antióquia, na Síria, transforma-se em centro de irradiação do trabalho
missionário, que se estende até a Ásia Menor. Os êxitos das igrejas do oriente
foram excelentes. O monacato e o ascetismo deram à Igreja egípcia (copta) um
enorme fervor missionário que os levou à Etiópia e aos reinos núbios. A Igreja
nestoriana, entre os séculos VII e XI, alcançou o tamanho e a influência de
qualquer outra igreja cristã da sua época: no ano 1000 havia cerca de 25
províncias metropolitanas e uns 250 bispados que abrangiam territórios na Síria,
China, Arábia, etc.

O triunfo do cristianismo no Ocidente é posterior ao período apostólico. Na
época em que sua expansão nos centros urbanos orientais já é enorme, limita-se a
reduzido número de comunidades na Gália e na Espanha, florescendo mais tarde, de
modo predominante, nos portos marítimos. Com exceção da Palestina e da Ásia
Menor, a implantação de comunidades cristãs ocorre nas regiões vizinhas ao mar.
Só penetra no interior através das vias romanas, ao longo dos vales, no período
pós-apostólico.

As missões dos anglo-saxões elevaram o cristianismo no Ocidente; mas Roma e
Constantinopla se dividiram em duas tendências: católica e ortodoxa, que
procuraram se vincular com os povos da Europa Oriental, sendo que Constantinopla
conseguiu a conversão de territórios como Sérvia, Bulgária e Rússia, onde depois
missionários russos levaram o cristianismo a povos pagãos como os carélios,
lapônios, permianos, etc.

No leste, o cristianismo católico atraiu a Polônia (966) e Hungria (1001),
que optaram por entregar suas igrejas à proteção direta de Roma e assim evitar a
dominação franca. Desde o papado de Leão X (1048-1054) enrijeceu-se a disputa
entre Roma e Constantinopla, culminando em 1054 com um cisma permanente.

Se no período da Antiguidade os principais acontecimentos da história da
Igreja se deram no Mediterrâneo e no Oriente, na Idade Média os centros mais
importantes localizam-se na Itália, França, Inglaterra e Alemanha. Assim sucedeu
em virtude de dois acontecimentos principais: a penetração islâmica no sul do
Mediterrâneo e a adoção do cristianismo pelos germanos e eslavos. De um lado a
Igreja conquistou novos povos, de outro perdeu territórios na Síria, Egito e
parte do norte da África. As conversões começaram com os visigodos, ainda no
séc. IV. Depois foram os vândalos, os ostrogodos e outras tribos, culminando a
expansão cristã com a aceitação da fé católica por Clóvis, rei dos francos
(496).

4 – A Vida dos Cristãos Primitivos

Os primeiros cristãos proclamam o Ressuscitado como o Messias, numa relação
de identidade com o Jesus terreno e histórico, a quem eles conheceram e a quem
agora reconhecem glorificado por Deus. Jesus de Nazaré é o Cristo!

As confissões de fé que o Cristianismo primitivo expressou por diversos
modos, em breves fórmulas de fé e de pregação, em hinos e orações, no batismo e
na refeição comunitária, na luta contra “falsas doutrinas” e no testemunho dos
mártires, dão todas um título de honra a Jesus de Nazaré: Cristo (Messias),
Filho de Davi, Filho de Deus, Filho do Homem, Senhor. Todos esses títulos querem
dizer que Jesus de Nazaré é aquela pessoa concreta, na qual se decide a salvação
do mundo e de cada homem em particular. Nesse sentido, a ressurreição e a
elevação de Jesus são exaltadas como ação de Deus, o qual reintegrou nos seus
direitos de Senhor aquele que se tinha humilhado, fazendo-se obediente até a
morte na cruz.

Desta forma, a adoção da religião cristã demandava moralidade completamente
nova, assim como nova teologia. Jesus dissera que a fé deve refletir-se em boas
obras e, especialmente para o convertido gentio, isso significava maior desapego
da vida pagã que conhecera. Teatros, jogos, festejos e mesmo o serviço público
foram proibidos como idólatras. Todas as posses eram partilhadas e pouca
importância se dava aos negócios práticos, pois a segunda vinda do Cristo logo
daria fim ao mundo material. Louvava-se o celibato voluntário, mas fortes laços
de família também se dirigiam para a glória de Deus. A vida desses cristãos
voltava-se exclusivamente para o trabalho durante o dia e, à noite, reuniam-se a
comentar passagens da vida de Jesus, tentando assimilar as mensagens proferidas
pelo Mestre.

O culto cristão dos primeiros tempos caracterizava-se pela simplicidade do
ritual, celebrado, entretanto, com grande alegria e piedade, decorrentes da
esperança na volta iminente do Senhor. Os recém-convertidos cediam suas casas
para que os cristãos pudessem reunir-se diariamente a fim de orar, conhecer a
doutrina evangélica e participar da “fração do pão”, expressão pela qual é
designado o sacramento da Eucaristia nos Atos dos Apóstolos. Mas a
freqüência ao Templo continuava normalmente, já que o Cristianismo ainda não se
havia libertado totalmente da influência e das práticas judaicas.

As antigas perseguições aos cristãos fizeram muitos mártires. Esse termo vem
do grego martir, significando “testemunha”. E o seu culto originou-se no
séc. II. Os martirizados eram heróis da causa cristã e sua veneração tornou-se
significativa: eles poderiam interceder junto a Deus. Os cristãos passaram a
invocá-los, reunindo-se em torno de seus túmulos, que se transformaram em
centros de religiosidade cristã. Especialmente em Roma, as comunidades mais
ricas adquiriam terrenos onde sepultavam seus mortos. Para abrigar os túmulos de
possíveis profanações, construíram as criptas no subsolo e, sobre elas,
edifícios de culto. Esses cemitérios cristãos – particularmente os mais
resguardados – passaram a chamar-se “catacumbas” (originariamente o nome de um
campo próximo ao cemitério de São Sebastião, em Roma).

Com o desenvolvimento do culto aos mártires, a vida cultual nas catacumbas
assumiu grande importância. E, quando os cemitérios passaram à jurisdição da
Igreja, tornando-se propriedades oficialmente cristãs, a vida cultual nas
catacumbas teve ainda maior impulso.

Caracterizados dessa forma, os cemitérios foram muito visados quando o poder
romano pretendeu impedir as reuniões cristãs. Alguns imperadores interditaram
suas entradas e confiscaram os edifícios. Apesar das proibições, nos períodos de
crise mais aguda, os cristãos reuniram-se no subsolo. Para se protegerem,
cavaram estreitos corredores, cobriram outros já existentes e construíram
escadarias. Dificultavam assim o acesso dos soldados.

As catacumbas foram utilizadas num curto período, principalmente em Roma, e
seus arredores. Tornaram-se, entretanto, para os cristãos, o mais eloqüente
símbolo de seu testemunho, significando a realização das palavras do Evangelho:
“Pela vossa constância alcançareis a Salvação” (Lucas 21, 19).


(1) Anacoreta – Religioso ou penitente que
vive na solidão, em vida contemplativa.
(2) Teurgia1 – Espécie de magia baseada
em relações com os espíritos celestes. 2Filos. No
neoplatonismo, arte de fazer descer Deus à alma para criar um estado de êxtase.
(3) Ablução – Ritual de purificação por meio da água, praticado em
diversas religiões


TEXTOS EXTRAÍDOS DE:

  • DENIS, Léon, Depois da Morte.
  • DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo.
  • SAVELLE, Max. História da Civilização Mundial.
  • Dicionário Prático Ilustrado. Lello & Irmãos Editores, Porto.
  • Enciclopédia Btitânica.

(Publicado no Boletim GEAE Número 412 de 06 de março de 2000)

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