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Na Ciranda da Vida

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Enéas Canhadas

A personalidade humana é muito complexa, e diante desta complexidade, podemos ainda ver acontecimentos que permanecem cercados por uma aura de mistério. O mistério, na verdade, é uma forma muito tolerante ou conformista para classificarmos o que desconhecemos. A Doutrina Espírita nos oferece um amplo aspecto para compreensão das manifestações do nosso Espírito através das personalidades que adotamos. Até aqui, tudo está bem ordenado.

Problema mais complexo começa a surgir quando, alguma personalidade pode ceder lugar a outra ou acontecer que o Espírito acabe se manifestando através de outras personalidades, ou outro modo de ser, nesses casos como se fosse outro ou outra em momentos e circunstâncias diferentes.

No Livro Sarandi – Na Ciranda da Vida (Edit. Mundo Maior, abril de 2004), procurei enfocar esse problema através de um personagem imaginário mas que sofre o processo de dividir-se em personalidades que, repentinamente e de maneira autônoma começavam a se manifestar. Do ponto de vista psíquico apenas, podemos chamar isso também de uma forma mais simples, de sub personalidades. Este termo é correto quando o fenômeno trata de uma cisão ocorrida de fato, isto é, trata-se da mesma pessoa mas com manifestações tão próprias e diferenciadas que se torna fácil perceber como sendo uma outra pessoa. De qualquer maneira, é um problema psíquico grave, que se não for tratado, poderá levar a pessoa a desintegrar-se totalmente sem possibilidade de volta à sua vida psíquica normal e saudável. Felizmente existe na literatura psiquiátrica, médica e psicológica relatos de casos com final feliz.

As coisas ficam um pouco mais complexas quando, dando-se a manifestação de outra personalidade na mesma pessoa, fizermos a pergunta “se se trata ou não de um outro Espírito habitando o mesmo corpo”. Léon Denis, em “O Problema do Ser, do Destino e da Dor” (FEB) assim se expressa quanto aos casos de dupla personalidade: “Em certos casos, vê-se aparecer em nós um ser muito diferente do ser normal, possuindo não só conhecimentos e aptidões mais extensas que as da personalidade comum, mas, além disso, dotado de modos de percepção mais poderosos e variados. As vezes mesmo, nos fenômenos de segunda personalidade, o caráter se modifica e difere por tal forma do caráter habitual, que tem havido observadores que se julgaram na presença de um outro indivíduo”. É importante esclarecer o termo dupla personalidade, quando se trata de apenas uma divisão. Múltiplas personalidades aplicam-se aos casos em que surgem várias personalidades habitando ou manifestando-se em um mesmo corpo. Depois de estudar um caso tradicional na literatura, o da jovem Félida, Leon Denis chega a seguinte conclusão: “Vê-se que não há aí em jogo várias personalidades, mas simplesmente vários estados da mesma consciência”. Gabriel Delanne escreve no livro “A Evolução Anímica” (FEB) “que não se legitima aqui a presunção de duas individualidades distintas, antes nos parece mais verossímil e racional a manifestação de dois aspectos diferentes da mesma individualidade”, que continua na mesma linha de pensamento.

Em outro caso analisado pelo escritor Hermínio C. Miranda temos a história de Sybil quando nada menos de 16 Espíritos tomam de assalto o corpo de Sybil Isabel Dosett. A Dra. Wilbur, a terapeuta que tratou de Sybil conseguindo sua cura ou seja, sua reintegração, procura explicar os fenômenos, apontando-lhes causas que, chama de naturais, tentando mostrar a Sybil que as “personalidades” que vive são criações suas, da moça, não se tratando de invasões de fora, de Espíritos atuantes. E com isso, em verdade, nada consegue, pois, Sybil não se deixa convencer, diante da evidência dos fatos. O autor espírita, Hermínio C. Miranda, afirma haver “realmente, uma comunidade de Espíritos a gravitar em torno de Sibyl, médium de grande sensibilidade, sem dúvida, levando-o a chamar o fenômeno de “condomínio espiritual”, que deu origem ao livro “Condomínio Espiritual” Edição Folha Espírita: “Mary incumbe-se dos afazeres domésticos, faz bolos e biscoitos que Sibyl aprecia muito. As duas Peggy se divertem, Vicky tem amigos sofisticados como ela própria, Mike e Sid se encarregam da manutenção eletromecânica do apartamento e assim por diante.” Sibyl é completamente dominada pelos “condôminos” que utilizam seu corpo somático, a ponto de impedi-la até de suicidar-se como o fez Vicky.

Como disse a Dra. Wilbur, nos casos de personalidades múltiplas, cada uma reage como pessoa diferente, em completa Independência, o que demonstra a tese espírita que as considera individualidades, isto é, Espíritos. Trata-se, assim, de possessões. Hermínio C. Miranda relata ainda outros casos mais impressionantes no seu livro “Condomínio Espiritual” do qual podemos nos ocupar outra vez, quando oportuno.

Numa visão ampliada pela compreensão Espírita, justifica-se tal polêmica e, consequentemente, tais dúvidas, pois somos a soma de nossas experiências passadas. Muitas interferências do que já fomos ou fizemos nas vivências e na nossa personalidade atual, podem fazer-se presentes, principalmente quando fatos vividos nos remetem a medos e traumas antigos. Segundo Jung, aprendemos que um trauma nunca desaparece, apenas encontra-se após longo e exaustivo trabalho de autoconhecimento, mais conhecido de nós mesmos. Precisamos compreender e aprender com cada personalidade vivida, sem romantismo ou preconceito, aceitando que podemos ter sido pessoas benévolas como também perversos. Nem precisaremos pensar em termos sido reis ou rainhas, basta que tenhamos sido um bárbaro vivendo todos os seus impulsos ou um chefe de família extremamente autoritário.

Múltiplos eus a partir dos diferentes papéis sociais que assumimos em dada circunstância, podem fazer surgir uma sub personalidade. Isto explicaria um pouco o que acontece com certos crimes hediondos que temos observado recentemente, noticiados pela imprensa. Um certo dia, emerge um monstro que habitava, adormecido, dentro de alguém. Se as experiências passadas formam o conjunto de nossos eus e inteligências, podemos afirmar que nossas personalidades pretéritas influenciam e até complementam nosso comportamento atual, pois podemos aproveitar os atributos e aprendizagens de vivências anteriores.

O que chamamos de Carmalidade, também pode dar origem a acontecimentos por situações repetitivas vividas em várias existências dando lugar a sincronicidades, clichês mentais como nos ensina Emmanuel ou mesmo fixação de personalidades, pelo simples fato de nos ser muito mais simpática uma determinada vivência pregressa.

Nós trazemos muitas pessoas dentro de nós, e esses múltiplos eus possuem diferentes inteligências, capacidades e atributos que favorecem a nossa evolução. Será de grande valia construirmos um certo mapa dessas qualidades, tomando consciência das mesmas. O Livro do Espíritos nos ensina que, se prestarmos atenção a como somos, teremos boas pistas do que somos atualmente. Estamos em constante mutação, e as qualidades são para serem aproveitadas e as dificuldades ou falhas do nosso Espírito são para serem aprimoradas.

O fenômeno das Múltiplas Personalidades, Psicopatologia e Possessões, constituem portanto, uma sintomatologia de alguém que não está bem. Senão Espíritos gravemente doentes para sermos mais contundentes. Será necessário tratar os traumas e sintomas de cada personalidade que se manifesta, procurando diferenciar do fenômeno da possessão, através do qual espíritos patológicos assumem o controle do paciente, quando for o caso. No caso relatado por Hermínio C. Miranda, o Espírito já desencarnado que se apossou do corpo de outra pessoa, precisava ainda receber tratamento psiquiátrico neste plano terreno.

Uma crise existencial não deverá ser encarada com a mesma gravidade, embora até possa criar um campo mental para que ocorra cisão de personalidade. As depressões também, não devem dar lugar a quadros psicóticos ou neuróticos tão graves, mas contém germens de transtorno de personalidade que podem fazer aparecer crises e problemas muito sérios.  Não tenhamos medo, no entanto, de descobrir o nosso lado artista, cientista, de médico ou de sacerdote, para falar apenas em alguns tipos psicológicos, assim como definimos muito facilmente o indivíduo que é sempre uma alegria na festa onde chega como também sempre pensamos em alguém quando se trata de agitar essa mesma festa para que ela, efetivamente, aconteça. O que nos importa é o autoconhecimento que as nossas experiências vivenciais podem nos trazer, de modo que assim, possamos ir integrando as experiências ao nosso Espírito que poderá ser, a cada encarnação, uma alma muito mais experiente e evoluída.

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