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O Jesus que Trago no Peito

O Jesus que Trago no Peito

Existem dois Jesus cultuados pela humanidade: Jesus, o Messias hebreu, ou Cristo
grego, helenizado, cultuado pelos altares das igrejas cristãs, elevado à condição
divina de filho de Deus, segunda pessoa da trindade teológica cristã, e o Jesus
de Nazaré, homem, filho do homem nos dois sentidos, por ser filho de José e Maria,
e por ser espírito que alcançou a perfeição, e está livre do ciclo das reencarnações,
encarnando-se por sua livre vontade, quando desejar, para auxiliar a evolução dos
seus irmãos ainda atrasados no caminho.

Qual desses Jesus devemos ter em nosso coração? Qual desses modelos está de acordo
com a Doutrina Espírita? Qual desses dois mestres está nos centros espíritas?

Parece ser simples a resposta. O modelo Jesus-homem é o modelo espírita. Por
quê? Jesus de Nazaré é filho de Deus como todos nós. Não foi criado de forma especial,
protecionista, mas como todos, foi criado simples e ignorante, e fez toda a sua
evolução em mundos anteriores à criação da Terra.

Não podemos entender uma parcela dos espíritas que divinizam Jesus, embora digam
que ele não é Deus, e cultuam um Cristo sofredor, amargurado, traído, derrotado
na cruz e exaltado na ressurreição. Vivem pedindo a intervenção de Jesus em problemas
graves e em ninharias do dia-a-dia. Outra parcela de espíritas que não pensam assim,
são vistos com preconceito, como inimigos do Cristo, embora nessa parcela tenha,
também, os radicais que ironizam os que vivem dos favores de um pseudo altar espírita.

Precisamos deixar bem claro que Jesus de Nazaré é um espírito muito superior,
o mais perfeito espírito que já passou pela Terra, guia e modelo que o Pai Celestial
nos concedeu para seguir os passos.

Jesus é um guia espiritual que ficou de braços abertos pregado numa cruz infamante.
Ao descer da cruz ele continua de braços abertos porque continua sendo crucificado
por aqueles que conhecem os seus ensinamentos, mas não os praticam, antes, confundem
os mais simples.

Mas ele continua de braços abertos, também, para dar a liberdade a cada um, de
estar com ele ou ir embora. Ouça a minha história:

Caminhei pelos caminhos da vida com o manto das ilusões e o cetro do poder. Fui
grande, temido, odiado. Gozei tudo o que a vida me permitiu, porque ela sempre permite,
para depois cobrar.

Envolvido pelos gozos da vida fui coberto, também, pela estamenha dos pobres
e por um manto de feridas trazidas pela hanseníase. A lepra que existia dentro de
mim exteriorizou-se para a minha pele. Foram séculos de angústias e desesperos,
mas também de inconformação e revolta. Passamos pelo Vale do Kidron, pela ilha Molokai
no Hawaí, pelos Lazaretos da Europa, pelo asilo do virtuoso sacerdote Padre Bento,
no interior de São Paulo, sempre variando as posições entre o poder, a batina, as
cátedras protestantes e os asilos.

Mas um dia o sofrimento bateu rijo no meu coração. Já não era possível suportar.
Do alto do meu calvário vi um Cristo diferente. Desci da minha cruz, ele estava
sereno, amoroso, de braços abertos a me esperar. Ajoelhei-me no chão e abracei os
seus joelhos. Ele levantou-me e apertou-me contra o seu peito. Depois abriu os braços,
e ante a minha surpresa ele disse sem pronunciar palavras:

— Você é livre para ficar, ou para ir embora. O amor não prende, não magoa. Não
tortura.

Dali para a frente, a cruz que eu desprezava por não compreendê-la, passou a
ter outra significação. Sua trave horizontal representa para mim as coisas materiais
da vida. A sua trave vertical representa as nossas aspirações superiores, por isso
ela indica o rumo das estrelas. É como uma flecha que disparamos para o céu, levando
a nossa prece a Deus.

Confesso que em momentos de recaídas tentei abandonar Jesus. Seus braços estavam
abertos e eu estava livre, mas não consegui dar um passo para longe do Mestre, que
aprendi a amar.

Meu Jesus é companheiro, me entende, converso com ele, reclamo, choro, e ele
não me toma ao colo, apenas mostra que devo ter um caráter viril. Eu o amo intensamente,
mas trato-o com naturalidade.

O meu Jesus não está nos altares, nem na cruz, nem no suplício. Está, sim, nas
Bodas de Canaan; no alto do Tabor; estendendo as mãos para curar moralmente Madalena
e tantos enfermos do corpo e da alma; no aconchego do lar de Marta, Maria e Lázaro,
em Betânia; na montanha onde ele pronunciou o mais belo discurso que ouvidos humanos
já registrou.

(Jornal Verdade e Luz Nº 167 Dezembro de 1999)

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