Tamanho
do Texto

O Processo de Mudanças do Espiritismo

Reinaldo Di Lucia

Introdução

Um dos principais problemas, senão o maior, com que o espiritismo defronta-se hoje é a recusa por parte dos componentes do movimento espírita, seja no âmbito pessoal, seja no organizacional, em encetar uma busca por novos conhecimentos que culminasse com necessárias atualizações na estrutura doutrinária, em seus aspectos científico e filosófico.

Essa busca é necessária na medida em que o espiritismo é, como definiu o próprio Kardec, uma ” ciência filosófica ” [1]. Isso significa que a doutrina espírita baseia-se não somente em fatos experimentalmente verificáveis, mas em um conjunto de idéias que apresentam estes fatos, coordenando-os em uma tese lógica que engloba todo o Universo. Em suma, o objetivo da doutrina espírita é mostrar como o Universo é constituído, e, a partir daí, propor uma modificação pessoal de cada espírito, para que estes passem a agir de acordo com a lei natural.

Assim sendo, e considerando que os conhecimentos do homem sobre o Universo vão crescendo de maneira paulatina, é necessário que o espiritismo esteja constantemente atualizando-se, o que significa dizer, repensando-se a cada novidade que a ciência ou o pensar humano descobrir. Esse repensar levará, fatalmente, a mudanças na estrutura ideológica e organizacional do espiritismo.

Tais mudanças foram previstas para a doutrina espírita pelo próprio Kardec. Ao discutir sobre o modo pelo qual o espiritismo vem a ser conhecido, e o que acontecerá com ele no futuro, Kardec deixa claro que modificações serão realizadas na medida que a verdade venha a ser conhecida com mais plenitude: ” O espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará “[2].

Essa recusa em aceitar um processo de mudanças para a doutrina espírita, mesmo tendo este processo sido preconizado pelo próprio Allan Kardec, faz com que, cada vez mais, o espiritismo esteja afastando-se da posição de ciência ou de filosofia moral, com a qual ele próprio se define. Em fazendo isso, o movimento espírita acaba dando razão àqueles que vêem no espiritismo não mais que uma seita mística, desvinculada de qualquer processo racional, guiando-se apenas pela fé cega.

É compreensível que o processo de mudanças, sendo, sempre, traumático, provoque certo receio, notadamente naquelas pessoas que ocupam posições de poder. Entretanto, o que está em jogo é nada menos que a própria sobrevivência da doutrina espírita, que, incapaz de atuar como uma religião formal ( o que, aliás, não é seu escopo ), também não tem sido capaz de fazer-se ver pelo movimento de cultura como uma filosofia capaz de contribuir, com uma visão racional e otimista, para a felicidade do homem.

Atualmente, em contraposição ao que acontecia à época em que o espiritismo foi criado, a elite cultural da humanidade não se preocupa com ele, aplicando aos fenômenos que lhe deram origem explicações que desconsideram a possibilidade de sobrevivência do espírito. E o meio espírita não tem sido capaz de impor suas idéias, nem ao menos como hipóteses de trabalho válidas.

O presente texto objetiva discutir os motivos que levam o espiritismo a esta posição de estagnação no aspecto cultural, que o tem feito sustentar posições em desacordo com o atual estágio do conhecimento humano. Salienta meios pelos quais a doutrina espírita pode retomar seu crescimento intelectual, a partir de discussões amplas a serem realizadas nos próprios centros espíritas e de uma melhor preparação dos recursos humanos. Enfatiza também a necessidade de estimular a produção intelectual sobre espiritismo, e de participação do espírita nos meios acadêmicos, de modo a torná-lo conhecido e respeitado.

1. a “questão religiosa“, ainda uma vez

Aquilo que estou chamando de “questão religiosa“ refere-se, obviamente, à discussão que já tem se tornado clássica: saber se o espiritismo é ou não é religião. A freqüência com que tal discussão tem acontecido no âmbito do espiritismo é tão grande que já se tornou, há muito, cansativa e estéril. Então, por quê reativá-la?

Fundamentalmente porque a maioria ( senão a totalidade ) das discussões que se efetuam sobre este tema raramente saem do campo pessoal, indo, quando muito, ao significado da palavra ” religião ” ( e normalmente sem grandes pesquisas ). Não se atinge o domínio das idéias, não se discute o que se quer dizer com ” é religião ” ou ” não é religião “, não se debate a verdadeira essência do espiritismo. A discussão não é prática, e nem mesmo acadêmica: é somente facciosa.

É claro que existem bons textos sobre o assunto, mas, infelizmente, eles acabam passando despercebidos no mar das publicações tendenciosas. E, mais prejudicial ainda, é o descaso com a informação da comunidade espírita, que, sob o falso pretexto de ” não polemizar inutilmente “, cala sobre o assunto, esperando que ele morra por inanição.

Mais do que uma simples discussão da existência de um sentimento de religiosidade dentro da doutrina espírita, o fundo desta questão é a postura do espiritismo perante o mundo cultural. E o grande motivo pelo qual a maioria das lideranças espíritas não quer discuti-la é de ordem política, e não conceitual. Tal como em qualquer grupo organizado, a luta pelo poder é bastante significativa dentro do movimento espírita, apesar de, hipocritamente, se querer convencer as pessoas do contrário.

Mas, porquê é importante discutir se o espiritismo é ou não uma religião? Primeiramente porque há, claramente, uma distinção entre o conteúdo etimológico ( sentido denotativo ) e a conotação da palavra religião assumida pela maioria da população brasileira. Em segundo lugar, porque a postura religiosa , tal como tem sido proposta, tem um caráter cerceador sobre o crescimento do espiritismo enquanto filosofia. Finalmente, porque, sem resolvermos claramente esta questão, a meu ver relativamente simples, é impossível partirmos para uma discussão mais profunda da doutrina espírita.

A definição etimológica do termo, que normalmente é o ponto mais importante a ser considerado numa discussão deste tipo, destitui-se de maior importância no caso de religião. Senão, vejamos: não se pode definir com clareza a etimologia da palavra; dá-se como mais provável a referência ao verbo legere, no caso, re-legere ( trazer de novo à mente, refletir )[3]. Entretanto, o étimo mais comum, desde Lactâncio, remete a ligare, re-ligare ( religar, tornar a unir ). Uma alternativa é dada por Krishnamurti C. Dias, que liga religião a religionis ( laço que une os membros de uma mesma crença ).[4]

O problema com todas estas definições etimológicas é que elas indicam conceitos distintos. A primeira refere-se a um refletir sobre a natureza, e eventualmente possui conotação metafísica ou mesmo teológica. A segunda liga-se claramente a uma posição política, impondo um liame para a união do homem com a divindade ( representado pelas estruturas igrejeiras hierarquizadas que estamos acostumados a ver ). Na terceira, temos uma representação prática, simbólica, da comunhão de idéias que formam as diversas escolas de pensamento humano.

Como não se pode dar absoluta preferência a qualquer uma delas, que tenha um mínimo de comprovação histórica, assentar a discussão sobre este tema em bases puramente etimológicas conduz quase que necessariamente ao campo minado das opiniões, além de não levar em consideração o que se entende atualmente pela palavra religião.

Este, na verdade, é o grande x da questão. Segundo o dicionário, religião é: ” 1. Crença numa força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do Universo, e que como tal devem ser adorada(s) e obedecida(s). 2. A manifestação de tal crença por meio de doutrina e ritual próprios, que envolvem, em geral, preceitos éticos. (…) ” [5]. Ora, esta definição representa muito bem o sentido conotativo que tem a palavra religião, ao menos no Brasil: o de uma doutrina indissoluvelmente ligada a cultos, rituais, dogmas, etc. para defender uma postura de dona de verdades incontestáveis. Independe de qual Deus está em jogo, ou dos meios que serão usados para reverenciá-lo: as formas de adoração exteriores são as marcas mais fortes da idéia comum de religião.

Este não é o caso da doutrina espírita. Ela, que nasceu em meio a um florescimento cultural, que lutou bravamente contra radicalismos materialistas e espiritualistas, não possui nem pretende possuir verdades incontestáveis. Sua grande busca é a de uma idéia que forneça uma explicação do Universo que inclua o homem, em seus múltiplos aspectos e que leve em consideração os fenômenos aparentemente inexplicáveis da mediunidade. Não tem e nunca terá rituais ou cultos exteriores, os quais não se coadunam com sua proposta de existência.

Este é o motivo pelo qual Kardec manifestou-se contrário a chamar o espiritismo de religião: ” Não tendo o espiritismo nenhum dos caracteres de religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral “.[6]

Entretanto, se o problema fosse simplesmente esta dificuldade de entendimento semântico, ele seria de menor importância. O grande mal em ser considerada uma religião é que, devido a isto, a doutrina espírita tem sido constantemente paralisada naquilo que é a principal característica de uma ciência, e mesmo de uma filosofia: a capacidade de buscar o novo, encarando o Universo como se houvesse ( e com certeza há ) muito de uma verdade essencial escondida, velada, que precisa ser trazida a lume. Tais descobertas não se dão apenas como complemento dos conceitos espíritas já publicados, mas também pela revisão desses conceitos em face às novas descobertas do conhecimento humano em todos os seus diversos aspectos.

É nisto que a assunção de uma postura religiosa ( vale dizer, dogmática ) tem sido altamente prejudicial. Fazendo com que o meio espírita acredite que as verdades essenciais já foram postuladas pela nossa doutrina, os artífices desse comportamento desestimulam o livre pensar nos meios espíritas. O resultado disto é que o espiritismo vem sistematicamente repetindo as mesmas coisas nos últimos cem anos, e, assim, tornando-se uma doutrina anacrônica, chegando mesmo, em certos casos, a defender posicionamentos ridículos [7].

Mais: se nós, espíritas, não conseguimos discutir em alto nível uma questão relativamente simples, e encontrar uma solução que permita a conceituação precisa da real idéia do espiritismo sobre ele mesmo e sobre o mundo que o cerca, não conseguiremos discutir questões mais profundas, que envolvam os conceitos mais fortemente definidos por Kardec. E, ainda, não poderemos analisar as novas teorias que constantemente são apresentadas aos olhos do público científico, filosófico ou mesmo leigo, e que vão na direção contrária à explicação espírita.

E continuaremos com o que vemos por aí, com os espíritas sendo ridicularizados por uns como místicos retrógrados, e por outros como adoradores do demônio, sem competência para rebater as críticas e firmarmo-nos, ao menos, com a mesma coerência com que Kardec posicionou o espiritismo em sua época.

2. questionamento e atualização

Já vimos que a posição religiosa assumida pelo movimento espírita tem como conseqüência cercear o desenvolvimento do espiritismo enquanto filosofia e, além disso, dificultar a discussão mais profunda de alguns temas relevantes. Por que isto ocorre? [8]

Toda filosofia necessita, para seu crescimento, de apenas uma coisa: que seus adeptos exerçam, de maneira plena, a capacidade de pensar ( que nos diferencia dos demais entes da criação ), de discutir ( para proporcionar o crescimento das idéias ) e de produzir ( para que mais pessoas tenham acesso às novas idéias ). Ora, isto é impossível se considerarmos que uma postura religiosa só se mantém à base de dogmas ( verdades indiscutíveis ), que, conforme sua própria definição, não permitem a discussão e as novas produções. [9]

Esta postura religiosa do movimento espírita é uma conseqüência histórica de seu desenvolvimento no Brasil. De fato, apesar de o espiritismo ter sido introduzido no país por membros da aristocracia dominante no século XIX ( normalmente, filhos de grandes senhores rurais que iam estudar na França, pólo cultural da época ), houve, desde o início, forte junção dele com as religiões, principalmente a umbanda e o catolicismo.

Grande parte dos primeiros espíritas do Brasil, ou, ao menos, dos primeiros grupos a basear-se em Kardec, eram fortemente religiosos, influenciados desde cedo não só por encarnados com este cunho ( como Bezerra de Menezes ) mas também, principalmente, por comunicações de desencarnados, algumas, supostamente, de grandes nomes, como, por exemplo, do próprio Kardec. Mas o principal idealizador do espiritismo religioso foi um espírito de nome Ismael, cujas mensagens levaram grande parte dos espíritas a defender, até hoje, ” a prevalência do espiritismo religioso ” [10] .

Já desde o século passado, o espiritismo brasileiro dividia-se em ” místicos ” e ” científicos “, liderados, aqueles, por Bezerra de Menezes e os últimos pelo professor Ângelo Torterolli. Esta oposição de idéias levou a uma luta encarniçada, na qual as idéias dos místicos predominaram, tendo estes usado ” (…) para isso duma violência inusitada nos arraiais espíritas ” [11]. É desta forma que surge a Federação Espírita Brasileira, ” Para travar com maior probabilidade de vitória a luta contra ‘ os quatro inimigos do espiritismo: o materialismo, o positivismo, o racionalismo e o catolicismo ‘ ” [12] .

O desenvolvimento do espiritismo no Brasil não pode ser entendido sem uma análise profunda da situação da época e das peças que o fizeram. A análise histórico-sociológica é fundamental para que se compreenda porque a doutrina espírita tem, hoje, o desenho que tem, e porque foi transformada numa religião [13].

É preciso também bastante cuidado ao se definir o modelo epistemológico espírita, isto é, o modo pelo qual o conhecimento espírita vem a lume. Se considerarmos o espiritismo como uma doutrina revelada, corremos o risco de mistificar aquelas idéias que nos foram trazidas pelos reveladores ( em nosso caso, os espíritos desencarnados que se manifestaram mediunicamente a Kardec ). O raciocínio é simples: se, como se costuma dizer e repetir no movimento espírita, os espíritos que responderam às perguntas de Kardec eram efetivamente de uma classe intelecto-moral muito elevada, então como discutir e questionar suas idéias e seus ensinamentos?

É verdade que há uma outra forma de se encarar o conceito de revelação, que remonta à etimologia deste termo. Revelação vem de re-velare, no mesmo sentido de desvelar, descobrir algo que estava velado, mostrar um fato desconhecido. Se considerado neste sentido, qualquer demonstração de um fato até então desconhecido, que possua a propriedade de mostrar-se verdadeiro, é uma revelação. Assim, o trabalho do professor, do cientista, do descobridor, é um trabalho essencialmente de revelação. Somente desta forma se pode admitir a idéia de revelação espírita.

Mas, normalmente, as filosofias não vêem ao mundo por revelação. Filosofias são idéias, teses ou teorias que surgem do pensar do homem ao tentar explicar determinados fenômenos. Como normalmente estes fenômenos referem-se ao Universo e aos entes que nele habitam, eis que as filosofias normalmente possuem parcelas de cosmologia, metafísica, ética e política. É a busca da ampliação incessante da compreensão da realidade, através do saber.

Ora, sendo o espiritismo uma filosofia, é mais fácil para nós imaginar que seu surgimento dá-se do mesmo modo que surgem as demais filosofias, isto é, pela capacidade de organização de um pensador, que sistematiza uma teoria a partir de determinadas observações. No caso específico da filosofia espírita, o pensador era Kardec, e as observações, suas conversas com os espíritos desencarnados. Isto é corroborado pela importância que o próprio Kardec dava à razão como instrumento validador de suas observações e teses.

Entretanto, uma filosofia não cresce se ficar restrita apenas a seu criador. A diversidade de pensares, mesmo que concordando nos pontos essenciais, oriunda do trabalho de diversos homens é que faz com que uma filosofia firme-se no tempo e no contexto de sua própria época, imortalizando-se. Não existe filosofia sem seguidores e opositores, sem contestação e aprimoramento dos argumentos, sem a réplica e a tréplica.

O caso espírita é ainda mais especial. Normalmente, as filosofias restringem-se a tratar de elementos da verdade quase que inacessíveis à investigação científica, e, por isso, permanecem estruturadas em suas características principais, no decorrer do tempo. Ao contrário, Kardec formulou a filosofia espírita como indelevelmente associada à investigação científica, de modo que suas verdades pudessem ir-se atualizando com o desenvolvimento do conhecimento científico.

Infelizmente, o desenvolvimento filosófico do espiritismo está ainda estagnado exatamente pela falta de uma conexão permanente entre ele e o desenvolvimento científico. Apesar da afirmação kardequiana de modificação das teses espíritas a partir das descobertas científicas, o que se vê é que estas descobertas não penetram o meio espírita, nem mesmo para um estudo mais aprofundado. Isto é conseqüência direta da postura imobilista que o movimento espírita assumiu, no que tange à aquisição de novos conhecimentos.

Uma segunda ( e mais grave ) conseqüência deste imobilismo é que os espíritas acabaram perdendo a capacidade de discutir racionalmente. Com isto, tornou-se impossível aprofundar qualquer questão que toque, ainda que de leve, os ” dogmas ” que se formaram na doutrina espírita. Tais discussões, quando provocadas, são tomadas em caráter pessoal, com acusações ridículas de desfiguramento da doutrina ou ainda ( absurdo !! ) de ” influências de espíritos das trevas “.

Todavia, quando se pensa numa discussão mais profunda de alguns temas relevantes para a doutrina espírita, não se pode esquecer que a atualização de conhecimentos do espiritismo não se refere somente àquelas idéias que Kardec deixou em suspenso, aguardando comprovações científicas ou experimentais. Não pode existir, no espiritismo, nenhuma idéia ou tese que esteja isenta da possibilidade de revisão.

As atualizações das idéias espíritas devem abranger também aquelas que Kardec postulou como verdades, ou, ao menos, como conceitos definidos. Afinal, a evolução do conhecimento humano não se submete a limites de ordem pessoal; isto é, por mais autorizado que seja um pensador, suas idéias podem e serão questionadas sempre que novos fatos contrapuserem-se a elas. Deu-se isto em toda a história da humanidade, e loucos aqueles que pretenderam deter o conhecimento baseados apenas no argumento de autoridade.

Kardec, ao adentrar em campo científico, ao falar livremente da matéria como do espírito e das relações entre ambos, expôs-se a este questionamento. E, com sua característica perspicácia e bom senso, nunca se furtou a responder ao questionamento, rebatendo aos questionadores com absoluto conhecimento de causa. Mas, certamente, rendendo-se quando lhe era demonstrado encontrar-se em erro.

Estes campos específicos onde o questionamento é possível permeiam toda a obra kardequiana. Conceitos como perispírito, fluido vital, espaço universal, criação, evolução, pluralidade dos mundos habitados, reencarnação, influência dos desencarnados sobre os encarnados, os três reinos, são todos fortemente influenciados pelas novas descobertas das diversas ciências. E, portanto, passíveis de discussão e eventual revisão, mesmo quando Kardec é afirmativo.

Para tanto, é necessário que se estruture, dentro dos centros espíritas, grupos de estudo que tenham por finalidade trazer estes temas à baila, entendendo quais sejam estas novas descobertas científicas e comparando-as com as teses de Kardec. Esta fundamentação é absolutamente necessária, para que não sejam agregados à doutrina espírita conceitos que ainda não foram digeridos pela ciência, ou que sejam claramente produto de arroubos místicos.

Certamente, alguns dirão que o questionamento do mestre é uma heresia, e que, com certeza, a verdade está no espiritismo, devendo nós aguardar que a ciência chegue a esta conclusão. Entretanto, devemos lembrar-nos que nós, espíritas, não detemos o monopólio do conhecimento propugnado por Kardec, de modo que, se nós não nos propusermos a este questionamento, outros, não espíritas, o farão.

Negando-se à discussão e à eventual atualização dos conceitos, mesmo com a demonstração de uma nova verdade descoberta, os espíritas fecham-se num mundo particular, assemelhando-se cada vez mais às religiões dogmáticas que diz combater. E a doutrina espírita aparece, para a opinião pública, como mais uma seita minoritária, sem força e antiga, sobrevivendo da fé cega. Exatamente o contrário do que propunha Kardec. [14]

3. a verdade espírita

Já dissemos que o espiritismo é uma filosofia que busca fornecer uma visão global do funcionamento do Universo, em todos os seus níveis. Isto significa que a filosofia espírita não se desvincula do universo prático, mas procura explicitá-lo num contexto mais abrangente. Assim, ela só poderá continuar existindo se suas teses representarem efetivamente a realidade. À conformidade com o real, a realidade, segundo o dicionário, dá-se o nome de verdade.

É natural, portanto, que os espíritas, ao considerarem que a teoria espírita sobre o Universo representa a realidade, julguem estar de posse da verdade. Entretanto, já temos tido provas suficientes do mal que esta crença pode trazer ao mundo, quando é tomada em seu sentido absoluto. Portanto, um estudo sobre a verdade, e sobre o modo como ela se apresenta, parece ser não somente salutar, mas imprescindível para a manutenção de um espiritismo aberto à possibilidade de evolução.

Mas, se verdade é a conformidade com o real, parece importante que se defina o modo pelo qual este real vem a ser conhecido. Já analisamos o conceito de revelação na doutrina espírita, concluindo que, em benefício de uma maior clareza, é melhor não admitir que o espiritismo veio ao mundo por revelação. Vamos procurar discutir as outras formas de obtenção do conhecimento. Numa classificação possível, são elas: o empirismo, o racionalismo, o intelectualismo, o apriorismo e o intuicionismo.

O empirismo afirma que o conhecimento só é possível quando derivado diretamente da observação sensível dos fenômenos ou dos fatos. Primeiro, o sujeito tem a sensação de algo; em seguida, percebe-o; finalmente, forma uma idéia dele. O ciclo sensação – percepção – idéia caracteriza o empirismo.

No racionalismo, ao contrário, a razão humana, a atividade do intelecto puro ou o conhecimento abstrato são as únicas formas para se atingir o conhecimento. A única coisa que importa é a razão. A maioria dos pensadores exclusivamente racionalistas admitem a existência de um conhecimento inato, chamado de conhecimento a priori.

Numa tentativa de conciliar o empirismo e o racionalismo, alguns pensadores afirmam que o conhecimento é obtido por uma combinação de ambos. Assim, primeiramente se adquire a experiência das coisas, que, depois, serão elaboradas pela razão, a qual pode, desta forma, conhecer coisas inacessíveis pela experiência. Este é o intelectualismo, e foi em seu seio que se desenvolveram os conceitos de dedução ( conhecimento iniciando-se no geral e chegando ao particular ) e indução ( conhecimento iniciando-se no particular e chegando ao geral ).

Uma outra forma de sintetizar o empirismo e o racionalismo foi proposta por Kant. Considerou ele que o homem possui alguns conhecimentos a priori, cujo conteúdo, porém será desenvolvido com a experiência. Mais ainda, propôs que a realidade só poderia ser parcialmente conhecida. Este é o apriorismo.

Finalmente, o intuicionismo considera a possibilidade de se obter o conhecimento sem a experiência nem a razão. A intuição é a apreensão pura do conhecimento diretamente de uma fonte, não necessariamente conhecida.

O espiritismo, filosoficamente, faz uma nova síntese, ao mesmo tempo que amplia o campo de obtenção do conhecimento. Nesta síntese, entram o empirismo ( notadamente naqueles campos em que a matéria, em suas várias formas, é elemento importante ), o intelectualismo ( no qual a razão entra não só como complemento da experiência e sua continuadora, mas também como elemento de validação ) e o intuicionismo ( que seria representado pela apreensão direta da realidade pelo espírito, sem a matéria intermediária ). A ampliação fica por conta da reencarnação e da imortalidade do espírito, que não limita a possibilidade de obtenção do conhecimento no tempo.

Mas todo conhecimento, para ser válido, deve ser verdadeiro, e com isto retornamos à nossa questão inicial. Em linhas gerais, existem três concepções de verdade que são consideradas na filosofia:

A primeira delas, oriunda da Grécia, diz que a verdade é o desvelamento de algo que se encontrava oculto. É a manifestação daquilo que existe ou é tal como é, o evidente, o que se presenta a razão. Presume uma realidade que, mesmo desconhecida, é preexistente ao conhecimento. Chama-se aletheia ( não esquecido, ou não escondido ), e se refere às coisas que são. É a verdade do presente. O mesmo conceito existe na Índia, onde a verdade recebe o nome de satyia.

Outra, remanescente principalmente da época do Império Romano, diz que a verdade é a precisão de relato de algo que aconteceu. Diz respeito a enunciados que dizem as coisas exatamente como aconteceram. Presume apenas o desconhecimento de algo que já ocorreu. Chama-se veritas, e se refere às coisas que foram. É a verdade do passado e da linguagem.

Finalmente, a terceira concepção vem do povo hebreu, e diz que a verdade é o cumprimento de algo que se prometeu. Funda-se na esperança de um futuro que será ou virá. Exemplifica-se pela revelação divina, e presume que o conhecimento ocorre antes da realidade. Chama-se emunah ( confiança, em hebraico ), e se refere às coisas que serão. É a verdade do futuro e da profecia.

Em qual destes tipos de verdade localiza-se a verdade espírita? Temos de considerar que o espiritismo encara o Universo como sendo uma obra da divindade, que, apesar de altamente dinâmica, contém, no geral, as características de perfeição desta divindade. Portanto, o conhecimento, para a doutrina espírita é uma busca, a busca de algo existente, mas oculto. Entretanto, não se pode esquecer que o espiritismo surge a partir de um diálogo entre os encarnados e os desencarnados. Neste diálogo, há, como já dissemos, uma espécie de revelação, a mesma revelação de um professor em uma sala de aula.

Mas, em nenhum momento a doutrina espírita coloca-se em posição de aguardar uma verdade qualquer, prometida e ainda não realizada. O espiritismo não espera um messias, nem um salvador. Simplesmente mostra um caminho, uma direção a ser seguida para que o próprio homem construa seu destino.

Portanto, a verdade espírita tem um forte componente de aletheia e algum de veritas, mas não de emunah. E isto apesar do movimento espírita formal, que continua esperando que se cumpra a transformação do Brasil em ” coração do mundo e pátria do evangelho “, e que o espiritismo venha a ser a mais importante, senão a única, doutrina vigente. Espera inútil.

4. o ” controle universal dos espíritos ”

Apesar dos vários argumentos que foram descritos a favor de uma postura de busca constante de novos conhecimentos e contra o imobilismo, há ponderações que são sistematicamente repetidas pela absoluta maioria dos espíritas, a maior parte das vezes sem um pensar mais profundo sobre elas. Uma das mais expostas, e que pode causar ( e, efetivamente, causa ) grande prejuízo a esta busca, se for mal interpretada, é a que limita os novos conhecimentos à aprovação do controle universal dos espíritos.

Normalmente, esta expressão é empregada para evitar quaisquer alterações na teoria espírita. Isto estaria ótimo se as restrições fossem limitadas a conceitos espúrios [15], e se as idéias de Kardec sobre a validação dos conceitos espíritas e as mudanças a que eles estão sujeitos fossem perfeitamente entendidas. Entretanto, o que se observa é que a referida expressão só é empregada para obstar ainda mais os progressos necessários para que o espiritismo não permaneça estagnado no tempo, anacrônico, e acabe morrendo por inanição.

Antes de mais nada, reafirmamos o óbvio: é claro que não propomos que o espiritismo incorpore toda e qualquer ” nova idéia ” ou as pseudo descobertas científicas que diariamente são veiculadas na mídia. Adivinhações, poder dos cristais, runas, etc., são coisas que necessitam de um maior embasamento, tanto conceitual quanto experimental, para que possam ser seriamente consideradas, se é que poderão.

As mudanças a que nos referimos dizem respeito às novas descobertas da ciência e ao avanço do conhecimento humano, como já dissemos anteriormente. Estas sim, precisam ser rapidamente estudadas pelos espíritas, para que a atualização da doutrina seja feita de forma a acompanhá-las. É a isso que Kardec referia-se, quando disse que o espiritismo modificar-se-á de acordo com as novas verdades científicas.

A discussão sobre as modificações a serem feitas no espiritismo passam pelo modo como Kardec validava os novos conhecimentos que iam sendo expostos, e que acabaram originando a doutrina espírita. O problema que se apresentava a Kardec era claro: esses conhecimentos, além de indicarem um caminho que mudaria radicalmente a visão que o homem tinha de seu Universo, estavam sendo obtidos por um meio que, apesar de muito antigo, nunca esteve ligado à ciência, mas à religião – a mediunidade.

Ora, como poderia Kardec, um homem acostumado ao rigor científico, apresentar de maneira inequívoca esses conhecimentos para uma sociedade cientificamente positivista? Era necessário que ele possuísse algum meio de validá-los, primeiramente a si mesmo, e depois para as academias e para o povo.

O critério básico que ele utilizou foi a razão. ” O primeiro controle é, sem sombra de dúvida, o da razão, à qual é preciso submeter, sem exceção, tudo o que vem dos espíritos “. [16] Kardec era da opinião que o espiritismo é uma ciência positiva, isto é, parte da experimentação de fatos concretos para chegar a uma generalização, às leis que regem o fenômeno e o próprio Universo. Por isso, recusava-se terminantemente a aceitar qualquer idéia baseado somente no argumento de autoridade, isto é, num nome.

Kardec, em consonância com sua visão positivista de ciência, propugnava que qualquer teoria deveria, antes de mais nada, ser lógica: ” Toda teoria em manifesta contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos que se possuem, por mais respeitável que seja sua assinatura, deve ser rejeitada “. [17]

Mas, como ele mesmo observou, este controle era insuficiente. De fato, a aprovação racional de uma teoria simplesmente significa que ela não fere o bom senso, e que, portanto, há uma característica de verossimilhança nela. No entanto, somente esta aprovação não garante que ela seja verdadeira, podendo ser apenas o produto de uma mente coerente, porém desconhecedora da realidade universal.

Assim, Kardec estabeleceu um segundo método de validação: a confirmação da teoria por uma quantidade de comunicações obtidas em diferentes pontos do globo, através de diferentes pesquisadores consultando diferentes médiuns. ” A concordância no ensino dos espíritos é, pois, o melhor controle; (…) “.[18] É a essa concordância que Kardec dá o nome de controle universal do ensino dos espíritos.

Na realidade, isto é uma adaptação do critério de validação mais usual que existe nas ciências da matéria: o da repetitividade. Qualquer descoberta científica só é validada quando, tendo os experimentos sido realizados por diferentes pesquisadores em diferentes laboratórios, os resultados apresentam-se compatíveis entre si. Como, no caso de pesquisas que envolvam o espírito, a repetição é duvidosa e difícil, devido à interferência do livre-arbítrio, uma boa aproximação deste critério é a concordância entre diversos espíritos.

Fica, pois, clara a motivação de Kardec: a de prover a incipiente ciência espírita de métodos de validação que pudessem sustentar os novos conceitos que ela trazia, e mesmo sua concatenação numa teoria mais abrangente, a filosofia espírita. Foram considerações de caráter puramente metodológico e, até esse ponto, perfeitamente válidas.

Não foi intenção de Kardec, como fica patente, submeter as descobertas das ciências formais ao controle dos espíritos. Como encontra-se muito bem explicitado no Livro dos Espíritos, a ciência foi dada por Deus ao homem para que este aprendesse a conhecer a natureza e apreender o Universo por seus próprios meios, sem esperar ser para sempre tutelado por revelações vindas do mundo espírita, do próprio Deus ou de qualquer outro lugar.

O que não podemos esquecer é que esses anos decorridos desde a publicação do Livro dos Espíritos trouxeram modificações não somente no conhecimento científico, mas no próprio modo pelo qual o homem encara o conceito de ciência. A ciência positivista, mecanicista e reducionista do século XIX está dando lugar a uma ciência orgânica [19], probabilística e colaborativa, na qual o homem não domina a natureza, mas integra-se a ela, conhecendo seus princípios e a maneira pela qual ele próprio participa deles.

Sendo a verdade espírita fundamentalmente calcada na idéia de que há um Universo previamente existente; sendo a função básica do sábio a de descortinar este Universo a todos os seres humanos, a ciência espírita não pode permanecer parada, esperando que novas revelações promovam este descobrimento. É absolutamente necessário que o cientista espírita integre-se nesta busca do conhecimento, produzindo um pensar que coloque o espiritismo numa postura pró-ativa, indo ao conhecimento, e não esperando que o conhecimento venha a ele.

Esta postura pró-ativa começa pela percepção de que ainda há um longo caminho a percorrer se desejamos conhecer a verdade. Depois, passa pela discussão dos modos pelos quais essa verdade pode ser atingida, e qual ou quais desses caminhos são os mais adequados à pesquisa espírita. Estabelecem-se planos de trabalho e então, finalmente, enceta-se a busca pelos caminhos escolhidos. Os resultados são publicados e discutidos. Só assim pode-se evolver na escalada do conhecimento.

Se o movimento espírita continuar a fiar-se somente no que os espíritos desencarnados têm a nos dizer, descobrirá, pela pior via possível, que eles não sabem mais que nós, na média, e que, enquanto esperávamos a revelação da verdade, ela já se tornou de domínio público. E o destino do espiritismo, neste caso, será aquele de todas as doutrinas que já não têm mais nada a dizer: um verbete em livros de história.

5. as mudanças

Comentamos sobre a necessidade de mudanças na doutrina espírita. Entretanto, mudanças são, sempre, fenômenos traumáticos, e por isso necessitam ser feitas com determinados cuidados. Ao falarmos em mudanças, quatro questões precisam ser respondidas antes que qualquer movimento em sua direção possa ser sequer iniciado. São elas: Por quê mudar? Para que mudar? Para o quê mudar? Como mudar? Estas questões são o objeto deste item.

Por quê mudar refere-se à causa da mudança. O que, na situação atual, está insatisfatório a ponto de exigir mudanças? Em nosso caso, a causa é cristalina, ao menos para aqueles que se preocupam com o futuro do espiritismo. Em primeiro lugar, há alguns conceitos da doutrina espírita que não mais se enquadram no estágio atual do conhecimento humano. Em segundo, há, como o próprio Kardec já havia previsto, novas verdades a serem descobertas, e o espiritismo precisa preparar-se, principalmente em termos metódicos, para essa busca.

Para que mudar refere-se ao objetivo da mudança. Qual o fundamento teórico que justifica uma mudança no espiritismo? A resposta é que o espiritismo deve mudar para não estagnar-se. Como disse Kardec, ” O princípio progressivo que [ a doutrina espírita ] inscreveu em seu código será a salvaguarda de sua perpetuidade. E sua unidade será mantida principalmente porque ela não repousa sobre o princípio da imobilidade “.[20] Reafirmando, não podemos nunca esquecer que, se o espiritismo parar no tempo, ele se distanciará tanto da realidade que será lembrado apenas como uma seita anacrônica e minoritária, sem nenhum significado maior para o homem.

Para o que mudar refere-se àquilo que se deseja. Qual é a situação final que o espiritismo espera alcançar? O que a doutrina espírita necessita é retomar o status que possuía no tempo em que Kardec o trouxe ao mundo, ou seja, o de uma filosofia universal, possuidora de conceitos adequados aos fatos científicos demonstrados e que encara o Universo como um todo orgânico e consistente. O espiritismo surgiu como uma doutrina que, por tratar de maneira racional temas de elevada complexidade, sempre foi discutida nos meios intelectuais. O que hoje, infelizmente, não ocorre.

Como mudar , finalmente, refere-se ao método, ao caminho a ser empregado pelos espíritas para concretizar as mudanças necessárias sem descaracterizar a doutrina espírita, ou seja, mantendo seus pontos fundamentais enquanto forem cientifica e filosoficamente válidos.

Por quê? Nem todos concordarão comigo que a situação atual do espiritismo é insatisfatória. Essa diferença de opinião é resultado de duas visões distintas e, pode-se dizer, inconciliáveis no que diz respeito aos objetivos e aos métodos do espiritismo. Aqueles que acham que a principal razão de ser da doutrina espírita é a salvação do homem, é claro que não compreendem a necessidade de atualização. O conceito de salvação é absoluto e estático: o homem acha-se em erro e há um caminho previamente definido pela divindade ou por espíritos superiores que levam-no à perfeição; portanto, o que precisa ser modificado?

O principal objetivo do espiritismo é explicar o ” modo de funcionamento ” do Universo, a verdade universal ainda oculta. Claro que isto envolve o ser humano, e, portanto, envolve considerações éticas e morais. Mas, além de não se restringir apenas a isto, fica a questão: é possível a existência de uma ética independente do conhecimento da verdade? A resposta é não.

Não podemos esquecer também que, a favor do imobilismo ( da postura que diz que ” como está, está bem ” ) existem considerações de ordem política. Basta ver a estrutura de poder de nossos centros e federações espíritas para constatar que a principal forma de comando é uma ditadura disfarçada ( e, às vezes, nem tanto ): presidentes perpétuos e que mais.

Para que? Uma coisa precisa ser sempre lembrada, independente da necessidade de mudanças: é a posição em que Kardec colocou o espiritismo em relação à cultura. Kardec foi, sempre, claro ao posicionar a doutrina espírita como uma ciência que possuía conseqüências éticas e morais. E foi, também, claro ao dizer que o espiritismo acompanhará o desenvolvimento das ciências. Se uma autoridade fosse necessária, ninguém melhor que o criador da ciência espírita para autorizar a sua atualização.

Para o quê? Algumas pessoas discordam da necessidade de o espiritismo colocar-se entre as doutrinas influentes do mundo, do ponto de vista intelectual. Isto é importante porque nenhuma ciência ou filosofia pode sobreviver sem que haja um fervilhar intelectual sobre seus conceitos. E esse fervilhar, como já foi dito, não deve ser somente favorável, mas também contrário a esses conceitos. Ora, isto só acontece quando uma doutrina é importante o suficiente para que elementos de destaque nos meios acadêmicos tratem dela, a favor ou contra.

Numa análise histórica, observa-se que isto é o que acontecia à época de Kardec. O espiritismo sofreu ataques não somente do clero ( que, num dado momento, sentiu sua posição de supremacia nos temas do espírito ameaçada ), mas também de elementos tão importantes para a ciência quanto Faraday, por exemplo. Ora, atualmente, os intelectuais que se dispõem a falar da doutrina espírita o fazem, sempre, de um ponto de vista teológico, místico ou religioso, não se preocupando com as considerações filosóficas e / ou científicas.

Este é um passo claro para a estagnação. Se não houver uma discussão muito bem fundamentada, fora do meio espírita, o que acontecerá é que, mesmo que haja espíritas de boa vontade em promover discussões internas, a doutrina espírita permanecerá fechada em si mesma, pouco evoluindo em relação ao conhecimento humano. Estagnada, portanto.

Como? Talvez o grande problema a ser resolvido seja o modo pelo qual o espiritismo deva conduzir suas mudanças próprias. Jaci Régis fez uma proposta[21] composta de seis passos: não fechar as portas a nenhum progresso, não sair do círculo das idéias práticas, apoiar a descoberta de novas leis, assimilar todas as idéias reconhecidamente justas, seguir o movimento progressista com prudência e não imobilizar-se. Esses seis passos são importantes, mas referem-se à postura que o espírita deve ter para permitir a existência das mudanças. O maior problema são as ações que devem ser materializadas para que as mudanças ocorram, no espiritismo, de acordo com os critérios de método e prudência estabelecidos por Kardec.

Precisamos, antes de mais nada, da disposição para a mudança. Em seguida, necessitamos definir os fundamentos estruturais da doutrina espírita, isto é, a base que deve ser mantida. Depois, são necessários recursos humanos adequados, previamente preparados, que permitam que as discussões sejam produtivas. Uma vez realizadas estas discussões, nos próprios centros espíritas, o próximo passo deve ser a produção de trabalhos, sob a forma de textos, monografias, livros, fitas, ou qualquer outro meio que permita uma divulgação destas idéias a todos os interessados, dentro e fora do meio espírita. Seguinte, a reunião destes pensadores em encontros que fomentem ainda mais a discussão. Finalmente, um esforço de divulgação que permita que esta novas idéias sejam levadas a todos os lugares e a todos os níveis. Estes passos são melhor explicados no item 7.

O resultado disto será que as idéias espíritas, convenientemente discutidas, serão inscritas nos meios culturais de modo permanente, livrando o espiritismo da pecha de seita religiosa inerte. Com isto, estaremos seguindo o caminho que Kardec traçou para o futuro do espiritismo.

6. fundamentos estruturais do espiritismo

As respostas às questões por quê, para que, para o que e como mudar faz supor que o caminho está aplainado para que se inicie o processo de mudanças. Entretanto, mais uma questão se faz necessária: o que é a mudança?

Mudança pode ser definida como um processo de passagem de um estado a outro estado ( ou de uma situação a outra ), realizado por um ente ou por uma idéia. O que se deve atentar é que toda mudança necessita de um pólo móvel, sem o que não há como falar em mudança, e um pólo fixo, ao qual o primeiro deve ser referido.

Isto ocorre porque, quando falamos em mudança, não podemos descaracterizar o ente ou idéia que muda, sob pena de não mais o reconhecermos, e, assim, não aceitar o próprio processo de mudança. Um grande problema é definir exatamente quais são estes pólos, ou seja, traçar a linha divisória entre o processo de mudança e a perda de identidade. No dizer de Karl Popper: ” Como pode uma coisa mudar sem perder sua identidade? Se permanece a mesma, não muda; todavia, se perde sua identidade, então não é mais aquela coisa que mudou “. [22]

Com muito mais razão este problema coloca-se no espiritismo, sendo o movimento espírita tão avesso a qualquer modificação. É preciso definir claramente quais os fundamentos estruturais da doutrina espírita, que representam seu pólo fixo, aquele em referência a que serão feitas as mudanças. Alterações significativas neste pólo descaracterizariam a doutrina, e não poderíamos mais falar em processo de mudança.

Deve-se notar que, do modo como o espiritismo foi constituído, mesmo este núcleo que chamamos de pólo fixo pode ser discutido e, eventualmente, rechaçado, desde que a evolução científica demonstre a falsidade de qualquer proposição dele. Porém, neste caso, não se pode mais falar em processo de mudança, porque, a rigor, não se poderá mais falar sequer de espiritismo.

O problema que se apresenta, portanto, é definir a fundamentação estrutural do espiritismo, de modo que possamos aclarar o caminho para as mudanças necessárias. Esta definição só pode ser feita sobre o conjunto de idéias que, juntas, constituem nossa doutrina. Se fixarmo-nos apenas nos seus princípios éticos, ficaremos com uma doutrina piegas que propõe modelos arbitrários de conduta, sem uma justificativa filosófica, racional, para eles.

Uma análise dos seis princípios básicos que, tradicionalmente, diz-se que formam o alicerce sobre o qual o espiritismo se desenvolve ( existência de Deus, existência e imortalidade do espírito, evolução infinita, pluralidade das existências, pluralidade dos mundos habitados e comunicabilidade entre encarnados e desencarnados ) nos revela não serem eles originais. Isto é, o espiritismo não foi o primeiro sistema a falar sobre ou mesmo a praticar os fenômenos derivados destas idéias.

A grande contribuição da doutrina espírita foi ( como já foi dito ) ter formado, com estes conceitos, um todo coeso que nos mostrasse um modelo para a constituição e funcionamento do Universo. Este todo é, sim, novo, e forma a filosofia espírita, no que há de mais grandioso. Tentemos resumir esta filosofia.

O Universo é um conjunto orgânico e dinâmico, formado fundamentalmente por dois elementos principais: o espírito, definido como o princípio inteligente, e a matéria, elemento inerte ( do ponto de vista inteligente ), com o qual o espírito interage num processo de evolução contínua. Esta evolução se faz a partir de um estado de total ausência de complexidade e conhecimentos ( daí dizer-se que o espírito é criado simples e ignorante ) e estende-se infinitamente.

Este conjunto foi criado pelo Ser por excelência, que denominamos Deus, que é, assim, a causa primária ( eficiente ) deste todo universal. É infinito em todas as dimensões, sejam espaciais ou temporais, razão pela qual falamos que a evolução do espírito é infinita. Deus, contudo, não está sujeito a esta evolução, uma vez que deve ser perfeito. Não participa, pois, do Universo, tal qual este é constituído.

Este Universo sustenta-se, dinamicamente, através de leis que o dirigem. As leis específicas do elemento material são chamadas de leis físicas, e sua competência de estudo pertence às ciências de investigação da natureza. As do espírito denominam-se leis morais [23], e são tratadas pela filosofia, no ramo da ética. A investigação do espírito é feita pelas ciências humanas, cada uma com seu método próprio, e pela ciência espírita, através, principalmente, da mediunidade.

As relações entre os espíritos, encarnados ou desencarnados, são baseadas em critérios de afinidade, de ordem afetiva, intelectual ou de qualquer outra ordem. A sua evolução se dá em dois eixos: um referente ao conhecimento da verdade universal; outro, à postura perante aos demais espíritos e à lei natural. Por isso, dizemos que esta evolução é intelecto-moral.

Eis, portanto, as estruturas fundamentais do espiritismo, que formam seu pólo fixo, em referência ao qual se poderão fazer as mudanças:

Deus como causa eficiente do Universo, não sujeito às suas leis;
O Universo como um conjunto dinâmico, composto dualmente de matéria e espírito;
Matéria e espírito como elementos distintos e em constante interação;
A existência de leis específicas para a matéria e espírito, respectivamente, leis físicas e morais;
A evolução infinita, intelecto-moral, do espírito;
Conseqüências éticas e morais estabelecidas em função da filosofia espírita, e não de modo arbitrário.
A possibilidade de comunicação mediúnica entre espíritos encarnados e desencarnados, ou seja, a comunicação mediúnica.
Em se mantendo esta base, descrita de maneira mais extensa na introdução do Livro dos Espíritos, estaremos sempre falando de doutrina espírita. É interessante notar que temas como perispírito, fluido vital, etc. são simples acessórios, importantes, sem dúvida, mas não afetando a estrutura fundamental. E mesmo assuntos que fazem parte dos seis princípios básicos, como reencarnação e pluralidade dos mundos habitados, poderiam vir a ser remodelados e até eliminados sem que isto descaracterizasse o espiritismo como uma filosofia particularizada e própria. [24]

7. o comprometimento do espírita com as mudanças

Uma vez que fique claro para nós que deva haver mudanças na doutrina espírita, para evitar que ela torne-se completamente ultrapassada, uma última questão que se coloca é: quem deve efetivar tais mudanças?

O grande problema que o movimento espírita enfrenta hoje, nesta área, é que os órgãos de unificação, que, hierarquicamente, deveriam zelar pelo futuro do espiritismo, não estão preparados para assumir a necessidade ou mesmo a possibilidade de se atualizar a doutrina. Rigidamente estruturados, com o poder de decisão concentrado na mão de poucos, esses órgãos não conseguem ( e na verdade nem querem ) formar centros espíritas capazes de propor tal atualização.

Por outro lado, os centros espíritas reproduzem, em menor escala, a mesma estrutura. Amedrontados com o novo mundo de conhecimentos que seria descortinado com estas mudanças, seus dirigentes inibem o estudo mais profundo, coíbem a livre manifestação das mocidades espíritas e, com isso, conseguem manter o status quo, seja no campo político, seja no das idéias.

Ainda, outro problema que se apresenta é o comodismo dos participantes. Realmente, a maioria deles prefere manter-se apenas freqüentando palestras de cunho evangélico, que não comprometem sua estrutura mental ao exigir um pensar mais profundo e um posicionamento crítico sobre as coisas que se acredita e se pratica. Ao mesmo tempo, observa-se em alguns freqüentadores, que têm uma atividade intelectual intensa em sua profissão, uma tendência a separar, de modo incoerente, esta atividade daquela que exerce no centro espírita: encaram o centro como um lugar onde vão satisfazer uma necessidade mística. Separam, assim, em si mesmos, o ” místico ” do ” cientista “, não percebendo que o espiritismo não propõe esta dualidade em sua visão de mundo.

Ora, se o debate não partir dos próprios centros, os quais precisam passar por uma reformulação no que diz respeito aos seus métodos de trabalho e objetivos, nunca se formará uma massa crítica de pensadores espíritas capazes de não só realizar a atualização da doutrina espírita, mas também de colocá-la seriamente no rol das filosofias a serem estudadas.

O primeiro passo que os centros espíritas precisam dar é realizar uma ampla discussão interna sobre quais são os objetivos da doutrina e do próprio centro espírita. Se esta discussão for realmente imparcial, os centros descobrirão ( alguns com muita surpresa ) que Kardec reservava a eles a função de núcleos geradores do pensamento espírita. Nada contra uma possível atuação na área da promoção social, mas deve-se ter muito claro que o principal objetivo é o estudo e divulgação da doutrina espírita.

É imprescindível a criação de cursos básicos de doutrina espírita, que proporcionem aos não espíritas um entendimento correto dela, ainda que superficial. A definição de espaços onde os freqüentadores da casa possam aprofundar suas discussões e adquirir novos conhecimentos é, também, de fundamental importância. No campo da divulgação, as palestras públicas devem ser voltadas para temas doutrinários, de modo que incentive nos assistentes a vontade de participar dos cursos e dos grupos de estudos.

Mas, para tanto, é preciso que os dirigentes e coordenadores de cursos sejam pessoas muito bem preparadas. Na verdade, o aprimoramento dos recursos humanos é uma das principais falhas que existem dentro dos centros espíritas. Observa-se, com muita freqüência, oradores, coordenadores e dirigentes completamente despreparados para transmitir ao público os fundamentos da doutrina espírita, que dirá de aprofundá-los.

Quando tais idéias são expostas, muitos acusam-nas de elitistas, afirmando que o que se pretende é restringir o acesso do público ao espiritismo. Entretanto, normalmente, este argumento é usado para esconder o despreparo daqueles que, por sua função de dirigentes e monitores de cursos de espiritismo, representam o primeiro contato que o não espírita tem com a doutrina. Não se pode esquecer que estas pessoas estão colocadas na função de verdadeiros professores de cultura espírita e que, para transmiti-la, precisam primeiro possuí-la. E não se pode pretender possuir esta cultura espírita sem estar em constante processo de busca da verdade, um questionamento sem fim.

O que se vê no meio espírita são pessoas que, unicamente por serem médiuns ou por freqüentarem há muito tempo a casa espírita, são colocadas na função de palestrantes ou coordenadores de cursos. Ora, a mediunidade é uma potencialidade que deve ser bem aproveitada no centro, mas nada tem a ver com a transmissão de conhecimentos espíritas.

Para ser um palestrante, é necessário possuir a capacidade de, de modo claro e adequado ao público alvo, explanar bem as idéias doutrinárias. De nada adianta escalar um palestrante que, por incapacidade para falar em público, não consiga manter sua atenção. O principal objetivo da palestra, que é divulgar o espiritismo, não terá sido atingido. Da mesma forma, para ser um coordenador de cursos, é necessário conseguir transmitir os conhecimentos do programa, o que só se faz quando se tem uma boa didática. Do contrário, os participantes sairão com menos conhecimento que quando entraram. Ou, pior, sairão achando que entenderam a mensagem e que compreendem o espiritismo. O que, normalmente, não é verdade.

Uma vez criados os espaços necessários para os estudos, é função dos dirigente incentivar a participação dos membros da casa neles. É preciso que se entenda que não pode haver um trabalho produtivo no centro espírita, seja como médiuns, seja no atendimento às pessoas, nas transmissões energéticas, ou em qualquer outra área, sem que haja um constante aperfeiçoamento, tanto em termos teóricos como práticos. A exemplo do que acontece em qualquer profissão, um profissional que não se recicla é conduzido rapidamente à obsolescência, porque o conhecimento da área está em contínua evolução.

Agora, para que os centros colaborem como se deve para a evolução da ciência espírita, é necessário que sejam criados grupos de pesquisa sobre temas específicos. Estes grupos devem ser multidisciplinares, compostos de pessoas de certo nível cultural e que estejam bem informadas sobre as áreas específicas de seu interesse. Nestes grupos, a pesquisa deve ser muito profunda, comparando-se os avanços das demais áreas do conhecimento com os postulados espíritas.

Todavia, os resultados destas pesquisas não devem ficar restritos aos grupos de estudos. É fundamental que estes resultados sejam publicados, para que outros grupos tenham acesso a eles e possam contribuir com suas próprias idéias e pesquisas. Na verdade, o centro deveria prever uma verba anual para a publicação desses trabalhos, e sua divulgação deve ser a mais ampla possível.

Finalmente, quando da ocorrência de simpósios ou congressos, os membros do centro devem ser fortemente incentivados a participar, de modo que possam absorver as pesquisas realizadas por outros grupos, e, posteriormente, discutir essas pesquisas no próprio centro, refazendo-as, se necessário, para validar de modo pleno seus resultados. Isto, além de divulgar, nestes espaços, suas próprias pesquisas.

Tudo isto é resultado do comprometimento que os espíritas devem ter com sua própria doutrina. Não somente os dirigentes, não somente aqueles que gostam do estudo, mas todos aqueles que querem se dizer espíritas. Espiritismo é ciência e filosofia. Não se faz nem uma coisa nem outra sem esforço e comprometimento, em todos os níveis.

É isso. Ou o fim do espiritismo.

Referências Bibliográficas:

ABREU, Canuto. Bezerra de Menezes; subsídios para a história do espiritismo no Brasil até o ano de 1895. 5. ed. São Paulo: FEESP. 1996. 117 p.
DIAS, Krishnamurti C. O laço e o culto; é o espiritismo uma religião? 1. ed. Santos: Dicesp, 1985. 160 p.
HUBY, José. Christus; história das religiões. Vol. 1. São Paulo: Saraiva, 1956. 337 p.
KARDEC, Allan. Revista espírita. Vol. 2, ano 1859. Edicel, 414 p.
KARDEC, Allan. Revista espírita. Vol. 7, ano 1864. Edicel, 402 p.
KARDEC, Allan. Revista espírita. Vol. 11, ano 1868. Edicel, 398 p.
KARDEC, Allan. A Gênese; os milagres e as predições segundo o espiritismo. 17. ed. São Paulo: LAKE, 1994. 400 p.
KARDEC, Allan. Obras póstumas. 1. ed. São Paulo: LAKE, 1975. 326 p.
POPPER, Karl. Conjectures and refutations. Apud EPSTEIN, Isaac. Revoluções científicas. São Paulo: Ática, 1988. Ensaios 126. 144 p.
RÉGIS, Jaci. Método para a atualização do espiritismo. In Anais do III Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Santos, 1993.
[1] Allan KARDEC. Revista espírita, julho de 1859, p.195.
[2] Idem, A Gênese, p. 37.
[3] José HUBY. Christus – História das religiões. S.Paulo: Saraiva, 1956, p.21.
[4] Krishnamurti C. DIAS. O laço e o culto – É o espiritismo uma religião?. Santos: DICESP, 1985, p.55.
[5] Aurélio B. de Holanda FERREIRA, Novo dicionário de língua portuguesa.
[6] Allan KARDEC. O espiritismo é uma religião? Revista espírita, v. 11, dezembro 1868, p.357.
[7] Chamo de ridículas certas idéias que ainda se prendem a antigas concepções de punição ( como é o caso da lei de ação e reação sendo encarada como pena de Talião ) ou tentativas de ritualizar práticas nos centros espíritas ( por exemplo, impedir que o passe seja aplicado quando braços ou pernas estão cruzados, alegando que isso ” dispersa a energia ” ). Tais idéias e posicionamentos merecem um estudo mais aprofundado e detalhado, no que tange às suas origens, apresentação e refutação, o que não é o escopo deste trabalho.
[8] A ligação entre a postura religiosa e o imobilismo de idéias é, certamente, uma generalização. Entretanto, infelizmente, pode ser observada na quase totalidade dos espíritas ” místicos “. As raras exceções de espíritas que, apesar de defenderem uma posição religiosa para o espiritismo não permaneceram imóveis no campo das idéias ( a exemplo de Herculano Pires e Carlos Imbassahy, só para citar os mais conhecidos ) só confirmam a regra.
[9] Alguns pensadores espíritas entendem que o dogma na religião é uma criação eclesiástica, e que nada impede a existência de uma religião sem dogmas. Entretanto, como praticamente todas as religiões formais existentes no mundo possuem esta postura, a argumentação do texto permanece válida.
[10] Canuto ABREU, Bezerra de Menezes, p. 38 ( nota da editora ).
[11] Idem, ibidem, p. 39.
[12] Idem, ibidem, p. 42.
[13] Como este não é o objetivo do presente texto, deixarei este estudo para um trabalho futuro.
[14] Ainda aqui, falo de maneira geral. Existem algumas pessoas, infelizmente exceções, que nunca se negaram a discutir e, quando necessário, atualizar os conceitos. Entretanto, estes são uma minoria muito pequena, e, portanto, a análise continua, a contragosto, válida.
[15] Entendo por conceitos espúrios aqueles que, claramente, não pertencem ao corpo doutrinário do espiritismo e, além disso, quando for o caso, ainda não foram validados por qualquer outra forma de conhecimento científico. Exemplos ficam por conta dos misticismos esotéricos, dos chacras, da astrologia, etc. E mais, podem ser também consideradas espúrias práticas que, sem um fundamento teórico sério, vão frontalmente contra as recomendações de Kardec, como, por exemplo, sessões públicas de desobsessão.
[16]Allan KARDEC. Autoridade da doutrina espírita – Controle universal do ensino dos espíritos. Revista espírita, v. 7, p. 101, abril 1864.
[17]Idem, ibidem, p.101.
[18]Idem, Ibidem, p. 102.
[19] Entende-se por ciência orgânica aquela que, opondo-se à concepção mecanicista, encara o Universo como um todo indivisível, em que há uma sinergia entre suas partes constituintes. Deste modo, o modelo para esta concepção não é o de uma máquina, mas o de um organismo, onde problemas em um setor significam problemas para o organismo como um todo. É a ciência da era quântica.
[20]Allan KARDEC. Obras Póstumas. 1. Ed. S. Paulo: LAKE, 1975. Constituição do espiritismo . Dos cismas, p. 292.
[21]Jaci Régis. Método para a atualização do espiritismo. Anais do III Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Santos, 1993.
[22] Karl POPPER. Conjectures and refutations. Apud Isaac EPSTEIN. Revoluções científicas. S. Paulo: Ática, 1988. Ensaios 126, p.9.
[23] Possivelmente, o termo ” moral ” não é o melhor para definir a idéia que permeia este aspecto da doutrina, tanto em função da etimologia da palavra ( ligada ao latim moris, que significa os costumes de cada povo ), quanto pelo sentido que lhe é dado pela sociologia. Entretanto, esta discussão será tratada em outro trabalho, e, para manter a tradição do uso que lhe deu Kardec, optei por mantê-la neste texto.
[24] Isto porque estes princípios são conseqüências lógicas do modelo de Universo do espiritismo: se consideramos um Universo criado por Deus da maneira mais simples possível, composto por dois princípios – o espírito e a matéria – e sujeito a uma evolução infinita, como é possível realizar esta evolução em uma única encarnação e em um único planeta?