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Os Mistérios – Um Encontro de Época Romanceado

Fixei minha atenção na voz de tom mais agudo, daquele senhor de estatura baixa:

– …mas todos foram facilmente desmascarados por Richet, Geley, Schrenck-Notzing,
Harry Price.

Seu interlocutor não se exaltou:

– Isso só prova que ao lado do fenômeno falso, há o verdadeiro. Ao lado das fraudes
conscientes, há as fraudes inconscientes. Sua generalização é tola e imprudente.
Causa dó o teorista que pretende, ainda hoje, desconhecer tais fenômenos.

Ainda com os respingos da chuva e a respiração ofegante, eu não havia me desligado
completamente de minhas angustias. Estava sendo uma década apreensiva. Depois da
morte de Stalin na URSS e o cessar fogo na Coréia veio a revolução Cubana. A guerra
fria foi ganhando novos contornos e eu me voltara mais para as questões da política
internacional e de minha própria existência. Aquele encontro casual no cinema parecia
ter um sabor especial. Ouvia nomes pouco familiares mas que me levavam a memórias
distantes. Uma agradável sensação de prazer intelectual foi tomando conta de meu
ser.

– Você se esquece do livro As Fraudes do Médium Laszlo, certamente.

Ponderou o senhor baixo.

Apesar do tom aparentemente mais ríspido, o senhor calvo se mostrava sereno e
perguntou:

– Estou esperando você dizer da paixão de William Crookes pelo fantasma de Katie
King, ou será que o prof. Leonídio Ribeiro já lhe convenceu que a avassaladora paixão
foi por Florence Cook?

Nesse momento reconheci o outro interlocutor. Tratava-se de profissional de fama.
Médico que havia se celebrizado nas letras, por várias obras, umas de cunho científico,
outras de cunho filosófico. Pessoa que deixava atrás de si um rastro luminoso como
de certos meteoros quando sulcam o espaço. Aquele senhor de estatura baixa e voz
aguda era sem dúvida o Dr. Silva Mello. Havia ouvido falar de seu último livro “Mistérios
e Realidades deste e de outro Mundo”. Eram seiscentas páginas onde ele tentava provar
que algo não existia. Não me recordava ao certo.

O senhor de voz aguda parecia pensar, quando seu interlocutor continuou:

– Eu não conseguiria enumerar todos seus equívocos. Você é um contador de anedotas.

Pareceu-me duro demais, porém necessário.

– Então devo eu acreditar que um elefante pode voar?

Questionou o senhor de tom agudo.

– Voar, no sentido de criar asas, concordamos na impossibilidade. Mas o acumulo
de forças fluídicas em determinadas condições que levem o elefante ao ar sim, isto
é possível. E o fenômeno da levitação explica o fato.

– E quem diz isso é o Mirabelli!

Afirmou categoricamente com seu tom agudo característico.

– É Lombroso, em companhia de Bianchi, Tamburini, Vizioli, Ascensi…

Depois de rápido silêncio, que me pareceu pausa para reflexão, continuou:

– Bom… Ao menos desta vez você não citou Crookes.

– Então, não lhe dei oportunidade de se resignar a encarar Crookes como um imbecil,
o que seria mais imbecil ainda.

Ficara evidente que tratavam-se de dois homens de letra. Este que por último
se pronunciara causava excelente impressão. Demonstrava conhecimento profundo daquilo
que falava. Se expressava com autoridade e levava sobre seu adversário a vantagem
do estilo, de uma ironia, talvez a pior para o protagonista, porque é aquela que
faz rir, e o riso do ouvinte, atuando como um pé de vento, põe embaixo, com uma
só rajada, o volumoso castelo de ilusões que o outro havia armado com tanto jeito.

– Tenho também meus pontos convergentes.

Afirmou o senhor de estatura baixa.

– ???

– Richet não aceitava a levitação, eu também não aceito. Logo, não mereço a má
vontade dos espíritas.

Me lembro de ter acompanhado sem muito interesse esta polêmica pela revista O
Cruzeiro do ano passado. O Dr. Silva Mello teve enorme destaque com fotos muito
bem produzidas e espaço suficiente para defender suas teses e atacar todos que lhe
eram contrários. Seu trabalho social foi enaltecido. Me lembro apenas ter me chamado
a atenção que esta figura ilustre havia declarado à revista que fizera tratamento
psicanalítico na Europa e não havia conseguido se livrar das muitas histórias de
assombração que teria ouvido em sua infância. Ora, num pais de crendices como o
nosso, estas histórias são perfeitamente naturais. O que não vejo com naturalidade
é um médico, depois de tratamento psicanalítico, não ter se livrado de seu trauma
de meninice.

– Isto por desconhecer a carta que Richet escreveu a Ernesto Bozzano, no final
de suas experiências e no final de sua vida, onde esposou a hipótese espírita.

O senhor de tom agudo demonstrava inquietação, enquanto seu interlocutor continuou:

– E ainda aguardo argumentação a respeito da opinião de Richet e Crookes sobre
a materialização que Richet batizou de ectoplasmia.

– Falsas suposições e errôneas interpretações.

Argumentou sem muita convicção.

– Foi fato experimentalmente verificado. Para se admitir um fenômeno científico
como demonstrado é preciso ser tão severo com as provas quanto se tratasse de condenar
um homem à morte.

Neste momento me lembrei de outra polêmica, e esta havia acompanhado junto com
minha esposa, onde o padre Álvaro Negromonte nesta mesma década escrevera o livro
“O que é o Espiritismo”. Ele dizia que “nós sabemos que estas manifestações só podem
ser o demônio…” Mesmo sem ter conhecimento do assunto achei explicação deveras
simplista para pessoa inteligente, teóloga e que, pela sua condição de padre, não
podia deixar de ter estudos de filosofia. E, de tanto minha mulher ouvir a rádio
Progresso de São Paulo, sempre as 20:00horas o programa Hora Espiritualista, terminei
por me voltar um pouco à estas questões.

– Sem sustentação filosófica. O que faço em minha biopsicologia, sustentado por
Max Dessoir.

Propagandeou o Dr. Silva Mello.

– Isto se Schopenhauer não tivesse escrito As Ciências Ocultas. Se a clarividência
não confirmasse a doutrina kantiana da idealidade do espaço, do tempo e da causalidade…
Se a vontade não fosse a “coisa em si”, sugerida por Locke, examinada por Kant,
mas solucionada pela filosofia de Schopenhauer.

O senhor calvo pouco respirou para continuar:

– Lembre-se sempre de Emmanuel Kant: “Age de tal modo que as máximas de tua vontade
possam sempre, ao mesmo tempo, servir como princípio de uma legislação universal”.

Este encontro me trouxe reminiscências de notícias em jornais. Vinha eu de familia
militar e não pude deixar de observar que há exatos 4 anos atrás acontecera a Cruzada
dos Militares Espíritas de Florianópolis, em Santa Catarina. Ali estiveram presentes
durante 4 dias representantes de inúmeras ordens religiosas de todo o pais e do
exterior onde meu pai, se vivo, gostaria de estar presente. Me questionava sempre
porque corriam processos contra Espíritas como Chico Xavier por causa de direitos
autorais. Ali no cinema me senti absorto em pensamentos aos quais não conseguia
ter controle algum. Ouvia meus interlocutores mas me sentia distante e como sendo
levado a compreender coisas que para mim, até aquele momento, pareciam sobrenaturais
e sem grande interesse. Quando, depois de vários problemas técnicos o filme foi
suspenso e o gerente prometia devolver o dinheiro dos poucos presentes me aprofundei
em meus pensamentos e perdi de vista os dois cavalheiros que propiciaram aquelas
minhas ponderações.

Não me inquieto por não lembrar o nome do filme, como não me incomodei com a
garoa fina daquela noite, à saída do cinema. Sentia-me com enorme apetite intelectual
e, como se houvesse sido desperto para algo muito além de mim. Caminhei demoradamente
pelas ruas, aguardando a autorização do relógio para que fossem abertas as primeiras
livrarias do dia seguinte. E lá, na primeira que encontrasse, procuraria o livro
de Sergio Valle “Silva Mello e os seus Mistérios”, editado pela LAKE, naquele ano
de 1959.

(Publicado no Boletim GEAE Número 472 de 16 de março de 2004)

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