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A Pessoa Mimada

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Enéas Canhadas

O ser humano mimado é um dependente de Deus. A afirmação é forte, mas não deixa de ser verdadeira. O problema não está na dependência de Deus, uma vez que fomos feitos livres, ainda que simples e ignorantes no início de tudo, mas com o livre arbítrio e a capacidade de discernimento. A inteligência é discernimento. Se não houver discernimento, não haverá nenhum tipo de inteligência. Portanto, podemos concluir que possuir o livre arbítrio e ser inteligente são sinônimos. No sentido literal, se Deus nos fez livres não somos dependentes na medida em que disto resultaria sermos fantoches e em tudo atribuirmos a Deus a culpa ou responsabilidade, como muitas vezes ouvimos dizer. A nossa cultura religiosa, em geral, nos ensina um Deus que nos atrela ao Seu jugo e nos tornamos criaturas pobres de Deus, por não cumprirmos o nosso destino de seus filhos capazes de construir o seu destino.

O ponto que merece maior reflexão na afirmativa inicial é a dependência. Esta é uma doença das boas, e na verdade, passamos grande parte da nossa encarnação para nos livrarmos, um pouquinho, da condição de dependentes, isto se o conseguirmos de fato. Vale lembrar também da origem da palavra “dependente” que vem do Latim: dependere que significa “pender de”, “estar dependurado, estar sujeito”. Por isso, provérbios como “o mimo desensina”, “o muito mimo perde os filhos”, “uns se querem com medo, outros com mimos, outros com rigor”, “o cão e o menino vão para onde lhe fazem miminho”, são afirmações verdadeiras que nos alertam.

A pessoa mimada está, antes de tudo, preocupada consigo mesma. Não basta condená-la com o rótulo de egoísta. O problema é que ela nasceu mais egoísta do que muitas outras. Como temos o dever de enxergar mais longe, o Espírito ainda é egoísta. Caetano Veloso nos lembra muito bem que “Narciso acha feio tudo que não é espelho”, referindo-se ao mito grego de Narciso que, ao contemplar a sua própria imagem na água, apaixonou-se por si mesmo. É um comportamento auto centrado, como se o mundo dependesse dele para funcionar, para existir e o raciocínio natural dessa pessoa será pensar que o mundo deve modificar-se para aceitá-lo, atendê-lo e servi-lo, e não que ela deva modificar-se para adaptar-se e aprender a viver no mundo como ele é. Alfred Adler, eminente Psiquiatra nascido na Áustria (1870-1937), afirma que a pessoa mimada não está tão ligada ao conforto material como se pode pensar, mas apresenta uma personalidade que não abre mão do amparo e proteção externos que possam estar a seu interesse, que não aceita responsabilidades profundas e tem um medo permanente de situações de prova, por isso está sempre “se arranjando” – a afirmação é intencionalmente maldosa – visando encobrir os dilemas pessoais que a pessoa vive. Assim pensando, podemos dizer que nós mesmos é que criamos as nossas chamadas neuroses. Convém esclarecer, no entanto, que na ótica Espírita, significa que as dificuldades emocionais que sofremos vem de nossas experiências passadas mal compreendidas, e muitas vezes, sequer refletidas por nós mesmos, uma vez que estamos em permanente evolução e em vidas pregressas éramos mais rústicos do que somos na existência atual. A compreensão espírita nos ensina também que não somos vítimas do nosso inconsciente, uma vez que, como Espíritos, possuímos uma história única, e que está inconsciente enquanto residimos neste plano.

Os tímidos podem muito bem esconder uma agressividade que se encontra latente. Por alguma razão, talvez para se defender ele esconde-se numa espécie de casulo, psiquicamente fechado, que não o deixa ter um contato normal com o meio social. É quando dizemos que a pessoa não gosta ou não quer se expor, isto é, deixar que os outros a vejam como é, assumindo os riscos de ser aprovada ou criticada. O mimo, acaba sendo uma conquista do tímido ou do inibido, pois, o egoísta que se faz tímido e recolhido em si mesmo, gera um esforço das pessoas para virem em seu auxílio, com cuidados, atenções e ajudas, as mais diferentes. Dessa forma, o egoísta acaba sendo uma pessoa passiva que assiste os outros cuidando e se preocupando com ela.

É uma situação emocionalmente doentia que faz a pessoa sentir-se abandonada, fechada em si mesma, com sintomas de sentimentos de inferioridade ou incapacidade. Diante de tal quadro, o seu protesto é silencioso, tornando difícil o contato com as pessoas e mais ainda, cria dificuldades para a pessoa relacionar-se através de amizades. Quando acontecem, as trocas relacionais são muito pobres, pois a pessoa tímida acredita que viver no mundo, é apenas esperar e receber. Doar-se ou compartilhar causa até mesmo pânico e sofrimento muito intenso.

É por isso que os apelos sociais do meio ambiente, através de seus diferentes grupos de socialização, acabam prestando um grande e útil serviço aos tímidos. Se você, que está lendo este artigo, considera-se tímido, acha que as pessoas ao seu redor são chatas porque vivem convidando para este ou aquele passeio querendo tirar você do seu recolhimento, entenda que é o caminho para a sua transformação. O que acontece, por enquanto, é que qualquer movimento no sentido de relacionar-se socialmente deixará à mostra suas vulnerabilidades, e é disso que você tem medo.

É preciso travar uma imensa batalha para obter satisfação, desde que esta, venha da convivência e não apenas de ser servido ou tornar-se o centro das atenções. Quem não gostaria que as suas expectativas fossem sempre atendidas? Deixar de ser tímido ou egoísta é aprender que isso é bom mas nem sempre vai acontecer, pelo menos, não do jeito que você pensa, deseja ou imagina.

Eliminar os nossos “mimos”, numa linguagem à luz da doutrina Espírita, é evoluir. Você conseguiria imaginar um mentor mimado? Como você poderia contar com ele? Como iria comunicar-se com ele? Pensar que os nossos desejos sempre se tornarão realidade é fantasia. E o jeito de não deixar a fantasia tomar conta da nossa mente, é enfrentar a realidade com coragem. Se não temos coragem, damos lugar às fantasias e nos tornamos infantilizados e estagnados na questão pessoal. A nossa evolução fica, temporariamente, paralisada. A maturidade afetiva jamais virá da posse, ciúmes ou dependência, mas tão somente da auto imagem positiva que temos de nosso potencial emocional, sendo a certeza de sermos “interessantes”. É por isso que se recomenda aos depressivos e também aos mimados ou tímidos a ajuda do voluntariado, da solidariedade social visando ajudar as pessoas. Esta prática põe em exame a nossa miséria afetiva, e o quanto precisamos crescer com a prática da convivência para nos desenvolvermos e sermos melhores.

A energia que depositamos em nosso narcisismo, daria para erradicar por completo, deste planeta, a solidão e os sentimentos de isolamento. A pessoa “mimada”, com o sentimento de total dependência, vivendo constantemente defendida contra a sensação constante de ser contrariada, trará certamente tristeza, depressão, e mesmo uma tendência ao misticismo e ao mágico, por achar que sempre os outros poderão solucionar suas dificuldades e que, alguém ou algo, acontecerá para o nosso bem e a nosso favor.

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