Tamanho
do Texto

Por que as crianças se suicidam?

Por que as crianças se suicidam?

Sumariando de forma muito imperfeita o assunto poderíamos dizer que a
pesquisa clássica publicada sobre o assunto tinha uma casuística de 378 criança
húngaras e para examinar como as crianças conceituam e lidam com a morte nas
várias idades. Interpretava as idéias de morte expressas pelas crianças através
de palavras ou desenhos. O autor encontrou evidências para a existência de três
etapas diversas. Até 5 anos, não há noção de morte definitiva, a criança não
reconhece que a morte envolve total cessação da vida e não compreende a não
reversibilidade da morte. A segunda (entre 5 e 9 anos), caracteriza-se por uma
forte tendência a personificar a morte. É compreendida como irreversível, porém
não como Inevitável. Somente na terceira etapa (9 e 10 anos), a criança
reconhece a morte como cessação elas atividades do corpo e como
inevitável. E, somente na adolescência, estes são verdadeiramente capazes de
apreenderem o conceito de morte bem como o significado da vida.

Trabalhos posteriores trouxeram novas divisões segundo a faixa etária e um
autor de língua inglesa coloca crianças entre 9 e 10 anos numa terceira fase,
onde a morte é definitiva, mas a morte funciona biologicamente, acreditando que
podem ver, ouvir ou sentir. Na quarta categoria (entre 6 e 12 anos), a morte é
definitiva e implica a cessação de todas as funções biológicas; as crianças
classificadas nesta categoria expressam conceitos realistas sobre a morte.
Assim, é possível entre 5 e 12 anos perceber a morte como final e irreversível.

Muito interessante as conclusões de Gessei e colaboradores que descrevem as
crianças de 10 anos como mais positivas e práticas na abordagem da morte. Sabem
que depois da morte, com o tempo, o corpo se desintegra ou se mumifica,
mas não dedicam maior reflexão a este assunto. Aos 11 anos “teorizam”
sobre o que sucede depois
da morte. Aos 12 anos revelam preocupação
sobre a natureza da outra vida. Aos 13 anos a especulação cresce, mas a
sua morte é vista como distante de um futuro imediato. Aos 14 anos, unia das
tendências mais fortes é a de assinalar a inevitabilidade da morte, o que,
entretanto, é acompanhada de uma aceitação positiva; nesta fase a vida é mais
importante que a morte e as crianças revelam o desejo de viver uma vida
plena antes de morrer.

Noutro trabalho, de não menos importância, realizado com crianças inglesas
podem identificar-se5 (cinco) categorias para o significado da morte. O nível
mais baixo, categoria A – revela ignorância completa, B – algum grau de
compreensão, C – compreensão (define morto como negação de vivo), D –
compreensão dos aspectos mais abstratos, E (nível mais alto) – compreensão dos
aspectos lógicos ou biológicos da morte. A idade de 7 e 8 anos aparece, nessa
investigação, como um marco de mudança (categoria C). A idade média das crianças
na categoria B foi de 5 anos e meio, e, a assimilação completa (nível E) só
surgiu em torno dos 12 anos.

Piaget considera que a partir do momento em que a criança se torna consciente
da diferença entre vida e morte, a idéia de morte incentiva a curiosidade da
criança, pois, se tudo é acasalado a um motivo, a morte exige uma explicação
especial. Sylvia Anthony, aprofundando as considerações de Piaget, assevera que
ao estabelecer a relação entre morte e Humanidade como uma categoria na qual ela
própria está logicamente Incluída, atinge o máximo de desenvolvimento.

No Brasil, Rio de Janeiro, a Psicóloga Wilma Torres e colaboradores
examinaram 183 crianças entre 4 e 13 anos de idade e seus resultados pare- cem
confirmar e ampliar os de pesquisadores estrangeiros. Permitiram, seus
resultados, identificar três níveis do conceito de morte descritivos do
pensamento das crianças dos diferentes períodos de desenvolvimento cognitivo. No
nível 1, característico do subperíodo pré-operacional, atribuem vida ao morto.
No nível 2, característico do sub-período operacional concreto, já compreendem a
morte como definitiva e no nível 3, característico do período formal, reconhecem
a morte como processo interno, implicando a cessação da vida do corpo.

É pertinente relembrar que as crianças urbanas de nível sócio-econômico mais
baixo adquirem conhecimentos conceituais acerca da morte mais rapidamente do que
as da classe média.

Gostaríamos de perguntar se esta mesma criança é a que procura o suicídio.
Quais as causas? Talvez aqui devêssemos procurar um Professor Titular de
Pediatria de uma Faculdade de Medicina, no Brasil. O “Jornal de Pediatria”, em
seu volume 43 em 1977, publicou trabalho do Professor Samuel Schvartsman. Na sua
casuística e métodos observamos que foram estudados 21 casos de tentativas de
suicídio em crianças de 9 a 14 anos de idade, por ingestão de produtos químicos.
Após o atendimento médico eram feitos um estudo das condições e circunstâncias
sócio-familiares do paciente, que pudessem estar relacionadas direta ou
indiretamente com o evento, e uma análise dos fatores que pudessem permitir a
distinção entre a encenação suicida e a verdadeira tentativa de suicídio. Este
trabalho se reveste de grande importância para diversos profissionais uma vez
que as tentativas de suicídio representam atualmente urna situação preocupante
nas estatísticas de morbidade e mortalidade. Nos Estados Unidos – cita como
exemplo o pediatra de São Paulo – o suicídio é considerado como a 4a
causa mais freqüente de óbitos entre os adolescentes.

O trabalho brasileiro examina os principais dados relativos ao paciente e
suas condições sócio-familiares: nome, idade, sexo, cor, maturidade, local do
acidente, escolaridade, profissão do pai e da mãe, número de irmãos, tentativas
anteriores, comunicação do intento, comunicação com outros, planejamento,
objetivo primordial, ambiente reativo, repetição se possível, perfil psicológico
e religião.

Vamos começar pelo fim apenas porque no trabalho original o autor não o
discute. Foram encontradas 9 crianças católicas, 2 adventistas, 2 crentes e em 8
oportunidades não se pôde determinar a religião. Estes resultados estão em
aparente contradição aos referidos anteriormente onde discutimos a prevalência
maior entre os protestantes, embora aqueles dados tenham sido retirados de casos
de suicídio entre adultos. Por outro lado merece investigação o fato de em 8
oportunidades não ter sido possível definir a religião do paciente ou de seu
grupo familiar, uma vez que os sociólogos afirmam que tanto mais a comunidade
religiosa está fortemente integrada, tanto mais, também, está dotada de virtude
preservadora.

O perfil psicológico das crianças revela na grande maioria – INSEGURANÇA. O
objetivo primordial – a MORTE. A maioria repetiria a tentativa, embora esta não
tenha sido planejada. Não comunicaram o intento, o ambiente não era reativo, não
houve tentativas anteriores e o local principal foi o quarto. Dentre os fatores
sócio-familiares relacionados de algum modo com a tentativa e as circunstâncias
que poderiam ser consideradas como precipitantes, destacam-se o alcoolismo dos
pais em 6 oportunidades, o seu mau relacionamento em 5 e sua ausência em 3. A
circunstância mais relacionada como precipitante foi a desavença familiar. Os
autores discutem a infreqüência de suicídios em crianças com menos de 14 anos de
idade em outras localidades, achando de difícil explicação o fato de 19 (90,5%)
das crianças em São Paulo estarem entre 9 e 12 anos. Admitem os pesquisadores
brasileiros que a intensidade e persistência de condições sócio-familiares
desfavoráveis geraram uma precocidade do amadurecimento no sentido depressivo ou
da necessidade de atenção ou afeto. Na amostragem cerca de 62% das mães (13
casos) tinham atividades profissionais diurnas fora de casa e, usualmente, seus
filhos menores ficavam apenas sob vigilância do mais velho. Ressaltam os autores
que existe a possibilidade de amostragem falseada, uma vez que em famílias de
nível sócio-econômico superior estes casos são geralmente, e na medida do
possível, pouco divulgados ou diagnosticados de maneira confusa ou inadequada.
Ao contrário do que pudemos observar em adultos, em outros trabalhos, houve
preponderância do sexo feminino. Aqui merece atenção a observação de que se
precocemente reconhecidos pela família ou diagnosticados pelo pediatra é
possível alterar evidentemente a seqüência de eventos. São os seguintes: tédio,
inquietude, fadiga, preocupação corporal, dificuldades de concentração,
dificuldades escolares e comportamento agressivo. Conclusão que parece
discutível é a do fato de a criança não procurar a morte como diz fazê-lo. O que
se reflete na dificuldade em definir ou caracterizá-la, o que não ocorreria com
o adulto.

Como tentativas de suicídio são relacionadas a certos tipos de estruturas
familiares e condições ambientais, que, em geral os pais ou parentes são hostis
à criança ou entre si, sua finalidade seria a modificação destas situações. O
suicida visa não apenas recuperar o objeto perdido, como recuperar o afeto e a
atenção das pessoas significativas de seu meio ambiente. A procura de afeto é
também, de certa forma, enfatizada pela freqüência relativamente pequena de
tentativas de suicídio no filho único, possivelmente porque a capacidade afetiva
dos pais seja suficientemente grande para compensar outras dificuldades. Dos
casos estudados pelos autores brasileiros apenas um era filho único, enquanto 14
tinham de 4 a 8 irmãos.

O espiritista não pode ficar indiferente a essa problemática. No momento em
que temos uma Campanha Permanente de Evangelização Espírita Infanto-Juvenil é
necessário que debates sobre problemas diversos da criança sejam realizados de
forma a que possamos melhor adequar essa atividade pedagógica. Muito se poderá
fazer, entretanto, nessa hora de decisão “é impraticável” o aprimoramento das
almas sem educação, e educação exige legiões de cooperadores. Esquecer a
infância e a juventude será desprezar o futuro”. É por isso que Bezerra de
Menezes (“Reformador” – junho/1978) afirma que “ninguém pode empreender tarefas
nobilitantes, com as vistas voltadas para a Era Melhor da Humanidade, sem
vigoroso empenho de educação evangélica da criança”. E Francisco Spineli, no
livro “Crestomatia da Imortalidade”, assevera que a criança ainda é o sorriso do
futuro na face do presente. Evangelizá-la é, pois, espiritualizar o porvir,
legando-lhe a lição clara e pura do ensinamento cristão, a fim de que,
verdadeiramente, viva o Cristo nas gerações de amanhã. Evangelizá-la de modo que
a sua fé, a fé raciocinada, possa apoiar-se nos fatos e na lógica, sem deixar
nenhuma obscuridade. Só dessa forma a criatura terá certeza. E ninguém terá
certeza se não atingir, pelo menos, o 2.0 nível da taxonomia dos objetivos
educacionais segundo Bloom. Porque “a fé necessita de uma base, base que é a
Inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E para crer não basta ver, é
preciso, sobretudo compreender”. Os estudos realizados, pelos pesquisadores das
causas do suicídio adulto e infantil, revelam a propriedade e atualidade das
palavras de Marta da Anunciação (Depoimentos Vivos):

“Acima de todas as coisas, o amor que observa e corrige, que acompanha e
educa, que disciplina e consola, porquanto, sem dúvida alguma, não há método
pedagógico de educação melhor do que o AMOR honrado, constante e firme.”

Textos correlatos podem ser encontrados em artigos do NEURJ

Referencias Bibliográficas

  1. Evangelização. Apostila do Departamento de Infância. Federação
    Espírita do Estado do Rio de Janeiro, RJ, 1979.
  2. Kardec, A. O Livro dos Espíritos, 54a ed. FEB, RJ, 1981.
  3. Kardec, A. O Livro dos Médiuns, 44a, ed. FEB, RJ, 1981.
  4. Kardec, A. Obras Póstumas, 18a ed. FEB, RJ, 1981.
  5. Kardec, A. O Evangelho segundo o Espiritismo, 82a ed.
    FEB, RJ, 1981.
  6. Kardec, A. O Céu e o Inferno, 26a ed. FEB, RJ, 1979.
  7. Schwartsmam, S.; Fonseca, M.E.Q.; Manissadjian, A. & Unti, M. Aspectos
    médico-sociais das tentativas de suicídio de crianças por ingestão de produtos
    químicos
    , J. Ped., 43: 152-156, 1977.
  8. Suicídio – uma doença social de muitas causas. O Globo,
    12-5-1979.
  9. Mundim, P. O Modelo Terapéutico psiquiátrico-Espírita, Reformador,
    1.822 (janeiro): 16-21, 1981
  10. Torres, W.C. O tema da morte na psicologia lnfantil: uma revisão da
    literatura
    ,Arq. Bras. Psic., 32: 59-71, 1980. (Tese de Mestrado)
  11. Vieira, W. Conduta Espírita, pelo Espírito André Luiz, 8a
    ed. FEB, RJ, 1981.
  12. Xavier, F. C. Vinha de Luz, pelo Espírito Emmanuel, 6a
    ed. FEB, RJ, 1981.

Reformador, 99(1833): 387-392, dezembro, 1981
Republicado no Jornal espírita (SP), novembro, 1984,
com o título: por que as crianças se suicidam?