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Pugnas, inúteis pugnas!

Humberto de Campos(2) conta-nos a história de um
livre pensador chamado Raimundo de Anunciação, que não se furtava ao vício
das discussões sem proveito definido
. Polemista contumaz, transformou-se em
um espinheiro vivo, atormentando a Vida de todos à sua volta, mais parecendo uma
pilha humana em permanente irritação contra tudo que não se enquadrasse em sua
“cartilha” pessoal.

Provocador e intolerante, não perdia oportunidade para “açoitar” as pessoas
com palavras contundentes e ferinas; enxergava o mundo com a lente desfocada de
soez incompreensão, matizada por inflamada ira.

Por mais que algum companheiro sensato lhe chamasse a atenção, não conseguia
demovê-lo do ponto de vista onde se acastelara numa superlativa rebeldia, não se
oferecia nunca o esforço de maiores exames.

Nem mesmo sua mãezinha, já às portas da morte, logrou modificar o caráter do
filho, baldados foram os conselhos.

Finalmente, guindado pela morte, Raimundo aporta no Mundo Maior. O Mentor
espiritual encarregado de recebê-lo, após exame minucioso das cópias das
anotações de seu “dossiê”, maneou a cabeça e comunicou-lhe que, das 464.000
horas que viveu na Terra, sobraram apenas 200.000 horas que ele empregara em
discussões improdutivas, porque as demais foram gastas em sono, trabalho
profissional, passeios, repouso e distrações.

Nosso amigo ainda tentou argumentar uma réplica com o Benfeitor, mas, frente
aos fatos apresentados, não teve outra alternativa senão render-se à triste
evidência: perdera oportunidade de progresso naquela reencarnação recém finda,
empregando em arengas inúteis o tempo destinado à elevação espiritual.

Por dez anos consecutivos entrou em vastas meditações da Verdade e da Vida,
sempre auxiliado pelos bondosos Benfeitores Espirituais, findos os quais,
suplicou nova experiência somática na Terra. E, para não faltar desastrosamente
como antes, solicitou o seguinte aos Amigos Espirituais:

Desejo ser mudoentre os meus adversários de outros
tempos.”

Muito bem – exclamou o Mentor -, é a tarefa compatível com as suas
necessidades atuais. Você nascerá mudo e com ótimos ouvidos, porque,
segundo sua ficha de tempo, não lhe será possível entregar-se a qualquer
realização mais elevada, enquanto não permanecer em silêncio por 200.000 horas,
escutando para entender, e impossibilitado de falar coisa alguma”.

Fica fácil, agora, entender uma dedução lógica: Pelo enorme contingente de
criaturas belicosas, despóticas e discutidoras que existe atualmente, pode-se,
sem margem a equívocos, fazer uma previsão de uma larga safra de bebês nascendo
mudos daqui a algum tempo!

Para evitar tal hecatombe eminente, Marcelo Ribeiro(1)
dá-nos um alerta, em uma belíssima página intitulada:

COMBATE INTRANSFERÍVEL

O despotismo que cerceia a liberdade faz-se algoz de si mesmo. Em
conseqüência, o dominador arbitrário torna-se dominado pelas paixões e
circunstâncias que o envolvem.

Somente a fraternidade que flui do amor compreendido consegue doar liberdade,
ensejando um clima de respeito e compreensão que promove o progresso entre os
homens.

A intolerância, que impõe códigos de comportamento e limita o direito de
pensar e agir, comete desmandos e exageros, sendo vencida por força equivalente,
na justa das ambições desmedidas.

Apenas a solidariedade, mediante o auxílio mútuo, constrói valores de
excelente qualidade, que fomentam o enriquecimento moral e social, propiciando
paz.

O Sol brilha para todos. Tudo e todos têm direito à Vida.

O que pode ser muito bom para uns, quiçá não seja o melhor para outros.

De muito bom alvitre que se faça uma aferição de valores entre o que se sabe
e o que os outros sabem, o que se conhece e é pelos demais conhecido, o que lhe
é útil e para muitos desnecessário, a fim de se ter uma idéia realista das
opiniões e conceitos, coisas e pessoas.

Os homens estagiam, pelo próprio processo de evolução pessoal, em degraus e
escalas, sendo necessário compreendê-los onde se encontram e conforme são.

Aqueles que possuímos uma mensagem de renovação e esperança para dar,
devemos, melhor do que outros, compreender que o nosso labor se baseia no
perfeito equilíbrio em prol de uma divulgação lavrada na simpatia e na
gentileza.

Não nos propomos combater as demais pessoas ou as suas idéias, ou a sua forma
de ser. Antes, nos candidatamos a expor os nossos temas, aqueles que nos
felicitam, interessando, os que nos ouvem e veem a examinar as nossas
informações, optando pelo que lhes pareça melhor.

Pugnadores da Verdade, sabemos que ela não se contém, total, no nosso enfoque
de como considerar a Vida, reconhecendo que, talvez, a nossa, seja uma visão
melhor e mais clara, de modo a resolver inúmeros problemas que aturdem a
Humanidade.

Exercitando-a, ampliamos a capacidade de entendê-la, facultando-lhe o
crescimento em nós, e crescendo com ela.

Assim considerando, recordemos que numa discussão sempre se podem encontrar
três colocações sobre a Verdade: a de um como de outro litigante, que são sempre
pessoais, e aquela que paira acima dos indivíduos, a legítima e transcendental,
que examina fatores ignorados, causas desconhecidas e motivadoras da ocorrência
em pauta.

É urgente que estejamos conscientes da obra a realizar em nós mesmos,
primeiro, como combate intransferível e imediato, a fim de irmos adiante.

O próprio Jesus, que conhecia a verdade, jamais a impôs, nunca entrou em
lutas verbalistas injustificáveis, não se deteve a combater contra.

O seu, foi o combate a favor do bem de todos, com amor, sem despotismo, nem
intolerância, ou exigência, ensinando o amor e amando com esperança no êxito
final.”

Allan Kardec, talvez prevendo que os arraiais espiritistas não estavam
infensos a essas ocorrências, inseriu em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”
uma página de um Espírito que se deu a conhecer simplesmente por Luis(3):

“Desconfiai dos que pretendem Ter o monopólio da Verdade!…

Não, não, o Cristo não está entre esses, porquanto os que Ele envia para
propagar a Sua santa doutrina e regenerar o Seu povo serão, acima de tudo,
seguindo-Lhe o exemplo, brandos e humildes de coração; os que hajam, com os
conselhos e exemplos que prodigalizem, de salvar a Humanidade, que corre para a
perdição, serão essencialmente modestos e humildes.

Ide, portanto, meus filhos bem-amados, caminhai sem tergiversações, sem
pensamentos ocultos, na rota bendita que tomastes.

Vós que haveis bem desempenhado a tarefa que o Criador confia às suas
criaturas, nada mais tendes de temer da Sua justiça.”

Conduzamo-nos, pois, com sabedoria, ensinado com eficiência nas águas mansas
da tolerância incondicional.

1 – Marcelo Ribeiro/Franco, D.P. in “Terapêutica de Emergência” – Capítulo 43

2 – Humberto de Campos/Xavier, F.C. in “Reportagens do Além Túmulo” –
Capítulo 8

3 – Kardec, A in “O Evangelho Segundo o Espiritismo” – Capítulo XXI, item 8,
§ 3º e seguintes.

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1998)

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