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Revisão da terminologia espírita?

Silvio Seno Chibeni

Neste artigo analisa-se criticamente a proposta de revisão de certos termos utilizados em Espiritismo, que alguns alegam ser necessária para a “modernização” da doutrina ou para sua “adaptação” ao progresso da ciência. [1]

Questão:

Algumas pessoas alegam que é necessário atualizar os termos técnicos utilizados no Espiritismo. Para elas o uso de termos como ‘fluidos’, ‘mediunidade’, etc. prejudica a posição científica do Espiritismo. Há alguma fundamentação, em filosofia da ciência, para essas criticas? Sendo uma ciência independente, dedicada ao estudo de fenômenos que escapam ao escopo das ciências clássicas, o Espiritismo não teria a liberdade de definir seus próprios termos? Historicamente, o Espiritismo precede à metapsíquica e à parapsicologia, sendo também anterior às novas concepções de matéria e energia da física atual. Isso não lhe daria a posição de pioneiro no estudo e definição dos fenômenos espíritas, cabendo-lhe o direito de estabelecer sua própria nomenclatura?

Resposta:

As considerações sobre a natureza da linguagem apresentadas no primeiro artigo desta série já forneceram o essencial para esclarecer o presente problema. Igualmente, as afirmações corretas implícitas nas próprias interrogações do final da questão tornam a resposta quase desnecessária. Todavia, gostaria de acrescentar algo em sentido explícito.

De fato, propostas de revisão do vocabulário técnico do Espiritismo são bastante comuns hoje, especialmente por parte de pessoas com alguma familiaridade com disciplinas acadêmicas. Os termos mencionados como exemplo parecem, em particular, causar-lhes certo incômodo, sendo freqüentemente substituídos por palavras como ‘energia’ e ‘paranormalidade’, ‘sensibilidade’, etc. Imagina-se estar assim conferindo maior cientificidade ao Espiritismo, livrando-o de noções “ultrapassadas” do século XIX. Ora, o mais elementar senso filosófico mostra que não é no vocabulário que assenta o caráter científico ou não de uma disciplina.

As palavras são, como foi lembrado no artigo anterior, meros símbolos para a expressão de conceitos; se estes não encontrarem respaldo em uma teoria científica coerente, abrangente e empiricamente adequada (isto é, adaptada aos fatos), de nada adiantará modificá-las. Por outro lado, uma teoria científica não será substancialmente alterada pela modificação de seu vocabulário. Logo, qualquer alegação de que o Espiritismo tem de passar por uma atualização não pode limitar-se à substituição de palavras, como ingenuamente se procura fazer. Essa alegação só se poderia justificar a partir de uma análise profunda, exaustiva e meticulosa da teoria espírita e de todos os fatos de que trata, que revelasse racionalmente que ela não lhes dá explicação adequada, ou contém falhas de consistência lógica, propondo-se concretamente uma outra teoria melhor que a possa substituir. No parágrafo 14, n. 8, de O Livro dos Médiuns Kardec resume as condições para uma crítica sustentável do Espiritismo (e, aliás, de qualquer outra ciência) que, por sua lucidez e atualidade, merece ser aqui reproduzida:

O Espiritismo não pode considerar crítico sério senão aquele que tudo tenha visto, estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto o adepto mais esclarecido; que haja, por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da ciência; aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera negação, mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente, que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhe aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.

Esse trecho serviu de mote para o artigo “A excelência metodológica do Espiritismo”, citado na lista de referências bibliográficas. Nele procuro mostrar, ainda que de forma breve e simplificada, que as condições para uma revisão do Espiritismo em nome da cientificidade até hoje não foram satisfeitas. A teoria espírita kardequiana tem tudo o que é essencial para sua classificação como uma ciência genuína, à luz das concepções atuais da filosofia da ciência. Não é naturalmente o caso de repetir aqui o que expus nesse trabalho e em outros sobre o mesmo tema. No entanto, parece-me importante particularizar um pouco a análise, com vistas aos exemplos dados na pergunta.

A palavra ‘mediunidade’ foi criada por Kardec para designar a faculdade que certos indivíduos possuem de servir, em maior ou menor grau e de modos diversos, de intermediários entre os Espíritos e os homens. Essa noção recebeu precisão e conteúdo cognitivo por sua inserção em uma teoria completa dos fenômenos mediúnicos, exposta principalmente em O Livro dos Médiuns (ver o artigo “Estudo sobre a mediunidade”, citado no final). Embora ela se encontre, como qualquer teoria científica, em contato periférico com teorias de áreas contíguas, de dentro e de fora do Espiritismo, possui bases de sustentação autônomas, não tendo que sofrer alterações substanciais ou terminológicas em virtude do que possa ocorrer nesses domínios conexos.

As modificações que se têm proposto para o Espiritismo geralmente limitam-se ao plano lingüístico, como se se tivesse vergonha de escrever ou pronunciar as palavras ‘médium’ e ‘mediunidade’, preferindo-se antes adornar o discurso com termos rebuscados, provenientes de linhas de investigação incipientes ou pseudo-científicas, como a metapsíquica, a parapsicologia e diversas vertentes ligadas à psicologia ou mesmo a doutrinas orientalistas.

É evidente que isso só contribui para aumentar as dificuldades de compreensão e comunicação ou, o que é pior, para dispersar as pesquisas relativamente ao núcleo teórico paradigmático da ciência espírita, com graves repercussões para o seu desenvolvimento. Constitui fato reconhecido entre os filósofos da ciência contemporâneos que as substituições de conceitos e teorias fundamentais numa ciência somente se justificam pela degeneração global do programa de pesquisa no qual se inserem, juntamente com o fornecimento efetivo de um programa alternativo que o suplante em coerência, abrangência, precisão e fertilidade heurística. Ora, não padece dúvida para qualquer estudioso isento que nada disso sequer esboçou-se no caso do Espiritismo.

Considerações semelhantes aplicam-se à palavra ‘fluido’. É certo que ao cunhar a expressão ‘fluidos espirituais’ para denotar certos elementos materiais “sutis” que tomam parte em processos diversos examinados pelo Espiritismo, como a ação dos Espíritos sobre a matéria ordinária (mediunidade, curas, passes, etc.), ou a constituição dos corpos e da ambiência dos Espíritos (perispírito, objetos do mundo espiritual, etc.), Kardec procurou analogias, ainda que tênues, com certos elementos que, segundo as melhores teorias físicas da época, participariam dos fenômenos elétricos, magnéticos ou térmicos: os chamados fluidos elétrico e magnético, e o calórico, igualmente invisíveis, sutis, imponderáveis.

Ora, como não houve mais do que analogia e apropriação de um símbolo lingüístico para construir uma expressão nova – ‘fluidos espirituais’, que em geral se simplificava para ‘fluidos’, dentro do contexto espírita – , não se segue que a teoria espírita tenha de ser modificada terminológica ou substancialmente na caracterização dos referidos processos porque as teorias físicas que sugeriram as analogias tenham sido alteradas ou substituídas no curso evolutivo da física.

Um historiador da ciência bem informado seguramente poderá encontrar diversas situações semelhantes no âmbito das ciências acadêmicas. Reportemo-nos de passagem, por exemplo, ao que aconteceu na química quando as teorias físicas sobre a estrutura da matéria se alteraram na década de 1920, com o desenvolvimento e aceitação da mecânica quântica. Embora os químicos tenham levado em conta a nova teoria física, dada a proximidade e as interseções entre as áreas, tendo-se mesmo criado ramos e técnicas de cálculo novos na química, as concepções e métodos referentes às ligações químicas, estruturas moleculares, etc. continuaram mais ou menos como eram, em um amplo espectro de investigações teóricas e experimentais.

Voltando ao caso do Espiritismo, salienta-se bem na pergunta que ele constitui “uma ciência independente, dedicada ao estudo de fenômenos que escapam ao escopo das ciências clássicas”, tendo “a liberdade de definir seus próprios termos”; e, poderia acrescentar: seus conceitos e teorias. Modificações nesses pontos só se legitimariam, repito, na medida em que análises rigorosas internas ao programa científico espírita indicassem sua necessidade.

Ainda com relação à noção de fluido, deve-se notar que ela não é tão abominada na física como parecem crer os reformistas. Em primeiro lugar, cumpre notar que todos os líquidos e gases são fluidos, e seu estudo é feito em diversas áreas da ciência, como a hidrodinâmica. Depois, quanto à eletricidade, magnetismo e termodinâmica, as teorias atuais prescindem dessa noção no nível operacional, tendo assumido feições preponderantemente matemáticas e preditivas. No entanto, quando se desce à análise de fundamentos – e raros cientistas dedicam-se a isso atualmente – percebe-se que, à semelhança das demais teorias da física, estão envoltas em problemas conceituais graves. Não é nada claro, por exemplo, o que seja um campo elétrico ou magnético (noções usadas nas teorias físicas que sucederam às teorias de fluidos), não do ponto de vista de sua caracterização matemática, é claro, mas de sua representação intuitiva, de sua essência, do modo pelo qual surge, se propaga e causa certos fenômenos. Lembremo-nos, por fim, que os próprios pais da teoria eletromagnética, como Faraday e Maxwell, não dispensaram o conceito de fluido quando se tratava de explicar – e não simplesmente calcular – os fenômenos.

Dir-se-á talvez que Einstein baniu esse conceito da ciência ao criar a teoria da relatividade restrita, em 1905. Embora essa afirmação se tenha tornado comum em certos círculos, entre os especialistas em fundamentos não há consenso sobre o ponto, não obstante seja claro que o chamado “éter eletromagnético” regido por leis mecânicas não compareça na aludida teoria. Mas essa não é a única teoria da ciência, nem tampouco está isenta de dificuldades conceituais e teóricas diversas. Evidentemente, este não é o lugar para adentrar esse tópico complexo. Fica, porém, uma advertência aos espíritas de boa vontade para que não se deixem influenciar facilmente por tais assertivas, antes que façam estudos profissionais, que levem em conta, por exemplo, a teoria da relatividade geral e todas as perplexidades que envolvem as teorias do espaço-tempo e da cosmologia contemporâneas, nas quais noções muito próximas à de fluido parecem estar encontrando lugar.

Apenas para concluir, vale mencionar que virou moda nos meios espíritas e semi-espíritas a substituição da palavra ‘fluido’ por ‘energia’, sempre no pressuposto de que é por aí que vai a ciência. Ora, assim como as noções de espaço, tempo, força, massa, carga elétrica, campo, etc., a noção de energia é objeto de inúmeras dificuldades conceituais, não se ganhando nada em clareza, precisão e cientificidade com a sua utilização, muito pelo contrário. Ademais, esse uso apresenta o inconveniente de se dar numa área distante da área de sua criação original, a física, representando uma enxertia no programa científico espírita, fonte certa de confusões.

A respeito da utilização das noções das palavras ‘fluido’, ‘energia’ e ‘magnetismo’ no Espiritismo, recomendo a leitura do artigos de Aécio P. Chagas, “Polissemias no Espiritismo” e “A ciência confirma o Espiritismo?” Outra análise profissional do emprego impróprio de noções científicas, em particular da noção de energia, no Espiritismo é feita no artigo “Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-Ciência”, de Ademir L. Xavier Jr., que também consta da lista de referências bibliográficas.

* * *

No próximo artigo desta série será examinado o aspecto religioso do Espiritismo, que apesar de ter sido lucidamente abordado por Kardec ainda parece não ser bem compreendido em alguns setores do movimento espírita.

Referências:

(Estes artigos e outros que tratam de assuntos correlacionados estão disponíveis também no site do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp: http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482.)

  • CHAGAS, A. P. “A ciência confirma o Espiritismo?”, Reformador, julho de 1995, p. 208-11.
  • ––. “Polissemias no Espiritismo”, Revista Internacional de Espiritismo, setembro de 1996, p. 247-49.
  • CHIBENI, S. S. “A excelência metodológica do Espiritismo”, Reformador, novembro de 1988, p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378.
  • ––. “Estudo sobre a mediunidade” (em co-autoria com Clarice Seno Chibeni), Reformador, agosto de 1997, p. 240-43 e 253-55.
  • KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59a ed., revista, Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
  • XAVIER Jr., A. L. “Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-Ciência”, Reformador, agosto de 1995, p. 244-46.

Notas

[1] O conteúdo do texto corresponde, com algumas adaptações, a parte de entrevista concedida por mim ao GEAE (Grupo de Estudos Avançados de Espiritismo), pioneiro na divulgação do Espiritismo pela Internet. A entrevista foi publicada no Boletim n. 300 (edição extra), que circulou em 7/7/1998, podendo ser encontrado no site http://www.geae.org. Gostaria de agradecer ao GEAE a anuência para o aproveitamento do material nesta série de artigos. Sou especialmente grato aos seus membros Ademir L. Xavier Jr., pela iniciativa da entrevista, e Carlos A. Iglesia Bernardo, por haver reunido as relevantes e oportunas questões.

Artigo publicado em Reformador, agosto de 1999, pp. 250-252.

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