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Salvação? Não, Obrigado

Salvação? Não, Obrigado

O homem primitivo, intimamente ligado à natureza que o rodeava, expressava de
forma espontânea e verdadeira sua espiritualidade. Através de seu instinto
sentia a existência do transcendental, sentimento esse que pulsava, de forma
nítida, na essência energética daqueles seres simples e ignorantes, vazios de
conhecimento, porém plenos de autenticidade. À medida que a civilização humana
começou a galgar novos degraus da escala do progresso, deixando cada vez mais de
ser instintiva, passou a reprimir para os porões do inconsciente as percepções
inatas e verdadeiras. Deixando para trás a infância histórica, passou a
humanidade a uma fase da contestação sistemática tal qual o adolescente que
recusa a priori os conceitos estabelecidos. Na procura de respostas para as
inúmeras indagações que acometem a mente humana, passa a duvidar até mesmo de
seus instintos. A crença no extra-físico, antes alicerçada na própria
naturalidade dos sentimentos inatos, passa a ser substituída pela dúvida e,
sobretudo, a exigir participação do racional.

Contudo, o homem moderno, esteja ele ligado à ciência ou à filosofia, procura
cruzar a fronteira do racional e integrar-se aos valores percebidos por seu
próprio psiquismo, de forma subjetiva. O paradigma mecanicista de Newton vem
cedendo lugar à concepção de um universo energético aberto a outras dimensões.
Não mais a atitude infantil do homem primitivo que apenas, por via inconsciente,
aceitava a existência espiritual, nem tampouco a postura adolescente da rejeição
preconceituosa de qualquer referência à espiritualidade. Estamos no alvorecer
não só de um novo século, mas de um novo milênio. As perspectivas futuras
apontam para uma ciência e uma religião não mais estanques, dogmáticas,
preconceituosas e onipotentes. O universo passa a ser observado e sentido, não
mais como uma matéria tridimensional. A multidimencionalidade da matéria, já
admitida pela física moderna, abre as portas para a percepção da existência do
mundo espiritual.

A humanidade já não se satisfaz com os preceitos rígidos das religiões
dominantes. O homem é um ser que indaga e quer saber, afinal, quem é, de onde
vem e para onde vai. A dissociação existente entre a ciência e religião,
verdadeiro abismo criado pelos homens, levou os indivíduos a ter uma visão
fragmentária da vida. Os conselhos religiosos, tão úteis em épocas remotas, hoje
tornam-se defasados em relação à evolução contemporânea . As orientações dos
ministros religiosos foram substituídas pelos médicos, psicólogos, pedagogos
etc… O que freqüentemente observamos é a deficiência de respostas às
ansiedades íntimas do indivíduo ou da própria sociedade. O que lhes falta? Por
que profissionais extremamente capacitados, sérios e estudiosos se sentem
limitados para compreender o sofrimento humano?

Por que pessoas justas às vezes sofrem tanto, e concomitantemente, outras,
egoístas, que se comprazem no sofrimento do próximo, prosperam tanto? Há quem
viva semanas, meses ou poucos anos, enquanto outros vivem quase um século! Por
quê? Por que para uns a felicidade constante e para outros a miséria e o
sofrimento inevitável? Por que alguns seriam premiados pelo acaso com as mais
terríveis malformações congênitas? Por que certas tendências inatas são tão
contrastantes com o meio onde surgem? De onde vêm?

Não há como responder a essas questões, conciliando a crença em uma Lei
Universal justa e sábia, se considerarmos apenas uma vida para cada criatura. O
ateísmo e o materialismo são conseqüências inevitáveis da rejeição às crenças
tradicionais, surgindo, naturalmente, pela recusa inteligente a uma fé cega em
um Ser que preside os fatos da vida sem qualquer critério de sabedoria, e
justiça. A cosmovisão espiritista, alicerçada no conhecimento das vidas
sucessivas, onde residem as causas mais profundas de nossos problemas atuais,
traz-nos respostas coerentes. O conceito de reencarnação propicia uma ampla
lente através da qual poderemos enxergar a problemática das vidas.As aparentes
desigualdades, vivenciadas momentaneamente pelas criaturas, têm justificativa
nos graus diferentes de evolução em que se encontram no momento. Além disso,
sabe-se, pelas leis da reencarnação, que cabe a todas as criaturas um único
destino: a felicidade. A evolução inexorável é feita pelas experiências
constantes e o aprendizado decorrente. Os atos da criatura ocasionam uma
seqüência de causas e efeitos que determinam as necessidades da reencarnação, a
si própria, em tal meio ou situação; nunca existe punição; existe, sim,
conseqüência lógica. Há colheita obrigatória, decorrente da livre semeadura, e
sempre novas oportunidades de semear.

Cada ser leva para a vida espiritual a sementeira do passado, trazendo-a
inconscientemente consigo ao renascer. Se uma existência não for suficiente para
corrigir determinadas distorções, diversas serão necessárias para resolver uma
determinada tendência a longa caminhada da vida. Nossos atos do dia-a-dia por
sua vez, são também novos elementos que se juntam a nosso patrimônio energético,
pois os arquivos que criamos são sempre no nível de campos de energia,
influenciando intensamente, atenuando ou agravando as desarmonias energéticas
estabelecidas pelas vivências anteriores.

A teia de nosso destino, portanto, não é exclusivamente determinada por nosso
passado. O livre-arbítrio que possuímos tece também os fios dessa teia a cada
momento, num dinamismo sempre renovado. A diversidade infinita das aptidões, ao
nível das faculdades e dos caracteres, tem fácil compreensão. Nem todos os
espíritos que reencarnam têm a mesma idade; milhares de anos ou séculos podem
haver na diferença de idade entre dois homens. Além disso, alguns galgam
velozmente os degraus da escada do progresso, enquanto outros sobem lenta e
preguiçosamente.

A todos será dada a oportunidade do progresso pelos retornos sucessivos.
Necessitamos passar pelas mais diversas experiências, aprendendo a obedecer para
sabermos mandar; sentir as dificuldades na pobreza para sabermos usar a riqueza.
Repetir muitas vezes para absorver novos valores e conhecimentos. Desenvolver a
paciência, a disciplina e o desapego aos valores materiais. São necessárias
existências de estudo, de sacrifícios, para crescermos em ética e conhecimento.
Voltamos ao mesmo meio, freqüentemente ao mesmo núcleo familiar, para reparar
nossos erros com o exercício do amor. Deus, portanto, não pune nem premia; é a
própria lei da harmonia que preside à ordem das coisas. Agirmos de acordo com a
natureza, no sentido da harmonia, é prepararmos nossa elevação, nossa
felicidade.

Não usamos o termo “salvação”, pois históricamente está vinculado ao
salvacionismo igrejista, uma solução que vem de fora. Na realidade aceitamos a
evolução, a sabedoria e a felicidade para todas as criaturas. “Nenhuma das
ovelhas se perderá”, disse Jesus. Fazendo-nos conhecer os efeitos da lei da
responsabilidade, demostrando que nossos atos recaem sobre nós mesmos, estaremos
permitindo o desenvolvimento da ordem, da justiça e da solidariedade social tão
almejada por todos.

Ricardo Di Bernardi
Homeopata e Presidente do ICEF

(Publicado no Boletim GEAE Número 459 de 15 de julho de 2003)

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