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Sinceridade e Liberdade de Consciência

“A liberdade de consciência é um dos caracteres da verdadeira civilização
e do progresso” (L.E., 837)

“Será repreensível aquele que escandaliza com a sua crença um outro que
não pensa como ele? “— Isso é faltar com a caridade e atentar contra a liberdade
de pensamento”. (L.E., 839)

Quem acompanha atentamente a imprensa espírita brasileira, já deve ter
percebido que se tornou bastante comum o uso da expressão “Espíritas Sinceros”
em artigos dirigidos ao movimento espírita de nosso país. Há pouco, num mesmo
periódico, saíram três textos onde a expressão foi utilizada, por diferentes
autores, e o fato levou-nos a refletir mais seriamente.

Começamos a analisar o sentido e a aplicação dessa adjetivação
insistentemente utilizada em exortações aos espiritistas do Brasil e percebemos
que alguns desses textos desatacam, indireta, mas claramente e por exclusão, a
existência de um outro grupo, naturalmente não citado: o dos “Espíritas
NÃO-SINCEROS” e, sinceramente, não conseguimos perceber quais os critérios
utilizados para essa classificação. Em outras palavras: passamos a nos perguntar
o que leva um espírita a tachar outro espírita de insincero?!

Primeiramente, parece-nos claro que quem faz tal censura julga-se,
naturalmente, integrante do grupo dos sinceros e, conseqüentemente, deve agir
com a mais pura sinceridade, sem nenhuma tisna de inverdade, em todos os atos de
sua vida, por menos representativos que os considere. Só, e apenas desta
maneira, estará em condições de “atirar a primeira pedra”. Afinal, ensina-nos
nossa excelsa Doutrina que “a autoridade para censurar está na razão direta da
autoridade moral daquele que censura”, acrescentando que “Aos olhos de Deus, uma
única autoridade legítima existe: a que se apoia no exemplo que dá do bem”. (O
Evangelho Seg. o Espiritismo, Cap. 10, item 13).

Sinceramente, não sei como espíritos em provas e expiações — que somos
todos nós — podem revestir-se de tal autoridade, quando nem mesmo Jesus — o
Modelo — dela fez uso para censurar ou acusar. Combateu a mentira e a
hipocrisia, todavia o fez sempre “olhos nos olhos”, buscando educar e sem jamais
expor a qualquer de seus irmãos de modo a desacreditá-lo.

Será que não percebemos o equívoco da acusação que generaliza?

Pensemos no efeito causado no leitor; à frente de um artigo assinado por
autores tão respeitáveis quanto as instituições que os respaldam, irá,
obviamente, indagar quem são os insinceros e por que merecem essa pecha. Ou
não?! Como não encontrará resposta no artigo, que normalmente evita acusações
diretas a grupos ou pessoas, o que poderá pensar?

Pessoalmente, a impressão que nos dá como leitor é que não se dirigem os
autores para seus próprios grupos ou pessoas afins (diz-nos a lógica); estarão
voltando-se a grupos ou pessoas com as quais mantém certas “diferenças”, e que
ocorrem essencialmente no campo das idéias, isto é, na forma de pensar.

Ora, se o leitor observou com atenção os trechos aqui destacados de “O Livro
dos Espíritos”, percebeu que os Imortais trataram a liberdade de consciência e
de pensamento como inalienáveis direitos do homem, que caracterizam a verdadeira
civilização e o progresso, até porque encontram-se estribados nas próprias Leis
Naturais. Sendo assim, teremos o direito de acusar de insincero a quem quer que
seja, apenas porque não pensa como nós?

Certamente que não. Afinal, o companheiro poderá ser autêntico e sincero
naquilo que pensa, tanto quanto devemos ser em nossas próprias opiniões. Se não
bastasse, estaríamos, ainda, ferindo a liberdade de consciência e esquecendo o
princípio básico para o justo equilíbrio das relações sociais, exarado em a
consciência do homem, e que “consiste em cada um respeitar os direitos dos
demais” (L.E., 875). Faltaríamos, então, com a caridade.

Isto não significa que devamos nos omitir quando houver flagrante contradição
com o vero pensamento espírita, mas ainda neste caso, deveremos usar a
argumentação sólida e transparente respaldada na lógica e no bom-senso, como
magistralmente fazia Allan Kardec. Extremamente saudável, portanto, evitássemos
esse tipo de expressão que sai do campo da argumentação para o terreno da
insinuação, dando margem a dúvidas quanto à intenção daqueles que a utilizam e
alimentando a dissensão.

Com estas observações, não queremos, sinceramente, fechar os olhos para as
nossas imperfeições, ainda que já estejamos matriculados na escola do
conhecimento espírita, no entanto não se justifica o destaque aos insinceros,
quando, na verdade, não podemos esquecer dos orgulhosos, dos sensuais, dos
autoritários e despóticos, dos irresponsáveis e levianos, dos vaidosos, dos
avarentos, dos viciados, dos rancorosos, dos egoístas, etc…

Movidos, pois, pelo espírito de solidariedade e tolerância, aproveitemos
todas as oportunidades de auxiliar e educar sempre que possível, entretanto,
resguardemo-nos de expor os companheiros — espíritas ou não — ao látego de
nossas precipitadas e genéricas conclusões e expressões menos caridosas apenas
por pensarmos diferente deles. Do contrário, corremos o risco de aumentar a já
longa lista dos imperfeitos, caracterizando-os como espíritas intolerantes.

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