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Um pouco mais além

Um pouco mais além

Em nossa vida material, todos estamos vinculados ao espaço físico que, regido
por leis, estabelece limites sob vários ângulos. A matéria, entendida como base
da criação divina, se caracteriza por estados diferenciados nos quais a energia
flui através de forças que configuram o Universo onde nos situamos. Dentro dessa
conjunção, e submetidos a ela, reside o nosso restrito campo de ação, nas
perambulações entre a erraticidade e os períodos encarnatórios. Por isso, apesar
de planos arrojados, quão ambiciosos que estabelecemos na nossa pretensão, quase
nunca os concretizamos de maneira satisfatória. São os limites subestimados que
acabam trazendo-nos à realidade do que somos e do que podemos.

Vejamos, por exemplo, nas atividades de nossas casas espíritas, aquele
companheiro que, diante do manancial de verdades que se abrem à sua frente,
empolga-se de tal modo imaginando poder resolver todos os problemas da
multimilenária história do ser humano. Situação compreensível, mas que precisa
ser amadurecida para que, mal avaliando nossos limites, não encontremos
decepções e frustrações.

Muitas casas espíritas, envolvidas nesse psiquismo de empolgação imatura,
perdem o verdadeiro sentido da proposta doutrinária, submetendo-se a tarefas e
realizações que se tornam em pesado encargo, difícil de ser desfeito. Assim se
dá na assistência social ou no auxílio aos enfermos, quando supervalorizamos o
potencial de trabalho que temos – inclusive depositando responsabilidades sobre
ombros despreparados para tal, para cairmos no arrependimento da iniciativa ou,
pior ainda, no mal cumprimento do atendimento que prestamos à nossa clientela, o
que resulta em péssima divulgação para a Doutrina Espírita. Acabamos vencidos
pela falta de tempo, de espaço físico, de saúde, de recursos amoedados, enfim,
pelos limites naturais que precisam ser respeitados, tornando-nos heróis do mal
humor e do azedume.

Por outro lado, fugimos do compromisso maior que temos com Deus de nos
aprimorarmos para atingir as metas de evolução do Espírito imortal, o que não
significa, como pensam muitos, volume de realizações mas sim qualidade nos
comprometimentos. E, nesse campo, podemos caminhar um pouco mais em nossos
esforços, alargando nossos limites.

Na questão nº 132 de “O Livro dos Espíritos” Allan Kardec questiona: “Qual é
a finalidade da encarnação dos Espíritos?” , para o que recebe como resposta:
“Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição…”

Dessa forma, todas a ações que protagonizamos, inclusive as de natureza
espírita, são opções de caminho para um desiderato maior: o aprimoramento
espiritual. As ações têm os limites naturais da situação física em que nossa
inferioridade nos situa, mas o aprimoramento espiritual não encontra barreira
entre o que somos e a perfeição, estando submetido apenas ao livre exercício da
vontade. Por isso, podemos fazer essa poderosa alavanca nos movimentar mais à
frente, talvez um pouco mais além…

Se realmente formos melhores, nossa simples presença agindo no seio da
humanidade a fará melhor, e qualquer ação de nossa parte será um ponto concreto
em favor da evolução humana.

Visitando as irmãs de Lázaro, Jesus observa Marta que se inquieta com os
afazeres domésticos, enquanto Maria aproveita para beber do Mestre as lições
imorredouras que fluíam de sua imensa sabedoria. Então Jesus orienta: “Marta,
Marta, inquietas-te e te confundes com muitas coisas; uma só coisa é necessária!
Maria escolheu, de fato, a melhor parte, que não lhe será tirada”. ( Lucas 10:
41 e 42)

A melhor parte será sempre o estado de espírito em harmonia, portador do
sublime sentimento do amor, que é paciente e manso. As obras, ainda que de
vultuosa importância, somente traduzirão significados de utilidade quando
sustentadas pelo bem espontâneo que transborda dos corações iluminados na
vivência evangélica.

A pergunta do juízo consciencial que faremos, um dia, frente às nossas
recordações, não será de quanto obramos nas tarefas beneficentes mas de como o
bem expandiu-se ao próximo através de nossas próprias ações.

Conforme os versos da poetisa Adayla Barbosa, em “Canções do Velho Moinho”:
“O amor que eu sei é manso como o rio que desce da montanha. É calado e
sereno como o abrir de uma flor.”

 

Se realmente formos melhores, nossa simples presença agindo no seio da
humanidade a fará melhor, e qualquer ação de nossa parte será um ponto
concreto em favor da evolução humana.

 

(Jornal Mundo Espírita de Maio de 1998)

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