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Uma ética para a genética

Uma ética para a genética

Todo um universo de insuspeitadas dimensões está surgindo da penetração da
pesquisa pelos domínios da Biologia.

Tamanha é a massa de informações que está sendo colhida e tão extraordinário
o seu conteúdo que muitos cientistas, fascinados pela excitação intelectual do
êxito, imaginam-se novos deuses capazes de criar a vida à sua imagem e
semelhança. Não sabem que longe disso, estão apenas começando a descobrir os
maravilhosos segredos que Deus coloca nas coisas que faz.

O nosso futuro está sendo jogado em partidas pesadas nos laboratórios do
presente, por homens e mulheres de ciência que têm o seu próprio código de
ética, que talvez não seja o que melhor convém à sociedade humana. É que nesse
verdadeiro exército de cientistas são percentagem desprezível aqueles que têm
consciência da grandeza de Deus e do sentido espiritual da vida. Vendo-os
trabalharem nos seus magníficos laboratórios, concentrados no estudo do homem,
ocorre a nós, que estamos voltados para a realidade espiritual, a nítida
expressão de que estão estudando os componentes materiais de marionetes, mas
ignorando totalmente a consciência e as motivações que fazem os bonecos se
moverem. Ah! Que falta nos fazem cientistas espíritas que se dediquem, com
reverência e amor, ao estudo das forças que impulsionam a vida e que lhe dão
forma e sentido, não apenas dos componentes materiais em que ela se apóia!

Surgem, por isso, dilemas atrozes que envolvem milhões de seres. “Se
permitirmos que os fracos e os deformados vivam – diz o doutor Theodosius
Dobzhansky – e propaguem a sua espécie, teremos que enfrentar um crepúsculo
genético. Mas, se os deixarmos morrerem ou sofrerem quando podemos salvá-los,
enfrentaremos a certeza de um crepúsculo moral”.

A equação não está bem armada porque a pesquisa ainda não recebeu o impulso
certo na direção correta. O pensamento deve ser reformulado. Que processos
espirituais ou psicossomáticos desencadeiam deficiências físicas? Podem ser
revertidos? Podem ser evitados? Podemos impedir que se propaguem? Certamente que
essas possibilidades poderão ser exploradas com segurança, a partir do instante
em que o cientista se convencer de que o homem não é meramente um mecanismo
biológico, mas um ser espiritual. O problema é realmente difícil para aquele que
não aceita nem como hipótese de trabalho, a realidade espiritual. É que, para
atuar no mundo material, o espírito precisa ter na matéria os contatos e as
“tomadas” necessárias, junto aos quais atua através do seu perispírito.

Até que assuma tal posição, no entanto, muita desorientação ainda há de
provocar danos imprevisíveis aos processos da vida e, por conseguinte, ao homem
das futuras gerações. É que, sem o saber, a ciência está interferindo em alguns
dos dispositivos da própria reencarnação, ao manipular genes, na tentativa de
acelerar ou provocar desvios no sistema evolucionista da vida. O homem moderno
tem pressa; não quer esperar pela sabedoria das leis divinas. Está, assim,
tentando obrigar a natureza a dar saltos, coisa que ele nunca fez. Os planos são
muitos e cada qual mais mirabolante. Ainda na infância espiritual, os homens de
ciência descobriram no universo do ser um imenso e imprevisto quarto de
brinquedos, os brinquedos da vida. Os projetos são inúmeros e o limite é a
imaginação de cada um. Um deles é aumentar a caixa craniana para ter homens mais
inteligentes. E fazer o que com a inteligência? – perguntamos nós. Os
astronautas não precisam de pernas, portanto, vamos mexer nos genes para criar
homens sem pernas. A mulher deseja filhos? Ë fácil: faça-se nela a inseminação
com material genético devidamente estudado e preparado. Quer filhos, mas não
deseja a gravidez? Implante-se seu óvulo em mãe mercenária. Quer filhos homens,
de olhos azuis e cabelos louros? Basta alterar os genes, no ponto certo, tirando
partículas e acrescentando outras. Se homens e mulheres desejarem conservar do
sexo apenas o prazer momentâneo, então os seres poderão ser criados em úteros
artificiais, em série, fabricados em incubadeiras coletivas, às quais qualquer
um poderá encomendar seus filhos pelo crediário, com rígidas especificações, com
se fosse um novo automóvel. Se o país precisa de um novo exército, “gera-se” um,
clonizando células de grandes militares. Para transmitir conhecimentos,
basta injetar as “células da memória” de um ser que sabe noutro que não sabe.
Para preservar a vida física indefinidamente, pensam os biologistas em
clonizar seres humanos
de reserva, que ficariam cuidadosamente depositados
em congeladores para fornecerem “sobressalentes”, tais como coração, pulmões,
rins, braços ou pernas, e até cabeças novas para aqueles desgastados pelo uso ou
abuso.

Há planos para criar um monstro meio homem meio máquina, chamado “cyborg”,
que seria um cérebro vivo, ligado a um mecanismo que apenas servisse às suas
limitadíssimas necessidades. Já se pratica a técnica da criogenia,
segundo a qual se congelam as pessoas doentes ou desgostosas da vida para no
futuro, quando for possível resolver os seus problemas biológicos ou
psicológicos , sejam trazidas de volta à vida ativa. E o Espírito? Disso ninguém
cuida, dele ninguém sabe, por ele ninguém se interessa.

Os centros das sensações estão sendo identificados e “mapeados” nas ignotas
regiões do cérebro. A introdução de eletrodos em determinados pontos provoca
sensações novas e extraordinárias. Experiências feitas em ratos levaram os
pobres animais a uma completa alucinação na busca desesperada do prazer, até a
morte por exaustão, completamente desinteressados de tudo o mais, inclusive
alimentação e atividade sexual. Descobertas como estas criam problemas
imprevisíveis de comportamento futuro. Já há quem preveja “centros de
experimentação” em substituição às drogas aos bares e aos cafés, onde as
criaturas se reuniriam para viver horas de prazeres nunca dantes experimentados,
ligados a uma aparelhagem verdadeiramente diabólica.(…)

Acham outros cientistas que, retirando de um indivíduo alguns componentes
genéticos, podem reproduzi-lo à vontade, com todas as suas características
físicas – cor de pele, dos olhos e dos cabelos – e, ainda, com absoluta
identidade mental e espiritual. Seria, assim, fácil criar um milhão ou dois de
novos Lincolns ou Esteins. é claro que, se isso fosse possível, não faltaria
quem desejasse criar uma quadrilha inteira de Al Capones ou nação de Hitlers.
Nesse ponto, o embriologista Robert T. Francoeur, diz um basta! – que é um brado
de alerta: “Xerox de gente? Não deveria ser praticada em laboratório, nem mesmo
uma só vez, com seres humanos”.

A questão é que os cientistas escolhem seus métodos e decidem sua própria
ética. E é por isso que já se pensa nos Estados Unidos, a sério, na proposição
de leis que instituam um código ético básico para traçar limites ao que pode ou
não pode ou não deve ser realizado, em laboratórios com o ser humano. O problema
é, no entanto, muitíssimo mais complexo, porque a tais atitudes respondem muitos
cientistas declarando a impossibilidade de pesquisar dentro de faixas
rigidamente estabelecidas por legisladores que não estão preparados para decidir
questões de âmbito científico.

Por outro lado, mesmo que seja possível estabelecerem, os próprios cientistas
um código voluntário de ética, quem poderá assegurar a aplicação ética das
descobertas que forem realizadas? Isso porque a ciência pura não se interessa –
em princípio – pela utilização de seus “achados”. Os homens que começaram a
desvendar os segredos do átomo talvez não permitissem que se atirassem bombas
sobre populações indefesas, se para isso tivessem autoridade política e militar,
mas os que jogam bombas não são os mesmos que descobrem os processos de
liberação da energia nuclear.

Não é minha intenção, neste brevíssimo e incompleto sumário, inquietar ou
assustar o leitor, mas creio que é útil a todos nós dar essa espiada ligeira em
alguns dos problemas que estão ocupando os melhores intelectuais do mundo
moderno. Não podemos, no entanto, livrar-nos de uma pesada e opressiva sensação
de melancolia, ao vermos que tanto esforço, tempo, dinheiro e talento, são
colocados na tentativa infantil de “corrigir” a obra de Deus. Nesta atmosfera de
ficção, onde tudo é possível para o cientista, onde está o espírito? Onde está
Deus? Vemos, desalentados, que essas entidades não são tomadas em consideração
nem mesmo como hipóteses de trabalho, para ajudar o raciocínio ou testar
experimentações incompreensíveis, quando deveriam ser a base, o princípio
dominante de toda a especulação em torno dos fenômenos da vida, manifestação
legítima da grandeza de infinita de Deus.

Ao contrário, o que vemos nessas pesquisas e nesses estudos, são homens
brilhantíssimos, donos das mais respeitáveis técnicas, trabalhando nos mais
avançados laboratórios, mas de cabeça baixa, voltados para a matéria, só
matéria, matéria sempre, sem saberem que o átomo é apenas o suporte transitório
da vida, muleta de que o ser precisa por algum tempo, no início da sua carreira
evolutiva na sua escalda para o infinito, na direção de Deus.

Para tomar um só exemplo, vejamos o que está sendo pesquisado em torno da
memória. A história começa com a sensacional descoberta do RNA (ácido
ribonucleico) e do DNA (ácido desoxirribonucleico), ingredientes básicos do gene
existente nas células de todos os organismos vivos. Esse achado científico foi
considerado tão importante quanto a desintegração atômica, porque foi
surpreender fenômenos da vida nas suas bases de sustentação e propagação. Na
realidade, as pesquisas vão de tal forma adiantadas que Arthur Kornberg, da
Universidade de Stanford, conseguiu produzir uma fieira de moléculas de DNA
capaz de reproduzir-se, tal como um vírus.

Experiências posteriores, partindo do conhecimento obtido acerca do
conhecimento obtido acerca do comportamento do RNA, sugerem a possibilidade de
transferir informações armazenadas na memória de um ser para a memória de outro,
mas os próprios cientistas ainda têm muitas dúvidas sobre a validade dos dois
testes feitos, que não acham bastante conclusivo. No entanto, já se partiu para
a especulação das possibilidades e perspectivas resultantes da experimentação.
Alguém imaginou as “pílulas do conhecimento” que, compradas na drogaria ali na
esquina, poderiam proporcionar àquele que as ingerisse conhecimento de línguas,
de arte ou de matemática. A coisa, porém, não é tão simples assim, porque então,
como diz James Mac Connell, psicólogo da Universidade de Michigan, para que
desperdiçar todo o vasto conhecimento adquirido por um eminente professor? Em
lugar de aposentá-lo ao cabo de uma vida de trabalho, a solução melhor seria os
alunos comerem o mestre…

Brincadeira, ou não, o certo é que as aventuras no domínio da genética e da
biologia prosseguem na ignorância total da condição espiritual do homem.

Wilder Penfield, um cirurgião canadense, ao realizar uma operação cerebral
com anestesia local descobriu que certos pontos do cérebro, eletricamente
estimulados, levavam o paciente a ouvir uma canção antiga, ou a reviver, com
todos os seus vívidos pormenores, uma esquecida cena da infância, ou uma senhora
a experimentar, novamente as sensações de uma antiga gravidez. Daí, concluíram
alguns cientistas que o cérebro tem capacidade para registrar e conservar com
precisão incrível todas as sensações que recebe, por menos importantes que
sejam. O ESPIRITISMO sabe disso há muito tempo, ensinando que esse registro se
faz no perispírito, mesmo porque as memórias que guardamos não são apenas as
desta vida, mas as das anteriores também, até onde alcançar a nossa consciência.
A demonstração disso está no fenômeno da regressão da memória. (…)

Abismado pelas complexidades e grandezas da biologia molecular, o homem ainda
não aprendeu a ser humilde diante da obra de Deus e perguntar, como George W.
Carver, o que desejou o Criador dizer com as maravilhosas coisas que fez. Em
lugar disso, o homem quer criar e corrigir a obra da natureza, uma obra da qual
ele ainda não entendeu sequer os princípios fundamentais.

Todas essas descobertas e debates estão preocupando os pensadores, teólogos e
filósofos dos tempos modernos. Que vai sair desses laboratórios ameaçadores? Um
ser artificial? Um “cyborg” a ditar ordens implacáveis? Multidões clonizadas
por cópias, como xerox? Seres sem alma? Nada disso! Se forem criadas
artificialmente as condições existentes na mais profunda e sagrada intimidade do
organismo materno, o espírito aí se encarnará, mas o homem não poderá criar a
vida, isto é, um ser humano pensante, mesmo que tente copiá-lo de um já
existente!
(…)

Esse é o quadro que a biologia molecular e a genética estão compondo neste
exato momento em que o leitor lê estas linhas. O homem está brincando é de
aprendiz de feiticeiro e se os poderes espirituais não tomassem as medidas
necessárias, no tempo oportuno, a civilização moderna se suicidaria em poucos
decênios. Muitas dores por certo ainda hão de vir enquanto brilhar a
inteligência divorciada da moral, mas não está muito longe o dia em que Deus vai
mostrar, mais uma vez, que o Universo que Ele criou não anda à matroca, nem
precisa de correções, a não ser aquelas que forem necessárias para corrigir os
desvios provocados pela vaidade humana.

Há, pois, uma urgente necessidade, neste ponto de civilização: uma ética para
a genética.

 

O nosso futuro está sendo jogado em partidas pesadas nos laboratórios do
presente, por homens e mulheres de ciência que têm o seu próprio código de
ética

 

Da Revista Reformador jun/1971

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1998)

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