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Casamento

Casamento

 

O ser humano é uma criatura sociável que necessita do convívio com
outros seres para desenvolver-se e por em prática os ensinamentos adquiridos
numa permuta constante de experiências, e isso é feito em sociedade. A sociedade
como a conhecemos é composta de várias outras sociedades menores que são as
famílias. Uma sociedade sadia só existe com famílias sadias. E as famílias
principiam no casamento.

O resultado natural do amor entre pessoas de sexos diferentes é o
casamento, quando se tem por meta o relacionamento sexual e afetivo, geradores
da família e do companheirismo.

No princípio da relação afetiva o amor-paixão é muito forte
suplantando os demais. À medida que o tempo passa, vai perdendo a sua força
embora permaneça. É quando surge então o amor-companheirismo, aquele amor que se
alegra com a alegria do outro, que fica feliz com a felicidade do outro, onde
nos sentimos bem em privar da sua presença, é quando fazemos o bem sem
esperarmos retribuição. No futuro, restará apenas o amor-companheirismo que se
chamará então Amor Universal.

O casamento representa um alto estágio de evolução do ser, quando se
reveste de respeito e consideração pelo cônjuge, firmando-se na fidelidade e nos
compromissos da camaradagem, independente do tempo de duração deste casamento.

Para o espiritismo o casamento se concretiza pelo compromisso moral
dos cônjuges e é assumido perante o altar da consciência no Templo do Universo.
Naturalmente, o casamento civil é um dever a ser cumprido pelos espíritas,
porque legitima a união perante as leis vigentes, que asseguram ao homem e à
mulher direitos e deveres.

Casar é tarefa para todos os dias, porquanto somente da comunhão
espiritual gradativa e profunda é que surgirá a integração dos cônjuges.

Allan Kardec já compreendia que a família era um importante reduto
para o aprimoramento dos seres, pois reúne ali o ambiente propício para o
aconchego, refúgio, ensinamentos básicos para a vida e tantos outros…
Questiona então o Espírito da Verdade na pergunta 697 em o Livro dos Espíritos:
“Está na lei da Natureza, ou somente na lei humana, a indissolubilidade absoluta
do casamento? É uma lei humana muito contrária à da Natureza. Mas os homens
podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis.”

Poder-se-ia dizer então que o espiritismo não é contrário às
separações, mas avançando nas pesquisas, em o ESE Cap. 22, item 3, Jesus disse
“Não separeis os homens na terra o que Deus uniu nos céus”. A primeira vista
parece que uma afirmativa é contrária a outra.

Deus une os seres na sua forma mais pura, ou seja pelo sentimento – de
coração para coração – a esta união ninguém deve interferir, por ciúmes ou
inveja. Quando vemos um casal feliz, desejamos para nós aquela felicidade, e
isso é natural. Então para conseguir isso, acreditamos que necessitamos nos
relacionar com aquela pessoa. Assim desejamos para nosso cônjuge uma daquelas
pessoas. A harmonia existe porque aquelas almas se completam, qualquer uma delas
com outra pessoa, a harmonia já não seria a mesma, e a felicidade teria uma
intensidade menor. Precisamos entender que para termos a felicidade semelhante a
outro casal, não é necessário destruirmos a união do casal, mas tão somente
atingir o mesmo nível de harmonização.

Àquele casal que já não acalenta mais sentimentos um pelo outro,
manter este convívio em casos extremos, pode acarretar males maiores, a
separação verdadeira já ocorreu em seus sentimentos, a separação de corpos não
será mais que uma oficialização para a sociedade.

Na visão Espírita o Casamento pode ser entendido conforme qualificação
a seguir:

Casual – Primeiro encontro de duas criaturas. Dessa espécie de
casamento tem o casal conseguido levar uma satisfatória relação conjugal. Outros
casais não se adaptando e não suportando as desavenças, separam-se. Sem dúvida
em próxima vida terrena, reencontram-se para uma reconciliação.

Provatório – Reencontro de espíritos de diferentes graus de
adiantamento espiritual, que no passado desentenderam-se, por isso, voltam a
encarnar para superar as provas a que forem submetidos, e progredirem.

Expiatório – Em vidas anteriores marido e mulher erraram muito.
Reencarnam em novo lar, para corrigir os erros co­metidos. E um casamento de
resgate.

Sacrificial – União de um espírito um tanto evoluído com outro menos
evoluído com o fim de auxiliá-lo a progredir.

Afins – Espíritos evoluídos com sentimentos elevados, que se amam
verdadeiramente. Corações afetuosos, juntos com objetivos supremos para, aliados
adiantarem-se espiritualmente.

Não sabemos em qual categoria nos achamos, mas não existe o acaso,
ninguém se acha sob o mesmo teto por mera casualidade.

Deus permite, nas famílias, encarnações de espíritos antipáticos ou
estranhos com o duplo fim de servir de prova a uns e de avanço aos outros. Os
bons tem campo de trabalho. Os maus se melhoram pouco a pouco com os cuidados
que recebem; seu caráter se modifica, os hábitos se melhoram, as antipatias
desaparecem.

Enquanto, marido e mulher não forem “curados” moralmente, as
discórdias conjugais reinarão soberanas, os espíritos trevosos facilmente
atuarão com perversidade, separando casais, prejudicando os filhos já
desorientados e mal educados.

Há a propósito, a história daquele fazendeiro que dizia viver um
casamento muito feliz, opinião que certamente não era compartilhada por sua
esposa, porquanto ele era um impenitente e truculento machista. Dizia ele é tudo
uma questão de começar bem:

Quando casamos, após a festança, montei no meu cavalo, botei minha mulher na
garupa e partimos em lua-de-mel faceiros.

Em dado momento o animal tropeçou e eu disse: – Primeira vez.

Continuamos. Mais algumas centenas de metros e o cavalo voltou a tropeçar.

Segunda vez – disse eu.

Pouco depois, o mesmo problema.

Terceira vez.

Ato contínuo, desmontei juntamente com minha mulher, passei a mão na
espingarda e dei um tiro na cabeça do animal, matando-o.

Ela ficou perplexa. O que é isso?! Matar o pobre cavalo, apenas porque
tropeçou três vezes! Você é um desalmado, um criminoso!…

Enquanto ela extravasava sua indignação eu a olhava muito sério, no fundo de
seus olhos. Então, falei forte:

Primeira vez! E nunca mais tivemos problemas com discussões.

O Espiritismo tem uma grande contribuição em favor da estabilidade
matrimonial, mostrando-nos que, a par dos imperativos da Natureza,
defrontamo-nos, no casamento, com o desafio da convivência, que faz parte de
nosso aprendizado como espíritos eternos.

Além da eliminação das “arestas” produzidas pela nossa própria
inferioridade, a vida em família é, também, um ponto de referência que nos ajuda
a manter o contato com a realidade. As pessoas de nosso convívio apontam nossas
falhas, ajudando-nos a corrigirmos os desvios de conduta.

Só o amor-paixão, o amor-impulso sexual, é instantâneo. O amor de
verdade, o amor-sentimento, é um projeto para a vida toda, e para vingar e
frutificar, pede empenho diligente de duas pessoas que podem ter algumas
afinidades mas, essencialmente, são diferentes, em múltiplos aspectos –
biológico, psicológico, cultural, intelectual, emocional, etc.

Os cônjuges, em sua grande parte, não percebem que na associação
conjugal, uma alma não se funde a outra; assim, permanecerá cada qual com seus
gostos e seus desgostos, caminho afora.

Casar quer dizer adaptar-se ou ajustar-se. Casar é ter os mesmos
ideais, as mesmas preocupações, os mesmos sentimentos e as mesmas aspirações.

Se não há esse entendimento e a convivência vai mal os cônjuges
responsáveis, que pensam nos filhos, concordam que é preciso tentar salvar o
casamento. Recorrem, então, à religião, aos psicólogos, aos amigos, aos
conselheiros matrimoniais.

É preciso praticar a caridade no lar para salvar o casamento. A
meditação, a oração em conjunto, a procura do bem em toda parte, auxiliarão a
paz no lar. Poderíamos defini-la como uma ginástica diária, onde os principais
exercícios são: perdão, tolerância, atenção, respeito e renúncia.

O perdão é o treino da compreensão. Se procurarmos compreender o
familiar, sem o vinagre da crítica, identificaremos em seus momentos menos
felizes a simples exteriorização de conflitos íntimos em que se debate, e não
nos magoaremos.

A tolerância é o treino da aceitação. Cada ser humano está numa faixa
de evolução. Não podemos exigir mais do que tem para dar. E ninguém é
intrinsecamente mau. E preciso lembrar ainda, que as pessoas tendem a
comportar-se da maneira como as vemos. Estar sempre apontando defeitos é a
melhor maneira de fazê-los crescer. Identificar pequenas virtudes é uma forma de
desenvolvê-las.

A atenção é o treino do diálogo. Quando os componentes de uma família
perdem o gosto pela conversa, a afetividade logo deixa o lar. É preciso saber
ouvir, dar atenção ao que dizem os familiares e, principalmente, reconhecer que
nos momentos de divergência eles podem estar com a razão.

O respeito é o treino da educação. É grande o número de lares onde as
pessoas discutem, brigam, xingam-se e até se agridem, gerando uma atmosfera
psíquica irrespirável que torna todos nervosos e infelizes. O problema é falta
de auto-educação, a disciplina das emoções, reconhecendo que sem respeito pelos
outros caímos na agressividade.

A renúncia é o treino da doação. Há algo de fundamental para nós, sem
o que nossa alma definha. Chama-se amor! Quantos lares estariam ajustados e
felizes; quantas separações jamais seriam cogitadas, se num relacionamento
familiar, pais e filhos, marido e mulher, irmãos e irmãs transmitissem carinho
com mais freqüência, àqueles que habitam sob o mesmo teto: “Sabe, eu gosto de
você!” Há muitas maneiras de dizer isso: um bilhete singelo, a lembrança de uma
data, o elogio sincero, o reconhecimento de um benefício, a saudação alegre, a
brincadeira amiga, o prato mais caprichado, o diálogo fraterno, o toque
carinhoso… Tudo isso diz, na eloqüência do gesto, que gostamos do familiar.
Não há nada mais importante em favor da harmonia doméstica. Para tanto é preciso
que aprendamos a renunciar. Renunciar à imposição agressiva de nossos desejos;
renunciar às reclamações e cobranças ácidas; renunciar às críticas ferinas;
renunciar ao mutismo e a cara amarrada quando nos contrariam… Renunciar,
enfim, a nós mesmos, vendo naqueles aos quais a sabedoria divina colocou em
nosso caminho a gloriosa oportunidade de trabalhar com Deus na edificação dos
corações, e recebermos em nosso lar o salário da paz.

Com semelhantes exercícios em torno da caridade descobriremos no lar
afinidades novas, motivações renovadas, afetos insuspeitados, a garantirem uma
vida familiar saudável e feliz.

O lar é o laboratório de experiências nobres em busca de avanços
morais e espirituais, onde os seres se depuram em preparo para realizações mais
elevadas nos Domínios do Criador. Treinamos na família menor habilitando-nos
para o serviço à família maior que constituí a Humanidade inteira.

Emmanuel nos diz: A felicidade existe sim, porém, para usufruí-la no
Outro Mundo, precisamos aqui na Terra admitir “que ninguém pode ser realmente
feliz sem fazer a felicidade alheia no caminho que avança”.

São José

05/05/2002

Bibliografia:

  • Um Jeito de Ser Feliz – Richard Simonetti.
  • Aprendendo Sempre – Jobel Sampaio Cardoso.
  • Vereda familiar – Thereza de Brito (José Raul Teixeira).
  • Amor Imbatível Amor – Joanna de Ângelis (Divaldo Pereira Franco).

 

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