Tamanho
do Texto

É importante planejar um texto?

É importante planejar um texto?

Planejar o texto significa organizar-se e fazer uma previsão do que irá escrever. Essa postura não resulta de curiosidade ou de insegurança. Consciente da importância da conclusão como a parte mais significativa do ensaio ou de outro tipo de texto, é necessário que o autor tenha clareza da seqüência de idéias que vai desenvolver antes de iniciar a redação. Para isso, precisa planejar seu texto. O que norteia a elaboração do plano são, portanto, preocupações muito objetivas. O plano pode ser um rol desorganizado de idéias, que só seu autor entende; ou ainda uma síntese bem organizada, segundo alguns modelos que se fixaram e estão consagrados pelo uso. Veremos aqui os modelos organizados mais usados, para que fique muito clara a importância do planejamento.

1. Organizar e prever
Organizar, em um ensaio, é estruturar idéias em uma seqüência lógica, progressiva e correta, de forma a propiciar ao leitor uma compreensão clara e objetiva do conteúdo do texto.
Prever é elaborar um rol de idéias em seqüência, que propicie um roteiro seguro a quem redige. Esse roteiro deve garantir uma boa organização ao futuro texto.

1a. Facilidade para redigir
O plano, ou o roteiro resultante da preocupação em organizar e prever, não deve ser uma amarra que limite nossa liberdade de expressão ao redigirmos.

O plano, ao contrário, deve funcionar como um guia e liberar o redator para os aspectos mais atraentes do texto, ligados à linguagem.

As pessoas que não têm prática podem acabar gastando muito mais tempo para elaborar o plano do que gastariam se redigissem diretamente o ensaio. Isso é normal. Com a experiência, o tempo gasto vai sendo progressivamente menor. Mas o certo é que a probabilidade de termos um texto bem redigido é sempre maior quando planejamos sua redação.

2. Com o plano na cabeça
Um outro aspecto positivo de se elaborar o plano é a possibilidade de perceber claramente nossos acertos e confusões em relação ao conteúdo do texto. Isso porque ao escrever um roteiro de trabalho já começamos a perceber se a nossa seqüência de idéias é lógica e suficiente para sustentar o texto.

“Tenho boas idéias, mas não sei como escrever.”

Ouvida com bastante freqüência, essa frase pode indicar falta de clareza no conteúdo ou pouco domínio da estrutura do texto. Também pode ser uma indicação de dificuldades de linguagem. Geralmente, ela revela problemas de estrutura de idéias, que o exercício sistemático do plano ajuda a resolver. Se esse for o seu caso, não pense que você é a única pessoa a ter dificuldades para escrever. Até escritores renomados têm momentos de incerteza e dúvida sobre como colocar suas idéias e histórias no papel.

3. Vantagens do plano
O plano nos permite antecipar boas soluções para o conteúdo, a estrutura do texto, a estrutura de idéias e para a terminologia, nos aspectos em que ela tem relação com o conteúdo. Portanto, dos seis critérios de avaliação do ensaio — conteúdo, estrutura do texto, estrutura de idéias, linguagem, terminologia e gramática —, na hora da escrever o texto, o plano pode centrar sua preocupação na linguagem e na gramática.

4. Características do plano
O plano do ensaio precisa ser sucinto e resumido. Essa é a sua principal característica. Ao montá-lo, o redator deve preocupar-se em prever e formalizar suas idéias em pequenos textos, que não são propriamente o produto final, mas que já estabelecem as diretrizes para isso.

5. Apresentação do plano
Não é preciso rigor estético para elaborar um plano. Ele pode ser rascunhado em um pedaço de papel ou estar caprichosamente digitado. O plano é pessoal e seu autor tem de sentir empatia por ele; ou seja, o plano do trabalho deve estar afinado com as idéias e com a futura redação que anuncia.

Para lembrar:

O plano só tem utilidade até o final da redação do texto. Depois disso, ele perde a importância, como as anotações de pesquisa e os rascunhos.

6. Um plano organizado
Embora o autor possa — e na verdade deva — elaborar o seu plano como quiser, é preciso existir nele uma organização. Mesmo que de forma simples, essa organização estará refletida na sua diagramação e em como os itens estão distribuídos e encadeados.

6a. Coerência de idéias
O plano precisa apresentar um princípio de organização de idéias, ou seja, deve ter uma coerência visual que revele o valor da idéia em uma simples olhada. Os modelos de plano apóiam-se nesse princípio de organização.

7. Existe um plano ideal?
O plano ideal é aquele que funciona. E o plano que funciona é aquele que serve como roteiro seguro no momento da redação. Ali está, por escrito, tudo o que pensamos sobre o tema, organizado em seqüência, faltando apenas a nossa redação.

7a. Visualizando o trabalho
Sabemos que o plano elaborado é o ideal quando o olhamos e percebemos com clareza o que é introdução, desenvolvimento e conclusão. Podemos ver também quantos parágrafos terá nosso texto e até quantas linhas serão necessárias para escrever tudo o que queremos.

Essa é uma situação ideal, mas é possível consegui-la desde que escolhamos uma forma de plano que traduza em detalhes todas as nossas expectativas. Ou seja, um plano que preveja as partes do ensaio, os parágrafos e cada uma das linhas.

Existem algumas formas de planos consagradas que procuram garantir essa eficiência.

8. O que o plano deve prever
Só conseguimos montar um bom roteiro quando não temos mais dúvidas sobre o conteúdo. Nessa etapa, todas elas já devem ter sido respondidas e as pesquisas, encerradas. Só falta organizar nossas idéias, na forma do plano, para começar a redigir. O plano bem feito, qualquer que seja a sua forma, precisa prever.

As partes do ensaio — introdução, desenvolvimento e conclusão.
Os blocos de parágrafos, equivalentes a um subtítulo. Se houver subtítulo, este deve ser explicitado no plano (no caso de ensaios longos).
As idéias centrais dos parágrafos.
As idéias e os dados que serão desenvolvidos em cada parágrafo.
Os possíveis desdobramentos de algumas idéias.

Observe que as indicações acima foram colocadas do geral para o particular, ou do mais amplo para o mais específico.

9. Numeração das idéias
Para indicar o valor e o peso de nossas idéias no futuro texto, precisamos de um código que nos auxilie na sua organização. Esse código deve favorecer a idéia de seqüência e nos deixar clara, rapidamente, a amplitude da idéia.

9a. Números e letras
Existem convenções que facilitam a montagem do plano. Em geral usam-se números e/ou letras como códigos de auxílio na organização do roteiro. As formas de plano mais utilizadas são as chamadas forma francesa e forma americana.

Forma francesa — Usa a marcação com números e letras.
Forma americana — Usa a marcação com números e pontos.

10. Plano com números e letras
Nesta forma de plano, é importante o distanciamento da margem esquerda. Quanto mais próxima da margem, mais ampla é a idéia; quanto mais distante, mais específica. Vejamos:

I (Algarismo romano) — Indica a parte do ensaio. Para um ensaio pequeno, teremos:

I — indicando introdução;
II — indicando desenvolvimento;
III — indicando conclusão.

1 (Algarismo arábico) — Indica bloco de parágrafos ou subtítulo. Para um ensaio pequeno, como a introdução terá somente um parágrafo, o número não aparece. Só aparece no desenvolvimento, que tem mais de um parágrafo.

A (Letra maiúscula) — Indica idéia central do parágrafo. Em um ensaio pequeno, a letra A indicará a introdução, o primeiro parágrafo do desenvolvimento e a conclusão. Se o desenvolvimento tiver, suponhamos, quatro parágrafos, teremos A, B, C e D.

a (Letra minúscula) — Indica idéia ou dado do parágrafo. Se um parágrafo tiver sete idéias, por exemplo, usaremos a, b, c, d, e, f e g para indicar na seqüência as idéias. Às vezes, porém, sentimos necessidade de desdobrar uma idéia indicada em letra minúscula. Isso pode acontecer quando queremos indicar dados mais específicos. Nesse caso podemos usar, para a idéia a desdobrada, a1, a2, a3… etc.

11. Um exemplo de como fica o plano
Vamos tomar como modelo hipotético um texto que tenha entre 30 e 40 linhas, um ensaio pequeno, com um parágrafo introdutório, três parágrafos no desenvolvimento e um conclusivo.
Ao aplicar o esquema do plano, ficaria assim:

A Idéia central da introdução
a — 1ª idéia do texto (mais ou menos correspondente à 1ª linha)
b — 2ª idéia do 1º parágrafo
c — 3ª idéia do 1º parágrafo
n — Última idéia do 1º parágrafo
1 Idéia-síntese do desenvolvimento (idéia-síntese dos três próximos parágrafos)
A — Idéia central do 1º parágrafo do desenvolvimento
a — 1ª idéia do 1º parágrafo do desenvolvimento (2º parágrafo do texto)
b — 2ª idéia do 1º parágrafo do desenvolvimento (2º parágrafo do texto)
n — Última idéia do mesmo parágrafo
B — Idéia central do 2º parágrafo do desenvolvimento (3º parágrafo do texto)
a — 1ª idéia do 2º parágrafo do desenvolvimento (3º parágrafo do texto)
C — Idéia central do 3º parágrafo do desenvolvimento…
A Idéia central da conclusão
a — 1ª idéia do parágrafo final
b — 2ª idéia do parágrafo final
n — Última idéia do texto (mais ou menos correspondente à última linha do ensaio)

Para lembrar:

Como a introdução e a conclusão têm apenas um parágrafo, não faz sentido usar algarismo arábico (indicador de idéia-síntese de vários parágrafos), porque essa idéia coincide com A (que é o indicador da idéia central dos parágrafos introdutório e final). Por isso alinha-se na mesma altura do A do desenvolvimento.

Percebemos que há um distanciamento progressivo da margem de I até a (do algarismo romano até a letra maiúscula). Essa disposição é importante porque nos ajuda a visualizar a função das idéias. Preste atenção também na posição dos itens no sentido vertical.

O exercício abaixo exemplifica um plano inicial para o desenvolvimento do texto de Italo Calvino: as letras maiúsculas (A,B,C) indicam as idéias centrais de cada parágrafo; as letras minúsculas correspondentes ilustram as demais idéias desenvolvidas em cada um deles
I A — conferência sobre leveza
a — oposição leveza-peso (a favor da leveza)
b — argumento sobre o peso
c — mais coisas sobre leveza
Esta primeira conferência será dedicada à oposição leveza-peso e argumentarei a favor da leveza. Não quer dizer que considero menos válido o argumento do peso, mas apenas que penso ter mais coisas a dizer sobre a leveza.
II B — definição global de meu trabalho
a — ficção por quarenta anos
b — experimentos diversos
c — definição do meu trabalho
d — subtração do peso
d
1 — figuras humanas
d
2 — corpos celestes
d
3 — cidades
d
4 — estrutura narrativa
d
5 — linguagemC leveza, valor e não defeito
a explicar leveza antes valor que defeito
b — para mim e para os ouvintes
c — obras do passado
d — ideal de leveza
e — valor no presente e projeto no futuro
Depois de haver escrito ficção por quarenta anos, de haver explorado vários caminhos e realizado experimentos diversos, chegou o momento de buscar uma definição global de meu trabalho. Gostaria de propor o seguinte: no mais das vezes, minha intervenção se traduziu por uma subtração do peso; esforcei-me por retirar peso, ora às figuras humanas, ora aos corpos celestes, ora às cidades; esforcei-me sobretudo por retirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem.
Nesta conferência, buscarei explicar — tanto para mim quanto para os ouvintes — a razão por que fui levado a considerar a leveza antes um valor que defeito; direi quais são, entre as obras do passado, aquelas em que reconheço o meu ideal de leveza; indicarei o lugar que reservo a esse valor no presente e como o projeto no futuro.

Italo Calvino, Seis Propostas para o Próximo Milênio

O gráfico acima indica a disposição das idéias no plano com números e letras: quanto mais próxima da margem, mais geral e ampla é a idéia; quanto mais distante, mais particular e específica

11a. Os números
O item em algarismo arábico indica apenas a consciência da estrutura (idéia central do desenvolvimento). O que se escreve nesse item só aparecerá redigido no ensaio se houver subtítulo, o que não é o caso de um ensaio pequeno. O mesmo ocorre com o que se escreve depois das letras minúsculas (idéia central dos parágrafos). Se houver intenção de redigir essas idéias no ensaio, elas devem ser repetidas nas letras minúsculas.

12. O que se escreve no ensaio
O que realmente aparece no texto são as idéias indicadas com letras minúsculas. E se cada item em letra minúscula corresponde a aproximadamente uma linha do ensaio, isso significa que podemos planejá-lo linha por linha.

13. A linguagem do plano
A linguagem do plano — que deve ser resumida, quase telegráfica — não interfere na linguagem do texto necessariamente. No plano, podemos até mesmo usar palavras abreviadas, já que sua utilização é pessoal. No texto não se deve abreviar, a não ser abreviaturas consagradas, como “séc. XX”, “S/A” etc.

14. Problemas com o plano
O problema com esse modelo de plano é que acaba sobrando muito espaço em branco à esquerda do papel. No planejamento de um texto curto não há muito problema. Mas, em um texto longo, a compreensão pode ficar prejudicada. Por economizar mais espaço, e ser de fácil diagramação, costuma-se utilizar mais a forma de plano com números e pontos.

15. Outra forma de plano
O plano tem uma utilização pessoal. Em alguns casos é necessário apresentá-lo a um leitor, mas de um modo geral ele serve apenas para o autor organizar suas idéias e prever seu texto. Quando cumpre essa função, o autor pode dar-lhe a forma que quiser, desde que se entenda com suas idéias. Seja como for, o plano dificilmente fugirá dos princípios apresentados nos modelos mais usados, que se fixaram exatamente porque são eficientes. É o que acontece com o plano de números e pontos.

16. Plano com números e pontos
Visualmente menos claro que o anterior, este modelo obedece ao mesmo princípio estético: mais próxima da margem, mais ampla e geral a idéia. Vamos compará-lo com o modelo anterior:

Plano com Números e Pontos Plano com Números e Letras
1. I –
1.1. 1 –
1.1.1. A –
1.1.1.1. a –
1.1.1.1.1. a1

Para fixar melhor o significado:

1. Introdução
2. Desenvolvimento
3. Conclusão
2.1. Indica bloco de parágrafos do desenvolvimento
2.1.1. Indica idéia central do 1º parágrafo do desenvolvimento
2.1.1.1. Indica 1ª idéia do 1º parágrafo do desenvolvimento
No mesmo plano, observe a posição dos itens no sentido vertical, como indica o gráfico acima: os primeiros itens são os mais próximos da introdução

16a. Como numerar
No caso da introdução de apenas um parágrafo, não há indicação para o segundo algarismo (idéia-síntese de vários parágrafos). A notação seria assim:

1. Introdução
1.0.1. Idéia central do parágrafo introdutório
1.0.1.1. 1ª idéia
1.0.1.2. 2ª idéia

até

1.0.1.n. Última idéia desse parágrafo


O mesmo vale para a conclusão. Se tem apenas um parágrafo, usaremos 0 no lugar do número que indicaria idéia-síntese de vários parágrafos. Por exemplo, a notação da quarta idéia do parágrafo conclusivo seria assim: 3.0.1.4.

O 3. indica que é conclusão; 0. indica que há apenas um parágrafo; 1. indica o parágrafo; e 4. indica a quarta idéia.

Parece uma tarefa complicada, mas não é. Entendido o princípio, é preciso utilizar essa forma de plano para perceber melhor sua utilidade. Como quase tudo em redação, só a prática é que vai mostrando que aquilo que parece difícil na verdade não o é.

17. Outras formas de plano
As formas de plano são praticamente infinitas. Nada impede que cada autor crie a sua, já que é de utilização pessoal. É até comum vermos planos com números, letras e pontos.

Mas quando precisamos apresentar o plano para alguém, é melhor seguir uma das numerações consagradas para facilitar o entendimento do leitor.

Isso acontece, por exemplo, em colégios e faculdades, quando professores querem acompanhar o trabalho do aluno e saber o que ele anda pensando sobre o texto que será escrito.

17a. E se o plano não dá certo?
Quando não há muita prática de planejar o texto, pode acontecer que, na hora de redigir, o plano não funcione muito bem. Por exemplo, uma idéia não se encaixa no texto ou fica melhor no parágrafo seguinte. Nesse caso, não tenha dúvida, mude o plano.

Plano é para isso mesmo, serve como um referencial de nossa redação. Com certeza da próxima vez o plano chegará mais perto do texto final.

18. Semiplano
De início, os planos devem ser minuciosos, prevendo tudo, linha por linha do ensaio. Com o tempo, conforme a experiência, pode-se abrir mão de tanta minúcia, prevendo apenas idéias centrais dos parágrafos, por exemplo. Com mais experiência ainda, quando já se redigem ensaios longos, é possível planejar somente subtítulos.

O plano pode ser mais ou menos resumido, mas ele tem de ser feito.

A opção por um plano simplificado se conquista com o esforço de conhecer bem como organizamos nossas idéias, o que se consegue com mais facilidade se aprendermos a planejar bem.

Glossário

Empatia: ligação, identificação.
Minúcia: pormenor; coisa muito pequena ou insignificante, ninharia.
Referencial: que constitui ou que contém referência; que é aquilo a que se refere, conta ou relata; alusão, menção.

Copyright Klick Net S.A. Todos os direitos reservados.

Você gostou deste conteúdo?

Todo o conteúdo produzido pela Fundação Espírita André Luiz é aberto e gratuito e, com a sua ajuda, sempre será.

Ao todo são transmitidas 180 horas mensais de programas ao vivo e 240 horas mensais de programas inéditos através de nossos canais de comunicação: Rádio Boa Nova, Tv Mundo Maior e Portal do Espírito. Nós acreditamos que o acesso aos ensinamentos da doutrina espírita muda o mundo, mas manter uma estrutura deste porte é muito caro, por isso a importância do apoio de nossos leitores.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que pessoas que não podem pagar pela informação continuem tendo acesso a ela.

Ajude o espiritismo a alcançar mais pessoas

Apoie essa causa <3
logo_feal radio boa nova logo_mundo_maior_editora tv logo_mundo_maior_filmes logo_amigos logo mundo maior logo Mercalivros logo_maior