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A Análise do Amor

Normalmente se pensa no amor como um sentimento único, uma meta a ser
atingida num futuro remoto. Entretanto, é multifacetado e apresenta-se em
diversos níveis, estando ao alcance de todos os seres. Entre os animais, a fêmea
que zela pelos filhotes, tendo unicamente o instinto como fio condutor, pratica
um tipo de sentimento. Os animais gregários estabelecem esquemas de defesa baseados
ainda nesse nível de amor primário.

A confusão em torno da palavra fez-se tão grande que já é comum dizer-se
“fazer amor”.  Se faz sexo, que é também um tipo de amor. O
corpo carnal é veículo de sensações. Prazer e dor são sensações conduzidas pelo
sistema nervoso ao cérebro e daí a informação segue para o Espírito via
perispírito. As emoções, os sentimentos, são atributos do ser espiritual. A
alegria e o sofrimento moral não são propriedades da matéria, embora possam ter,
e freqüentemente têm seus reflexos no corpo carnal.

Todos os sentimentos mais elevados tais como a amizade, simpatia,
consideração, generosidade e altruísmo, são manifestações desse sentimento
multifacetado a que nos referimos. O próprio ato sexual pode ser praticado com
ou sem amor em suas diferentes nuances. O mais comum ainda é o sexo feito
unicamente como mecanismo de vazão de exigências vitais. Uma descarga nervosa e
emocional que contribui para o (re)equilíbrio do psiquismo humano, dada nossa
condição evolutiva.

Jesus amou incondicionalmente a humanidade e igualmente a todos, exercendo o
Amor-síntese, só possível a uma criatura que reúne em si todos os sentimentos
nobres. Amou também a Maria Madalena, a cortesã iludida pelos prazeres mundanos,
cuja alma migrou do amor sensual para o amor espiritual sob a influência do
Cristo.

Allan Kardec abordou a questão inserindo-a em O Evangelho Segundo o
Espiritismo (Introdução, item XVI) apoiando-se em Sócrates e Platão: “O amor,
que deve unir os homens por um laço fraternal, é uma conseqüência dessa teoria
de Platão sobre o amor universal como lei natural. Sócrates, tendo dito que “o
ele não é um deus nem um mortal, mas um grande demônio”, quis dizer que um
grande Espírito preside ao  universal. Esta afirmação lhe foi sobretudo
imputada como crime. Como se vê, por amor e pelo amor muitos já deram a vida.

Não nos parece razoável buscar o amor crístico sem antes nos exercitarmos nos
níveis menores, praticando-o nas pequenas coisas ao ponto de, como
Francisco de Assis, integrar-se no todo chamado o sol, a lua, a estrela, a água
e o fogo de irmãos. Deveremos ainda lutar contra o exagerado egocentrismo, tão
profundo e comum como há dois mil anos. Este é o trabalho do tempo e do esforço
pessoal. Os filósofos e os poetas têm o poder de superar as barreiras do
convencionalismo e dos preconceitos enxergando ao longe e em profundidade, tal
como Thiago de Melo ao escrever seu Arabesco: “Já próximo escutamos o rumor dos
cavalos que correm pela treva.

Até agora, porém, nada aprendemos:

Não conquistamos nem a paz dos loucos, nem a mudez das fragas solitárias.

E enquanto a noite enorme nos ronda estende suas mão para afagar-nos, na
areia das palavras desenhamos o arabesco invisível desta mágoa: Somos frágeis
demais e não sabemos sequer o que nos falta para sermos completos como um deus –
ou como um pássaro” (Thiago de Melo, Narciso Cego, página 31).

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