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A Circuncisão Entre os Primeiros Cristãos

A Circuncisão Entre os Primeiros Cristãos

Lendo um texto que chegou às nossas mãos para uma análise, encontramos a
afirmativa de que Pedro por ser um judeu convicto exigia a circuncisão dos
candidatos ao Cristianismo, ou seja, primeiramente exigia a conversão ao
Judaísmo. Embora não tivesse nenhuma informação a respeito, algo nos dizia que
poderia não ser bem assim.

Posteriormente em diálogo sobre essa questão com um teólogo amigo, ele também
defendeu essa idéia. Por isso fizemos uma pesquisa no Novo Testamento para
inteirarmos do assunto, e assim formar uma opinião.

De início fomos alertados para ter todo o cuidado ao fazer este texto sobre
esse assunto, pois no meio teológico isso era questão fechada. Que qualquer
coisa em contrário àquela idéia cairia como uma bomba.

Não estamos nem um pouco preocupados com a possível repercussão que isso
possa causar, se é que irá causar alguma, já que para nós a verdade é muito mais
importante do que a opinião de teólogos comprometidos com um dogmatismo
sectário. Exporemos nosso pensamento mesmo que isso venha a contrariar opiniões
anteriores, inclusive de pessoas com maior cabedal do que nós sobre esses
assuntos teológicos.

Mas, por outro lado, se, de vez em quando, não aparecesse alguém trazendo
idéias novas, ficaríamos presos aos conceitos do passado, muitas vezes
equivocados ou mesmo absurdos. Veja, por exemplo, o caso de Galileu Galilei, a
pretexto de toda a adversidade, veio trazer a lume sua ciência. Entretanto, como
muitas vezes ocorre, queriam que silenciasse sobre suas idéias, chegando a ponto
de quase o colocar numa fogueira. Ele é somente um exemplo, explico, pois não
podemos admitir que você pense que nós estamos querendo nos igualar a ele.

Iremos colocar como essa questão era tratada antes, durante e depois do
Concílio de Jerusalém, tendo como principais protagonistas Pedro, Paulo e Tiago.

Definição de circuncisão

Podemos encontrar o conceito de circuncisão no Dicionário Prático constante
da Bíblia Sagrada, Edição Barsa: é a ablação da pele que cobre a glande do
pênis. Tanto para os pagãos como para os judeus era cerimônia religiosa. Para os
judeus foi estabelecida por Deus como sinal da aliança com Abraão (Gen 17, 10;
At 7, 8). Todos os meninos judeus deviam ser circuncidados no oitavo dia após o
nascimento (Lev 12, 3). Sendo Jesus descendente de Abraão, submeteu-se à Lei. A
mãe, o pai, ou um sacerdote podia operar este rito.

O que acontecia antes do Concílio de Jerusalém

Verificaremos o que acontecia antes do Concílio de Jerusalém que resolveu a
questão da circuncisão. Nossos personagens são: Pedro, Paulo e algumas pessoas
não exatamente identificadas, a não ser que eram fariseus da Judéia.

a) Pedro

Atos 2, 38: Pedro lhes respondeu: “Convertei-vos e cada um peça o
batismo em nome de Jesus Cristo, para conseguir perdão dos pecados. Assim
recebereis o dom do Espírito Santo”

Atos 10, 44-48; Pedro ainda falava, quando o Espírito Santo desceu
sobre todos os que escutavam seu discurso. Os fiéis de origem judaica, que
tinham ido de Jope a Pedro, ficaram admirados por verem que o dom do Espírito
Santo tinha sido derramado também sobre os não-judeus. De fato, eles os ouviam
falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Então Pedro disse: “Quem poderá
recusar a água do batismo a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma
que nós?” E decidiu que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.

Atos 11, 1-3: Os apóstolos e os irmãos que viviam na Judéia
souberam que também os não-judeus tinham recebido a palavra de Deus. Assim,
quando Pedro subiu a Jerusalém, os fiéis de origem judaica o atacaram, dizendo:
“Entraste na casa de pessoas não circuncidadas e comeste à mesa com eles”.

Não encontramos, em momento algum, qualquer citação de que Pedro pregava a
circuncisão. Ele, inclusive, admitiu como cristãos a família de Cornélio sem
exigir a circuncisão, apenas foram batizados no Espírito Santo, que consistia na
imposição das mãos, conforme podemos ver Paulo fazer (Atos 19, 1-7), que citamos
mais abaixo. Pregava o batismo. A única acusação que recebeu foi de comer com os
pagãos, mas se defende: “Vós sabeis que não é permitido aos judeus reunir-se
com estrangeiros e nem sequer aproximar-se deles. Mas Deus mostrou que não devo
considerar ninguém estrangeiro ou impuro
” (Atos 10, 28).

Especificamente quanto ao batismo era o do Espírito Santo, que consistia na
imposição das mãos, providência que, ao que tudo indica, abria a percepção
psíquica da pessoa que mediunizada (recebia um Espírito Santo), passava a falar
em línguas como podemos observar sobre esse batismo em Atos 10, 44-48, e
confirmar em Atos 11, 15-17: Ora bem, apenas comecei a falar, desceu o
Espírito Santo sobre eles da mesma forma que sobre nós, no princípio. Foi então
que me lembrei da declaração do Senhor, quando disse: “É verdade que João
batizou com água
, mas vós sereis batizados no Espírito Santo”.

Portanto, se Deus deu a eles o mesmo dom que a nós, por termos abraçado a fé no
Senhor Jesus Cristo, quem era eu para impedir a ação de Deus?

Uma parte do trecho de Atos 10, 44-48, que citamos um pouco atrás, ao que
parece sofreu uma interpolação, talvez por quererem justificar o batismo com
água. Vejamos, o texto em análise: Então Pedro disse: “Quem poderá recusar a
água do batismo a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós?”
E decidiu que fossem batizados em nome de Jesus Cristo
. Se dele retirarmos a
expressão “a água do batismo” o texto estaria mais coerente em sua estrutura e
significado, senão vejamos: “Quem poderá recusar a esses, que receberam o
Espírito Santo da mesma forma que nós?” Assim, percebemos que “a água do
batismo” não tem nada a ver com a questão colocada por Pedro que questionava de
essas pessoas iriam ser recusadas mesmo depois de terem recebido o “dom do
Espírito Santo”.

Para a confirmação do batismo no Espírito Santo, podemos acrescentar, ainda,
as duas passagens abaixo para ficar bem evidenciado qual o batismo que
praticavam:

Atos 1, 5: Porque João batizava com água; vós, porém, sereis
batizados no Espírito Santo
, dentro em poucos dias.

Atos 19, 1-7: Enquanto Apolo se achava em Corinto, Paulo, depois de
percorrer as regiões montanhosas, chegou a Éfeso e lá encontrou alguns
discípulos. E perguntou-lhes: “Recebeste o Espírito Santo quando abraçastes a
fé?” Eles responderam: “Mas nem sequer ouvimos dizer que existe um Espírito
Santo”. Ele continuou: “Então, que batismo recebestes?” Eles replicaram: “O
batismo de João”. Paulo explicou: “João dava um batismo de conversão, dizendo ao
povo que devia crer naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus”. Ouvindo
isto, foram batizados no nome do Senhor Jesus. E quando Paulo lhes impôs
as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles e começaram a falar em diversas
línguas e a profetizar
. Eram ao todo cerca de doze pessoas
.

b) Alguns Convertidos

Atos 15, 1: Alguns indivíduos que tinham chegado a Judéia começaram
a ensinar aos irmãos o seguinte: “Se vós não receberdes a circuncisão, conforme
a lei de Moisés, não podereis ser salvos”.

Atos 15, 5: Contudo, algumas pessoas do grupo dos fariseus, que
tinham abraçado a fé, intervieram para sustentar que era preciso circuncidar os
pagãos e mandar que seguissem a lei de Moisés.

Essas passagens são as que provam que alguns indivíduos do grupo dos fariseus
(as pessoas citadas acima são as mesmas) queriam impor a circuncisão àqueles que
se convertiam ao cristianismo. Entretanto, não existe identificação de quem eles
eram, portanto, não podemos supor que entre eles estava Pedro. Ou que Pedro os
tenha instruído sobre isso, pois viria contrariar o que já colocamos a respeito
da maneira que ele agia. Não vemos nenhuma coerência nisso, pois como um
discípulo direto de Jesus iria propor a circuncisão, já que não recebeu este
ensinamento do Mestre? O mais lógico seria Paulo, judeu por nascimento,
anteriormente fiel cumpridor dos preceitos de Moisés, que inclusive perseguia os
cristãos, exatamente por ter esta convicção, uma vez que não foi discípulo de
Cristo, mas apóstolo. Apesar disso contrariando essa lógica, era quem mais
defendia que não havia necessidade da circuncisão.

Vejamos o que consta em nota de rodapé na Bíblia Sagrada, Edição Pastoral,
que vem a confirmar o que estamos dizendo:

“Enraizada no ambiente judaico e pagão, a Igreja enfrenta o primeiro grande
conflito. Os cristãos provenientes do judaísmo continuavam praticando a
circuncisão e observando as prescrições da Lei. A evangelização não obrigava os
pagãos convertidos a esses costumes judaicos. Contudo, alguns de Jerusalém
(fariseus convertidos – cf. v. 5) começaram a ensinar que também os pagãos, para
se salvarem, deviam observar as mesmas coisas que os judeus convertidos. Em
outras palavras, primeiro deviam ser “judaizados” e depois cristianizados. A
questão era muito séria; os costumes judaicos pertencem à essência da mensagem
cristã? Até que ponto a ação missionária da Igreja transmite o Evangelho, ou
confunde o Evangelho com determinado contexto sociocultural, impondo a um povo a
cosmovisão de outro: O Evangelho é fermento libertador, e não super-estrutura
que aprisiona e perverte a alma de um povo”.

E, como conseqüência desta divergência, é “convocado” o Concílio de
Jerusalém.

c) Paulo

Atos 15, 1-2: Alguns indivíduos que tinham chegado a Judéia
começaram a ensinar aos irmãos o seguinte: “Se vós não receberdes a circuncisão,
conforme a lei de Moisés, não podereis ser salvos”. Paulo e Barnabé protestaram,
travando uma discussão muito forte com eles. Por isso ficou resolvido que Paulo
e Barnabé, acompanhados de alguns deles, iriam a Jerusalém para tratar a questão
com os apóstolos e os presbíteros
.

Tendo chegado a Antioquia estes fariseus exigiam a circuncisão, entretanto a
posição de Paulo (e Barnabé) quanto a isso fica muito clara nessa passagem.
Protestaram contra os que queriam exigir a circuncisão, daí é que surge o
Concílio de Jerusalém.

O Concílio de Jerusalém

Aconteceu no ano de 49 d.C, para resolver, de uma vez por todas, a questão da
circuncisão dos pagãos convertidos ao cristianismo. Figuras principais deste
Concílio foram Pedro, Paulo e Tiago, que tiveram oportunidade de expor suas
idéias perante o Concílio, vejamos:

a) Pedro

Atos 15, 7-11: Depois de uma longa discussão, Pedro se levantou e
lhes disse: “Irmãos! Sabeis que desde muito tempo Deus fez uma escolha entre
vós: que os pagãos ouvissem de minha boca o Evangelho e abraçassem a fé. E Deus,
que conhece os corações, manifestou-se em favor deles, dando-lhes o Espírito
Santo do mesmo modo que a nós, sem fazer nenhuma distinção entre nós e eles,
depois de purificar seus corações pela fé. Por que agora tentais a Deus, impondo
aos discípulos um peso que nem nossos pais nem nós mesmos pudemos suportar? Mais
uma vez: pela graça do Senhor Jesus é que nós cremos ter alcançado a salvação,
exatamente como eles”.

Ao questionar sobre os que queriam impor aos outros os preceitos da Lei
Mosaica, diz que quem agia desta maneira estava tentando a Deus. E, para ser
coerente com o que já vinha fazendo na prática, não poderia agir de outro modo.

Na pratica Pedro também não concordava com a imposição de se fazer a
circuncisão aos convertidos, isso fica mais claro quando recorremos à Bíblia
Sagrada, Edição Pastoral, numa de suas notas explicativas, ao rodapé da página:

“O discurso de Pedro é fundamental e contém a orientação conciliar. Pedro
parte de fatos concretos: ele foi o primeiro evangelizador dos pagãos e
compreendeu que Deus não faz distinção entre pagão e judeu (cf. At. 10, 34,
44-47), mas concede a ambos o mesmo Espírito Santo que leva o homem a seguir
Jesus. Depois, Pedro salienta que os costumes judaicos são um jugo, isto é, um
elemento cultural que não deve ser imposto aos pagãos, pois o que salva a todos
é a graça que leva à fé em Jesus Cristo. Barnabé e Paulo reforçam o testemunho
de Pedro”.

Aqui fica mais evidente ainda que Pedro e Paulo não eram divergentes quanto à
essa questão. E, que, no princípio, Pedro pregou também aos pagãos.

b) Paulo

Atos 15, 12: Toda a assembléia ficou em silêncio e escutou a
Barnabé e Paulo relatarem todos os sinais e prodígios que Deus tinha feito entre
os pagãos por meio deles.

Paulo, nesse momento, relata tudo o que aconteceu a ele e Barnabé quando
estavam a divulgar o Evangelho do Cristo. Aí coloca, com certeza, o que faziam
sobre o assunto do concílio, explicando que eram totalmente contra essa prática.

c) Tiago

Atos 15, 13-20: Quando acabaram de falar, Tiago tomou a palavra e
disse: “Irmãos, escutai-me! Simão acabou de explicar como Deus, logo de início,
se dignou separar dentre os pagãos um povo consagrado a Ele. Isto concorda com a
palavra dos profetas, porque está escrito: Depois disso, voltarei e
reconstruirei a tenda arruinada de Davi. Reedificarei as suas ruínas e as
reerguerei. Os outros homens irão procurar o Senhor, como também as nações que
foram consagradas pela invocação de meu Nome. Assim fala o Senhor, que faz essas
coisas conhecidas desde os tempos mais antigos. Julgo, por isso, que deixeis de
molestar os que se convertem do paganismo para Deus. Basta lhes escrever que não
se contaminem com a idolatria ou uniões ilegais, nem tampouco comendo sangue ou
carne de animais estrangulados. Porque desde muito tempo a Lei de Moisés está
sendo lida e proclamada todos os sábados nas sinagogas de cada cidade”.

Tiago, depois de ouvir Pedro e a Paulo, toma posição favorável a não haver
necessidade de circuncidar os convertidos. Mas, algumas exigências da Lei
Mosaica ficaram ainda em vigor, entretanto não estavam relacionadas ao problema
da circuncisão. Foram elas: abster da carne imolada dos ídolos, do uso do sangue
e da carne de animais estrangulados e das uniões ilegais.

d) Decisão do concílio

Atos 15, 22-29: Os apóstolos, presbíteros e toda a assembléia
resolveram então escolher entre eles alguns homens e enviá-los a Antioquia junto
com Paulo e Barnabé. Eram eles: Judas, Barsabás e Silas, homens de muito
prestígio entre os irmãos. Por seu intermédio lhes foi enviada a seguinte carta:
“Os apóstolos e presbíteros, vossos irmãos, aos irmãos que moram em Antioquia,
na Síria e na Cilícia, provenientes do paganismo. Saudações. Fomos informados de
que alguns dos nossos, sem nossa autorização, vos foram inquietar com certas
afirmações, criando confusão em vossas mentes. Resolvemos por unanimidade
escolher alguns representantes e enviá-los a vós, junto com nossos queridos
irmãos Barnabé e Paulo. Estes dois têm dedicado suas vidas à causa de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Enviamos, pois, Judas e Silas, para vos transmitir de viva
voz as mesmas diretivas. Porque o Espírito Santo e nós mesmos decidimos não vos
impor nenhum outro peso além do indispensável: abster-vos da carne imolada dos
ídolos, do uso do sangue e da carne de animais estrangulados e das uniões
ilegais. Fareis bem evitando isto tudo. Passai bem!”.

A opinião de Tiago acaba por ser a decisão final do Concílio, que para ficar
bem registrada e para que todos pudessem cumprir a decisão tomada deu origem a
uma carta que foi enviada aos convertidos do paganismo que moravam em Antioquia,
na Síria e na Cilícia.

Acontecimentos após o Concílio de Jerusalém

a) Paulo em Listra

Atos 16, 1-3: Paulo chegou a Derbe, depois a Listra. Encontrava-se
ali um discípulo chamado Timóteo, filho de mulher judia mas cristã, e de pai
grego. Os irmãos de Listra e Icônio falavam bem dele. Paulo resolveu que ele o
acompanhasse. Mas antes o circuncidou, por consideração aos judeus daquelas
regiões: pois todos sabiam que seu pai era grego.

Aqui não dá para entender a atitude de Paulo, vejam bem: além de ser
declaradamente contra a circuncisão, estava, naquele momento, de posse da Carta
com a decisão do Concílio de Jerusalém, mesmo assim faz a circuncisão de
Timóteo, que tinha mãe judia mas, cristã e apenas o pai era grego.

b) Paulo em outras localidades

Atos 19, 1-7: Enquanto Apolo se achava em Corinto, Paulo, depois de
percorrer as regiões montanhosas, chegou a Éfeso e lá encontrou alguns
discípulos. E perguntou-lhes: “Recebeste o Espírito Santo quando abraçastes a
fé?” Eles responderam: “Mas nem sequer ouvimos dizer que existe um Espírito
Santo”. Ele continuou: “Então, que batismo recebestes?” Eles replicaram: “O
batismo de João”. Paulo explicou: “João dava um batismo de conversão, dizendo ao
povo que devia crer naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus”. Ouvindo
isto, foram batizados no nome do Senhor Jesus. E quando Paulo lhes impôs as
mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles e começaram a falar em diversas línguas
e a profetizar. Eram ao todo cerca de doze pessoas.

Atos 21, 19-21: Depois de saudar a todos, Paulo contou
minuciosamente tudo quanto Deus tinha feito entre os pagãos através de seu
serviço. Ouvindo isso, glorificaram a Deus e lhe disseram: “Vês, irmão, quantos
milhares de judeus abraçaram a fé e, no entanto, são todos cuidadosos
observadores da Lei. Mas eles ouviram dizer a teu respeito que ensinas todos os
judeus dispersos entre os pagãos a romperem com Moisés, dizendo-lhes que não
devem circuncidar seus filhos nem observar as tradições. Que vamos fazer? Sem
dúvida, virão a saber de tua chegada. Faze o que te vamos sugerir: há entre nós
quatro homens com um voto a cumprir. Leva-os contigo, cumpre com eles o rito da
purificação e paga por eles as despesas para raparem a cabeça. Assim, todos
saberão que não há nenhum fundamento no que ouviram dizer a teu respeito e que,
pelo contrário, vives corretamente observando a Lei. Quanto aos pagãos que
abraçaram a fé, comunicamos por escrito o que tínhamos decidido, que se
abstenham de carne sacrificada aos ídolos, de carne de animais sufocados, de
sangue e de uniões ilegais”. Paulo, então, levou consigo aqueles homens e, no
dia seguinte, depois de purificar-se com eles, entrou no Templo para comunicar o
término dos dias da purificação, quando seria apresentada a oferta em nome de
cada um deles.

Após o vacilo inicial com a circuncisão de Timóteo, Paulo pregava o batismo
do Espírito Santo, e coerente continuou defendendo a questão da não circuncisão,
como fica demonstrado nessas passagens e nas que se seguem.

c) As recomendações de Paulo por Cartas

Romanos 2, 25-29: A circuncisão é de fato útil, se cumpres a Lei.
Mas, se lhe desobedeces, a tua circuncisão se transforma em incircuncisão! Se o
que não foi circuncidado observa os mandamentos da Lei, porventura ele não será
contado como um dos circuncisos? De fato, quem não é circuncidado fisicamente,
mas cumpre a Lei, estará te condenando a ti, que possuis a letra da Lei e a
circuncisão e não obstante transgrides a Lei. O verdadeiro judeu não se nota só
pelo exterior, assim como a verdadeira circuncisão não está só na marca visível
da carne. O verdadeiro judeu é quem o é no seu interior, assim como a verdadeira
circuncisão é a do coração, vivida segundo o espírito e não segundo a letra da
Lei. Embora ele não seja elogiado pelos homens, é elogiado por Deus.

Romanos 3, 1-2: Portanto, que vantagem tem o judeu, ou que proveito
traz a circuncisão? Traz grande proveito, sob todos os aspectos. Em primeiro
lugar, porque as palavras divinas lhe foram confiadas.

Romanos 3, 30: Realmente existe um só Deus que justificará, pela
fé, os circuncidados e pela mesma fé os que não estão circuncidados.

Romanos 4, 9-12: Esta felicidade valerá só para os circuncidados,
ou também para os não circuncidados? De fato, nós afirmamos que a fé de Abraão
lhe foi creditada para justificação. Mas como é que ela foi creditada em seu
favor? Depois de circuncidado ou antes de circuncidado? Não foi depois da
circuncisão, mas antes! De modo que ele recebeu o sinal da circuncisão como selo
da justificação, conseguida já antes de circuncidado, por força da fé. Assim é
que se tornou o pai de todos os crentes não circuncidados, para que também a
eles fosse creditada a justificação. Pai também dos circuncidados: não só dos
que pertencem ao povo dos circuncidados, mas também dos que seguem as pegadas da
fé que nosso pai, Abraão, tinha antes de ser circuncidado.

Romanos 15, 8-9: Eu vos afirmo, pois, que Cristo se fez servo dos
circuncidados como prova de que Deus é fiel em cumprir as promessas feitas aos
antepassados. E as nações pagãs glorificam a Deus por sua misericórdia como está
escrito: Por isso te glorificarei entre as nações pagãs e cantarei louvores ao
teu Nome.

1 Coríntios 7, 17-20: No mais, que cada um continue a viver como
Deus lhe deu ou como Deus o chamou. É isto o que ensino em todas as Igrejas.
Alguém era circunciso quando foi chamado? Não disfarce a marca da circuncisão. E
alguém era incircunciso quando foi chamado? Não se faça circuncidar. A
circuncisão é nada, e o prepúcio também; mas o que vale é a observância dos
mandamentos de Deus. Que cada um fique na condição em que foi chamado.

Gálatas 2, 3: Ora, nem mesmo Tito, meu companheiro, que é grego foi
obrigado a se circuncidar. Ele o seria por causa dos falsos irmãos, intrusos que
se tinham infiltrado para espionar a liberdade que possuímos em Cristo Jesus,
com a intenção de reduzir-nos à escravidão…

Gálatas 2, 14-16: Então, ao ver que não procedia direito, de acordo
com a verdade do Evangelho, eu disse a Cefas na presença de todos: “Se você, que
é judeu, segue os costumes pagãos e não os judaicos, como pode obrigar os pagãos
a seguir costumes judeus?” Nós, de nascimento, somos judeus e não pecadores do
paganismo. No entanto, por sabermos que ninguém é justificado pela prática da
Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo, nós abraçamos a fé em Cristo Jesus
para sermos justificados em virtude da fé em Cristo e não em virtude da prática
da Lei. É que ninguém se tornará justo pela prática da Lei.

Gálatas 5, 2-6: Sim, eu, Paulo, vos digo: Se vos fizerdes
circuncidar, Cristo de nada vos servirá. Atesto de novo a todo aquele que se
deixa circuncidar que ele está obrigado a observar toda a Lei. Rompestes com
Cristo, vós todos que procurais a justiça na Lei; fostes degradados da graça.
Quanto a nós é do Espírito e pela fé que aguardamos a justiça esperada, pois em
Cristo nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a fé
animada pela caridade.

Gálatas 6, 15: Pois ser circuncidado ou não ser, nada importa; o
que importa é ser uma nova criatura.

Filipenses 3, 2-3: Cuidado com os cães! Cuidado com os maus
operários! Cuidado com os fanáticos da circuncisão! Os circuncisos, somos nós,
que em espírito prestamos culto a Deus, que colocamos nossa glória em Cristo
Jesus e não depositamos a confiança meramente legal!

Colossenses 2, 8-11: Ficai atentos, para que ninguém vos arme uma
cilada com a filosofia, esse erro vazio que segue a tradição dos homens e os
elementos do mundo e não segue a Cristo. De fato, é nele que toma corpo toda a
plenitude da divindade, e nele participais, repletos de plenitude dele que é a
cabeça de toda Autoridade e de todo Poder. Vós fostes também circuncidados nele,
com uma circuncisão que não foi efetuada por mãos humanas, mas coma a
circuncisão de Cristo, pelo despojamento do corpo carnal.

Em todas as cartas a recomendação básica aos destinatários era a mesma: não
havia necessidade de se fazer a circuncisão.

O provável erro Teológico

Isolamos, propositalmente, uma passagem bíblica sobre a circuncisão, pois
nesta será necessário colocarmos como a encontramos em diversas Bíblias, já que
isso é de fundamental importância para o nosso assunto em análise.

A passagem é de Gálatas 2, 7-10, retiradas das Bíblias:

Edição Barsa, 1ª forma: Antes, pelo contrário, tendo visto
que me havia sido encomendado o Evangelho da incircuncisão, como também a
Pedro o da circuncisão: (porque o que obrou em Pedro para o apostolado da
circuncisão, também obrou em mim para com as gentes) E como Tiago, e Cefas, e
João, que pareciam ser as colunas, conheceram a graça que me havia dado, deram
as destras a mim, e a Barnabé, em sinal de companhia: para que nós fôssemos aos
gentios, e eles à circuncisão: recomendando somente que nos lembrássemos dos
pobres, isto mesmo é o que eu também procurei executar com cuidado.

Editora Ave Maria, 2ª forma: Ao contrário, viram que a
evangelização dos incircuncisos me era confiada
, como a dos circuncisos a
Pedro
(porque aquele cuja ação fez de Pedro o Apóstolo dos circuncisos, fez
também de mim o dos pagãos). Tiago, Cefas e João, que são considerados as
colunas, reconhecendo a graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé
em sinal de pleno acordo: iríamos aos pagãos, e eles aos circuncidados.
Recomendando-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente
a minha intenção.

Editora Vozes, 3ª forma: Pelo contrário, viram que a mim
fora confiada a evangelização dos pagãos
, como a Pedro tinha sido
confiada a evangelização dos judeus
. Pois aquele que incentivou Pedro ao
apostolado entre os judeus, incentivou também a mim para o dos pagãos. Tiago,
Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a graça que me foi
dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo: nós iríamos aos
pagãos e eles aos judeus. Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos
pobres, coisa que procurei fazer com muita solicitude.

Essas são as três formas como a encontramos narradas entre as seis Bíblias
por nós pesquisadas. E para que vejam que o nosso entendimento não é isolado,
colocaremos algumas notas de rodapé, relacionadas a esta passagem, constantes
das Bíblias:

Edição Pastoral: Na segunda vez que vai a Jerusalém (cfe AT
15), Paulo tem duas preocupações: fazer um acordo com Pedro, Tiago e João, para
manter a unidade das Igrejas; e ao mesmo tempo, assegurar que os pagãos
convertidos não precisem observar a religião judaica. A viagem tem dois
resultados importantes: as autoridades da igreja de Jerusalém reconhecem o
Evangelho, tal como Paulo e Barnabé o pregam aos pagãos; é feito um acordo
prático, delimitando os campos de apostolado de Pedro e de Paulo. O sinal
visível desse acordo é a preocupação e o auxílio aos pobres (cf. 2Cor 8-9).

Editora Mundo Cristão: o evangelho da incircuncisão.
I.e., o evangelho para os gentios. Paulo era especialmente responsável por
espalhar o evangelho entre os gentios (Rm 1;5), e Pedro entre a circuncisão (os
judeus).

Quem estiver de posse de uma Bíblia que contém a 1ª forma, pode ser levado a
entender que Pedro pregava a circuncisão. Entretanto, pregar aos circuncidados
não significa necessariamente advogar a circuncisão. Jesus era judeu e pregava a
judeus, entretanto não o vemos citar a necessidade da circuncisão. Na 3ª forma,
qualquer dúvida fica dissipada, pois o que as duas anteriores querem significar
é exatamente o que consta dela. Assim, não há dúvida alguma que Paulo cuidava de
pregar o Evangelho aos gentios (também chamados de incircuncisos) e Pedro ficou
com a missão de levá-lo aos judeus (normalmente chamados de circuncisos), apenas
isso. Não como querem interpretar alguns que nessa passagem Paulo esteja
defendendo a não circuncisão, embora saibamos que ele era contra ela, e Pedro o
contrário. Dizem inclusive que havia discórdia entre os dois, mas não é verdade
como iremos ver no incidente de Antioquia.

O incidente de Antioquia

É um pequeno incidente que ocorreu entre Pedro e Paulo, narrado em Gálatas 2,
11-16:

“No entanto, quando Cefas foi a Antioquia, opus-me a ele abertamente, pois
merecia repreensão. Realmente antes que chegassem certas pessoas do partido de
Tiago, ele tomava suas refeições com os pagãos. Mas, quando elas chegaram, tirou
o corpo e manteve-se afastado por receio dos circuncidados. Os outros judeus
também fizeram a mesma simulação; até o próprio Barnabé deixou-se envolver por
esta duplicidade. Então, ao ver que não procedia direito, de acordo com a
verdade do Evangelho, eu disse a Cefas na presença de todos: ‘Se você, que é
judeu, segue os costumes pagãos e não os judaicos, como pode obrigar os pagãos a
seguir costumes judeus?’ Nós, de nascimento, somos judeus e não pecadores do
paganismo. No entanto, por sabermos que ninguém é justificado pela prática da
Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo, nós abraçamos a fé em Cristo Jesus
para sermos justificados em virtude da fé em Cristo e não em virtude da prática
da Lei”.

Para entender o ocorrido entre os dois vamos recorrer às notas de rodapé,
constantes das Bíblias:

Edição Pastoral: Um judeu não podia comer ao lado de um pagão, pois
ficaria impuro, violando a Lei. Contudo, no encontro de Jerusalém, fica
resolvido que os pagãos convertidos ao cristianismo não precisavam observar a
Lei judaica. A atitude de Pedro é hipócrita: por medo de ser criticado pelos
judeu-cristãos, ele evita comer com os pagãos convertidos. O fato é grave, pois
o comportamento hipócrita de um chefe da Igreja causa divisões, esvazia o
trabalho da evangelização, chegando até mesmo a desviar a comunidade do
verdadeiro Evangelho.

Editora Ave Maria: Alguns judeus cristãos pensavam que os demais povos
ou gentios convertidos deveriam seguir os costumes ou modos de viver dos judeus.
S. Pedro e os apóstolos, no entanto, no Concílio de Jerusalém haviam dado aos
gentios convertidos a liberdade de seguir os costumes próprios (ver Atos 15,
1-28). S. Pedro seguia esta decisão, considerando os não-judeus convertidos
iguais aos demais cristãos. Mas devido a muitas críticas ou pressão de judeus
fanáticos, achou prudente não comer mais com os gentios ou pagãos convertidos,
para não suscitar críticas ou zangas prejudiciais. São Paulo, no entanto, achou
que S. Pedro devia manter-se firme no costume adotado, para que todos vissem que
os não-judeus convertidos e os judeus cristãos eram iguais perante o Evangelho.
Trata-se, portanto, de um modo externo de agir de S. Pedro, uma questão de
prudência ou de energia, por conseguinte de assunto externo, acidental,
secundário, e não essencial, doutrinário ou dogmático. S. Pedro aceitou e seguiu
a advertência amiga de S. Paulo, comprovando assim que ambos estavam de pleno
acordo a este respeito. Aliás nunca houve desacordo doutrinário entre eles. Por
este fato acima relatado, S. Paulo até reconhece que a autoridade de S. Pedro
era grandemente acatada e de influência entre os cristãos, como chefe da Igreja
Universal que era. (N. do Tr.)

Assim, a única divergência ocorrida entre os dois foi a que acabamos de
relatar. Não estava ela relacionada com a questão da circuncisão, conforme
podemos verificar pelo texto e nas notas citadas.

Conclusão

E, para concluirmos, embora já falamos anteriormente, mas para reforçar a
conclusão a que chegamos, acrescentamos que em Atos (10, 9-34) é relatada uma
visão de Pedro, que após pensar muito sobre ela, chega à seguinte conclusão:
De fato agora compreendo que Deus não faz distinção de pessoas; mas todos os que
o adoram e praticam o bem são aceitos por ele, seja qual for a sua nação

(Atos 10, 34-35). Ora, esta revelação lhe é dada no início de sua missão
apostólica, assim não há como sustentar que ele, depois desta compreensão, venha
a querer separar as pessoas entre circuncisos e incircuncisos, como era costume
entre os judeus radicais, para exigir que os últimos fossem também
circuncidados. O que podemos confirmar pela pesquisa que fizemos no Dicionário
Prático constante da Bíblia Sagrada Editora Barsa: Após a visão que recebeu do
céu, acolheu o gentio Cornélio dentro da Igreja e decretou que os ritos da
Antiga Lei não mais deveriam onerar as consciências dos homens (Atos 10, 1-48;
11, 5-17)

Uma outra coisa que devemos levar em conta, e isso normalmente não é
percebido pela grande maioria dos teólogos, é que houve uma divisão entre Pedro
e Paulo quanto aos que cada um iria Evangelizar, o primeiro aos judeus e o
segundo aos gentios, daí o nome de Apóstolo dos Gentios dado a Paulo. Com o
mesmo pensamento, poderíamos dizer que Pedro era o Apóstolo dos Judeus, em
Gálatas 2, 7-10, diz exatamente isso. Ora, se Pedro passou a pregar o Evangelho
junto aos judeus e esses são os que seguiam a Lei Mosaica, e nela havia a
determinação de que toda criança do sexo masculino deveria ser circuncidada no
oitavo dia (Levítico 12, 3), como explicar que Pedro estaria exigindo a
circuncisão, já que aos que se dirigia certamente já eram circuncidados, a não
ser que ele estivesse pregando a crianças com menos de oito dias?

L. Palhano Jr., o autor de “Teologia Espírita” em seu outro livro “Aos
Gálatas – A Carta da Redenção”, nos diz que:

“Pedro não vivia segundo os preceitos judeus, ele mesmo era livre em Cristo,
como pois apoiava os judaizantes? Não consta que Pedro exigisse a circuncisão,
mas tudo indica que ele não via outra saída que não fosse o apoio que poderia
ter dos judeus-cristãos”.

Tudo o que levantamos demonstra de forma categórica que Pedro nunca pregou a
circuncisão. O que ficou a seu encargo fazer era evangelizar (pregar) aos
judeus, leia-se circuncidados, entretanto, isso está bem longe de se afirmar que
ele estava circuncidando os recém-convertidos ao cristianismo.

Que os teólogos que não pensam assim nos desculpem, pois nosso objetivo não é
levantar polêmica alguma, mas buscar a verdade onde quer que ela possa se
encontrar.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Jan/2002.

Bibliografia:

  • Bíblia Anotada = The Ryrie Study Bible/Texto bíblico: Versão
    Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e
    notas por Charles Caldwell Ryrie; Tradução de Carlos Oswaldo Cardoso Pinto.
    São Paulo, Mundo Cristão, 1994.
  • Bíblia Sagrada, Edição Barsa, 1965.
  • Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Sociedade Bíblica Católica
    Internacional e Paulus, 14ª Impressão 1995.
  • Bíblia – Mensagem de Deus, Novo Testamento – LEB – Edições Loyola,
    São Paulo, 1984.
  • Bíblia Sagrada, Editora Ave Maria, São Paulo, 1989, 68ª Edição.
  • Bíblia Sagrada, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1989, 8ª Edição.
  • Dicionário Bíblico Universal/L. Monloubou e F.M. Du Buit,
    Petrópolis, RJ, Vozes; Aparecida, SP: Editora Santuário, 1996.

 

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