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A Invenção de Deus

Fernando Guedes de Mello

Invenção de Deus – Aquenaton (1358~1340 a.C.) ficou conhecido como o “faraó monoteísta” por ter desenvolvido durante o seu curto reinado de 18 anos o culto a Aton como Deus Único, simbolizado pelo disco solar e em substituição aos demais deuses do panteão egípcio. Na verdade, o único Deus digno desse nome a ser cultuado. Não é preciso ter muita imaginação para ver o tamanho da briga que ele comprou com a influente classe sacerdotal egípcia. Tanto assim que, logo após sua morte, os antigos cultos foram restaurados e sua memória desacreditada, considerado que foi um herege.

No nosso ensaio “A evolução de Deus”, constante do NPT (Novo Paradigma em Teologia), procuramos mostrar como suas inovações teológicas podem ter influenciado a nascente religião israelita, já que seu reinado precede de poucos anos o movimento emigratório do Êxodo, liderado por Moisés. Lá aventávamos a hipótese de que o próprio Moisés poderia ter sido um sacerdote de Aton e que, por isso mesmo, tenha sido perseguido pelo establishment religioso da época, tal como nos sugerem as narrativas do livro do Êxodo.

Nossas conclusões foram fruto não só de pesquisa bíblica, mas também de estudos históricos, ao lado de uma boa dose de intuição que juntasse as peças do quebra-cabeça. É uma tese muito ousada, reconhecemos. Por isso falamos no desenvolvimento de um “novo paradigma” que não consagre posturas sectárias do tipo “Somos os eleitos de Deus” (Todos os povos o são); ou, “Fora da Igreja não há salvação” (Fora dela também há salvação); ou ainda “Só Jesus salva” (O Cristo em nós é que o faz). Em lugar de sectarismos, o NPT abre espaço para incluir outros povos e culturas na história da Revelação. Por exemplo, os egípcios, na Antigüidade, e os árabes, na Idade Média. Acreditamos que tal reformulação derruba barreiras milenares que sempre impediram um diálogo verdadeiramente ecumênico entre as religiões.

Mas, para nossa satisfação, deparamo-nos recentemente com uma abordagem de Arnold Toynbee, considerado o maior historiador do século XX, que confirma nossa tese. Falava ele do significado do reinado de Aquenaton e suas mais que prováveis implicações na formulação da crença monoteísta, tal como descrita na Bíblia, além de outras considerações a respeito da própria figura histórica de Moisés.

Os textos que se seguem foram extraídos do último livro de Toynbee (1974), “A Humanidade e a Mãe-Terra”, que constitui uma síntese de sua obra. Sua leitura reabre a velha questão sobre a verdadeira origem do monoteísmo. A identificação de Iavé, que nem o próprio Moisés conhecia (Ex.3,13-14), com o Deus dos Patriarcas (Ex.3,15) parece ter sido um acréscimo posterior aos acontecimentos e visava conferir legitimidade a uma religião que se institucionalizava durante o reinado de Salomão. É quando o templo de Jerusalém foi construído, uma classe sacerdotal constituída e o primeiro cânon bíblico promulgado. Na realidade, tudo indica que o Deus de Abraão havia sido um deus tribal, do tipo “o meu deus contra o seu deus”. Quando muito podemos falar em monolatria (adoração a um único deus), mas ainda bem distante do monoteísmo (adoração ao Deus Único). Vejamos o que Toynbee tem a nos dizer sobre Aquenaton:

“Aquenaton era um revolucionário. Sua revolução não foi a primeira da história egípcia. Houvera uma revolução dupla no “período intermediário” entre a dissolução do Antigo Império e o estabelecimento do Médio Império (…) Essas duas revoluções egípcias anteriores foram de espécies diversas. Num dos casos, o “poder público” afastara o jugo do faraó; no outro, a massa revoltou-se contra o próprio “poder público”; mas as duas revoluções no primeiro “período intermediário” tiveram um aspecto em comum. Em níveis e graus diferentes, ambas foram revoluções de baixo para cima. A revolução de Aquenaton foi cima para baixo.

“O conflito principal de Aquenaton era com a ala eclesiástica do “poder público”. Da mesma forma que seu predecessor Quéops, da quarta dinastia, Aquenaton discutiu com os sacerdotes acerca de um problema teológico e, nessa época, a classe sacerdotal tornara-se ainda mais poderosa. Os adversários eclesiásticos de Queóps haviam sido os sacerdotes de Heliópolis, cidade sagrada de Ré [também transliterado como “Rá”]. Uma vez que Tebas se tornara capital política de um Egito reunificado, Ré, chefe do panteão egípcio, fora identificado a Amon, que era o deus local de Tebas desde, pelo menos, o reinado do fundador da décima segunda dinastia, Amenemat I; e Tutmés III, organizara os sacerdotes de todos os deuses locais do Egito numa corporação panegípcia, sob a presidência do supremo sacerdote de Amon-Ré.

“Aquenaton estava testando praticamente a autoridade oficialmente absoluta do faraó, ao desafiar o maior poder do egípcio além do próprio faraó. Aquenaton poderia ter derrotado a classe de sacerdotes se tivesse conseguido o apoio do povo, e poderia tê-lo conseguido se tivesse desafiado o supremo sacerdote de Amon-Ré em nome do deus Osíris, pois Osíris era o doador da imortalidade, que era o objetivo supremo dos egípcios. Todavia, Aquenaton lutava não pela imortalidade, mas pelo monoteísmo; e o ideal do monoteísmo deixava frio o coração do povo, além de constituir uma ameaça aos interesses que moviam os sacerdotes. O Deus Único de Aquenaton, o disco solar (Aton), era apenas o deus de um homem; e embora esse homem fosse faraó, nem mesmo o poder do faraó era suficiente para prevalecer sobre uma corporação eclesiástica que servia a um panteão consagrado pela tradição.

“Não causa surpresa o fato de que Aquenaton não tenha conseguido substituir Amon-Ré e o resto do panteão tradicional por Aton; mas é notável que, ainda assim, a revolução de Aquenaton tenha deixado marca duradoura. O poder de Amon-Ré foi restaurado, mas o deus foi transfigurado à semelhança do Deus Único pelo qual Aquenaton tentara substituí-lo em vão. Aquenaton compusera um hino a Aton como doador da vida a todas as criaturas vivas do universo; os hinos pós-atonianos a Amon-Ré apresentam o velho deus sob a máscara do novo deus fracassado.

“(…) O império cujo trono [Aquenaton] havia herdado era ecumênico – naturalmente, não no sentido geográfico de ter literalmente as mesmas dimensões do Oikoumenê, mas sim no sentido cultural de abranger uma boa amostra da diversidade de culturas humanas. Esse foi o primeiro império ecumênico neste sentido; e não se trata de mera coincidência o fato de um dos governantes desse império tenha sido o primeiro monoteísta de que há registro, pois o monoteísmo de Aquenaton é ecumenismo expresso em simbolismo religioso. Ele imaginou Aton não como um deus local, mas como o senhor de todo o universo, e representou a ubiqüidade de Aton construindo-lhe templos na Síria e na Núbia, bem como no Egito.”

(Extraído do livro “A Humanidade e a Mãe-Terra”, 2a. edição, cap. 12, p. 133 ~ 135)

Pergunta-se: se as inovações teológicas de Aquenaton deixaram marcas permanentes na própria religião oficial do Antigo Egito, por que razão não teriam influenciado também a crença dos israelitas que por lá moravam na ocasião? Os deuses da Antigüidade, fossem eles locais ou tribais, tinham a cara da cultura que lhes prestava culto. No caso de Aton, fica claro que, pela primeira vez na história, o culto que Aquenaton lhe dedicava tinha um caráter ecumênico. Assim como aconteceu ao culto a Amon-Ré, tal característica foi sendo  também absorvida pelo Deus da Bíblia.

Uma leitura mais abrangente da Bíblia deixa entrever um longo processo pedagógico na constituição de seu monoteísmo, processo esse que começa com o deus tribal dos Patriarcas e que vai se transformando aos poucos num Deus mais universal, até atingir o clímax no “Pai Celestial” de Jesus. Da mesma forma que as religiões da Antigüidade não chegaram a absorver inteiramente o ideal monoteísta de Aquenaton, as igrejas cristãs ainda hoje parecem estar longe de terem entendido em sua inteireza os ensinamentos de Jesus sobre esse “Deus de Amor”. A sua própria institucionalização parece impedi-lo.

Vejamos agora o que Toynbee nos fala de Moisés:

“(…) Um nome muito mais famoso é o de Moisés que, segundo a tradição israelita, conduziu os israelitas numa jornada do Egito à Transjordânia, a qual foi o prelúdio da conquista dos territórios sírios pelos israelitas, territórios que acabaram por ocupar; os registros egípcios, porém, não atestam a historicidade de Moisés. Pelo menos dois egípcios chamados Moisés aparecem nos registros egípcios do século XIII a.C. Com essa forma, o nome parece ser uma abreviação de um nome teofônico composto, terminando em “mose” ou “messe”, no qual o primeiro dos dois componentes é nome de um deus. Ahmose (Amósis), Tuthmose (Tutmés), Remesse (Ramsés) são exemplos familiares. Segundo a tradição israelita, Moisés foi educado no Egito e era monoteísta, Se houver alguma substância nessa tradição, a forma completa mais provável do nome de Moisés seria Aton-Moisés, de vez a adoração de Aton é o único culto monoteísta de que há registro na história do Egito.

“Depois da damnatio memoriae do faraó Aquenaton, um nome composto com o nome do disco solar não podia ser dado impunemente a súdito egípcio algum. Todavia, a tradição israelita apresenta Moisés como havendo vivido por certo período, antes de guiar os israelitas para fora do Egito, em território localizado além da jurisdição do governo egípcio e, se a religião de Aquenaton sobreviveu em algum lugar, só seria concebível que fosse em território não-egípcio, mas que já houvesse sido egípcio. A tradição israelita também apresenta Moisés como havendo negociado, após o Êxodo, um pacto entre Israel e um deus chamado Javé. Diz-se que os israelitas desconheciam seu nome anteriormente. Foram feitas tentativas de interpretação, dando-lhe o significado de “vida” ou “doador de vida”, e esses haviam sido atributos de Aton.

“Essas considerações sugerem que Moisés pode ter sido uma pessoa real, como seus correspondentes e prováveis contemporâneos líbios Maraye e Mesher. Mesmo que ele não tenha levado os israelitas para fora do Egito, ele próprio pode tido uma formação cultural egípcia. A historicidade de Moisés não é impugnada pelo aspecto obviamente lendário de alguns dos elementos de relato tradicional de sua carreira. Algumas figuras famosas, indubitavelmente históricas, vieram a ser identificadas com heróis folclóricos legendários. Por exemplo, não há dúvidas acerca da historicidade de Ciro II, o fundador do Império Aquemênida, mas a lendária estória acerca da miraculosa escapada do heroi em sua infância, a uma ameaça excepcionalmente perigosa a sua vida, prendeu-se tanto aos relatos tradicionais da infância de Ciro II quanto de Moisés.”

(Extraído do livro “A Humanidade e a Mãe-Terra”, 2a. edição, cap. 14, p. 146 ~ 148)

“Mose” ou “messe” no final dos nomes compostos, cujo início era o nome de alguma divindade, sugeria tratar-se de um fiel seguidor – ou talvez mesmo um sacerdote – consagrado à divindade assim referida. Corresponderia mais ou menos ao costume cristão de batizar os  recém-nascidos com o nome de santos. Só que no nome de Moisés falta a referência à divindade, o que parece indicar tratar-se de um culto mal visto pelo establishment religioso, mui provavelmente o culto a Aton.

Assim, a explicação dada pela teologia tradicional de que o nome Moisés significaria “salvo das águas”, em hebraico, cai por terra; mesmo porque a filha do faraó que o teria recolhido do rio e lhe dado o nome não falava hebraico… (Ex.2,9-10), É, portanto, um nome tipicamente egípcio. A estória de Moisés recém-nascido apenas repete um episódio comum à infância dos legendários deuses e heróis da Antigüidade, como ele também salvos providencialmente das águas.

Assim sendo, todos os indícios apontam para a condição de Moisés como um sacerdote egípcio, ligado ao culto a Aton. Quando perseguido no Egito, buscou refúgio na região do Sinai, onde casou-se com a filha de um sacerdote (Ex.2,11-21). Nessa ocasião, a região estava fora do domínio dos egípcios, que já haviam perdido também o controle dos territórios da Síria e da Palestina. Muito provavelmente, seu sogro Jetro mantivera algum tipo de relacionamento com o culto a Aton e deu-lhe a necessária guarida.

Mais tarde, suas negociações com o faraó visaram liberar a emigração de uma vasta gama de pessoas e não apenas de israelitas. Senão, como explicar o culto ao Bezerro de Ouro em pleno deserto do Sinai? (Ex.32,15-24). As negociações com as autoridades egípcias foram conduzidas em nome de um outro deus que não Aton – no caso, Iavé – já que qualquer menção a Aton poderia emperrar os entendimentos em curso. Os israelitas, a partir de um certo ponto, parecem ter assumido a liderança do movimento migratório, derrubando o seu chefe e impondo seu próprio ponto de vista. Para frustração dos mais ortodoxos, essa é a tese defendida, por exemplo, por um Sigmund Freud. A partir daí, o monoteísmo do culto a Aton começa a ser absorvido pelos hebreus, agora sob o novo nome de Iavé, e devidamente identificado com “o Deus de Nossos Pais”. Estavam lançadas assim as sementes do monoteísmo entre os israelitas.

* Teólogo e escritor, mello@task.com.br

Referências bibliográficas:

  • André Chouraqui, “A Bíblia, Nomes (Êxodo)”, Imago.
  • Arnold Toynbee, “A Humanidade e a Mãe-Terra”, Zahar.
  • Cyril Aldred, “Akhenaten, King of Egypt”, Thames & Hudson.
  • Karen Armstrong, “Maomé, uma Biografia do Profeta”, Companhia da Letras.
  • “A Bíblia de Jerusalém”, Paulus.

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