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Andar Sobre Águas Revoltas

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 Amilcar Del Chiaro

   Encontramos no Evangelho atribuído a Mateus uma interessante narrativa, aparentemente milagrosa, mas que nos induz a profundas reflexões. Narra o evangelista, que estando os discípulos em uma barca, Jesus que havia se demorado na praia, vai até eles andando sobre as águas, causando um susto enorme naqueles homens rudes, que julgaram estar vendo um fantasma.        Depois de se asserenarem, Pedro pediu para ir ao encontro de seu Mestre, e descendo da barca andou alguns metros sobre a água, mas fustigado pelo vento forte e pela instabilidade das ondas, apavorou-se e começou a afundar, rogando que o Mestre o socorresse, este lhe estendeu a mão e salvou-o.  O fenômeno, para qualquer espírita estudioso, enquadra-se nos efeitos físicos, mas especificamente na levitação, quando a lei da gravidade é momentaneamente anulada, mas o que nos interessa é o simbolismo moral desta passagem.  Figuremos Pedro como todos nós que nos abeiramos da Doutrina Espírita e sentimos a sua pujança, a sua lógica, a sua beleza. Assim fortalecidos, julgamo-nos capazes de enfrentar os grandes embates da vida, mas percebemos que sem o apoio dos amigos encarnados e desencarnados, vacilamos, deixamos o medo enrodilhar-se, qual serpente, em nosso coração, as paixões avassaladoras do mundo nos assusta e, começamos a correr o risco de naufragarmos.        Poucas vezes percebemos o quanto o sofrimento pode ser útil. Ele não deve ser desejado, nem procurado, mas quando aparece em nossa vida, tem uma mensagem. O homem tolo se rebela. O homem muito inteligente busca sofismas, o homem humilde aceita e decifra essa mensagem. Mas, é nestes momentos aflitivos que aparecem os amigos e, condoídos da nossa fragilidade, não nos expõe ao ridículo, porém, estendem as mãos e nos retiram do abismo, fazendo cessar a tormenta. Devolvendo-nos a força, envia-nos novamente para o mar largo, pois, como verdadeiros “Cireneus”, sabem que podem carregar a nossa cruz somente por um trecho do caminho, pois a subida ao Gólgota é realização nossa. O dia em que dominarmos nossas paixões inferiores navegaremos acima do mar revolto das lutas humanas, quais “Noés” modernos em nossas arcas somáticas, sairemos em socorro dos náufragos da vida, recolhendo-os amorosamente em nosso coração. O Espiritismo não tem a missão de isentar-nos das lutas, mas fortalecer-nos e esclarecer-nos, despertando em nós a fé robusta que pode encarar a razão face a face.