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Apego e Renúncia

Apego e Renúncia

 

Portanto, grandes não foram Napoleão, Hitler, Stalin, Bismark. Grande foi
Jesus, Francisco de Assis e o próprio Schweitzer, que, um dia, resolveu deixar o
conforto da Europa civilizada, para enfrentar a selva africana, onde foi cuidar
dos negros famintos e doentes.

Mas a gente costuma valorizar os homens de ação, os homens práticos que fazem
o progresso material e as guerras. Para eles todas as homenagens.

O ato da renúncia é mais louvável do que o ato do apego. E a gente vive, o
tempo todo, se apegando às coisas, ás pessoas, aos lugares, como se essas
coisas, essas pessoas, esses lugares estivessem, sempre, à nossa disposição.

O medo que estamos sentindo, freqüentemente, é o medo das nossas perdas.
Perda da mocidade, perda do dinheiro, perda da saúde, perda do prestígio, perda
do amor, perda do emprego, perda da amizade.

Renunciar é, sobretudo, um ato de coragem. E poucos conseguem praticá-lo. É
fácil apegar-se. Difícil é desapegar-se.

E eu estou, agora mesmo, me lembrando daquele encontro de Jesus com o moço
rico, que desejava ir para o céu: “Mestre, o que é necessário para alcançar a
vida eterna?”

O rapaz possuía muitas propriedades, muito dinheiro e era religioso, pois
cumpria todos os mandamentos da lei mosaica: não mentia, não roubava, não
caluniava, não pronunciava o nome de Deus em vão. No conceito dos homens, era um
bom moço.

Jesus veio, então, com aquela recomendação que valeu por um difícil teste: dá
tudo o que tens aos pobres e terás o paraíso.

Aí o moço baixou a cabeça e saiu, envergonhado, sem dizer uma palavra. O
preço do paraíso era muito alto. Renunciar aos bens, aos interesses mundanos,
jamais. Foi difícil formar um patrimônio; porém, mais difícil, ainda, foi
renunciar, ou melhor, desapegar-se.

Não vamos interpretar o episódio ao pé da letra. A renúncia que Jesus queria
era a renúncia ao apego, porque o apego é o que nos escraviza, é o que nos
preocupa, é o que nos angustia, é o que nos torna infelizes, deprimidos,
egoístas.

Não é o ato da renúncia que importa. O que importa é o espírito da renúncia.
Você pode ter muitos bens e não ser apegado a eles, desde que se conscientize de
que tudo passa, de que tudo nos chega como empréstimo, porque chegará, um dia,
em que teremos de abandoná-los. Ninguém é proprietário de nada, a não ser de sua
própria consciência.

É difícil renunciar. Até mesmo a um simples cigarro.

Rico é aquele que é pobre de necessidade – escreveu um grande pensador.
Parafraseando, diríamos: rico é aquele que é pobre de apegos.

Renunciar ao ódio, à vingança, aos vícios, aos ressentimentos, à inveja, eis
aí o grande heroísmo.

Afinal, como devemos viver no mundo?

Paulo de Tarso tem a receita. Ei-la: “viver como possuindo tudo, nada tendo,
com todos e sem ninguém”.

Tribuna Espírita – Out/Dez – 95

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