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As Quatro Nobres Verdades – Budismo

As Duas Doutrinas

– Budismo

O Budismo tem por princípio os ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda, entre eles, como base principal as “quatro nobres verdades”. Ele não pode ser definido exatamente como uma “religião” no sentido ocidental, é mais uma filosofia, um caminho (método prático) de libertação do sofrimento. Naturalmente associada a este caminho, surge uma visão de mundo que influencia a ciência e a vida cotidiana das sociedades budistas. Assim conforme nos explica Matthieu Ricard, monge budista, no livro “O Monge e o Filósofo” (capítulo Religião ou Filosofia):

Em essência, eu diria que o budismo é uma tradição metafísica da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os instantes da existência e em todas as circunstâncias.

O budismo não é uma religião, se por religião entendermos a adesão a um dogma que deve ser aceito por um ato de fé cega, sem que seja necessário redescobrir por si mesmo a verdade desse dogma. Mas se considerarmos uma das etimologias da palavra religião, que é ‘aquilo que liga’, o budismo sem dúvida está ligado as mais altas verdades metafísicas. Ele tampouco exclui a fé, se entendermos por fé uma convicção íntima e inabalável que nasce da descoberta de uma verdade interior. A fé é também um maravilhamento diante dessa transformação interior. Por outro lado, o fato do budismo não ser uma tradição teísta leva muitos cristãos, por exemplo, a não o considerar como uma ‘religião’ no sentido corrente da palavra. O budismo, enfim, não é um ‘dogma’, pois o Buda sempre disse que a pessoa devia examinar os ensinamentos dele, meditá-los, mas não aceitá-los simplesmente por respeito a ele. É preciso descobrir a verdade desses ensinamentos percorrendo as sucessivas etapas que levam à realização espiritual. Convém examina-los, disse o Buda, como se examina uma barra de ouro. Para saber se o metal é puro, a pessoa o fricciona sobre uma pedra lisa, martela-o, derrete-o no fogo. Os ensinamentos de Buda são como diários de bordo na estrada do Despertar, do conhecimento último sobre a natureza do espírito e sobre o mundo dos fenômenos.”

– Espiritismo

O Espiritismo, ou Doutrina Espírita, tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos. Através do estudo dos fenômenos mediúnicos investiga as leis que regem essas relações e suas conseqüências. Também pelo estudo da situação dos Espíritos no mundo espiritual, investiga as leis morais que regem o destino do ser. Do fato do homem ser apenas um espírito encarnado, o estudo do espírito se estende ao estudo do ser humano, de sua psicologia, de suas capacidades mediúnicas e anímicas, e de suas relações com o mundo com o cerca.

Assim o Espiritismo também não pode ser definido exatamente como uma “religião” no sentido usado normalmente no ocidente. É uma visão de mundo, englobando não só filosofia, ciência, moral, como também um caminho (método prático) de progresso do espírito. Como nos explica Allan Kardec:

O laço estabelecido por uma religião, seja qual fôr o seu objetivo, é, pois, um laço essencialmente moral, que liga corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou de realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência da comunidade de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.

Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião ? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza.

Por que, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião ? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes de levantou a opinião pública.

Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia em devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral”.[1]

Como doutrina filosófica e moral, o Espiritismo pertence a tradição monoteísta cristã. Tradição iniciada com a revelação mosaica no Velho Testamento, profundamente reformada por Jesus no Evangelho, e complementada pelos conhecimentos adquiridos no estudo das comunicações com os espíritos. Por este motivo os espíritas também se referem a Doutrina como a “Terceira Revelação” ou, fazendo referência a uma promessa de Jesus, como o “Consolador Prometido”.

– Análise

“As palavras nos importam pouco. A linguagem deve ser formulada de maneira a se tornar compreensível. As dissensões humanas surgem porque sempre há desentendimentos sobre as palavras, pois a linguagem é incompleta para as coisas que não lhes ferem os sentidos” O Livro dos Espíritos, resposta a questão 28.

Nosso uso cotidiano da palavra “religião” se prende a um sentido muito limitado, entendemos normalmente por esta palavra um culto organizado, com crenças estabelecidas através de “dogmas” e uma hierarquia destinada a sua manutenção. Embora este sentido se enquadre bem na comunicação cotidiana, deixa a desejar quando aplicado a problemas filosóficos mais profundos. Por limitações do nosso vocabulário, “religião” também designa a crença individual em uma realidade maior que transcende o mundo material. Por “religiosidade” se entende também o sentimento que liga o homem ao restante do Universo.

Neste sentido filosófico da palavra, o Espiritismo e o Budismo tem aspectos religiosos. São “religião” no tocante ao modo que mudam as crenças do homem sobre si mesmo e sobre a realidade que o rodeia. Mas igualmente não são apenas “religião”, nem se enquadram corretamente no uso comum da palavra. O que em sí mesmo gera os mais acalorados debates, quando sua “natureza” é discutida.

No tocante ao Budismo, entre os povos que o praticam, o problema praticamente não se apresenta, é no mundo Ocidental, onde ainda nos apegamos tanto aos “nomes” e as “categorias” – valorizando mais a letra que o espírito – que há longas discussões a respeito e as mais diversas opiniões. Já houve, entre os estudiosos ocidentais, quem negasse ao Budismo a designação de “religião” e quem o chamasse de uma “religião sem Deus”, por motivos que discutiremos na seqüência dos artigos.

Quanto ao Espiritismo, não é segredo que as discussões em torno a sua “natureza” – ao emprego ou não, da palavra “religião” para descrevê-lo – tem algumas vezes degenerado em polêmicas inúteis e em amargas disputas entre grupos com diferentes visões da questão[2].

Notas Explicativas

1 – Discurso de abertura da sessão anual comemorativa do dia dos mortos, em 1º de novembro de 1868. O discurso foi publicado na Revista Espírita de Dezembro de 1868 e seu texto pode ser consultado na integra no Boletim GEAE número 277.

2 – Pessoalmente adotamos a orientação dada pelos Espíritos a Kardec, de que as palavras pouco importam, o que vale é definir precisamente do que se está falando, para não cair em polêmicas inúteis. Também respeitamos os sábios conselhos, transmitidos pela tradição Budista, de que a verdade raramente está nos extremos. Para nós, o Espiritismo “é” Religião no sentido filosófico da palavra e “não é” Religião no sentido comum, de culto organizado.

(Publicado no Boletim GEAE Número 429 de 5 de fevereiro de 2002)

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