Tamanho
do Texto

Astrónomos, astrólogos e bruxos

Astrónomos, astrólogos e bruxos

Foi Cláudio Ptolomeu, o mais eminente astrónomo-astrólogo de Alexandria no
seu tempo, quem difundiu a ideia de ser a Terra o centro do Universo, ou
geocentrismo, e deixava transparecer a real impressão de que o nosso planeta era
fixo e imóvel, e a Igreja católica atrelou-se neste conceito teórico criando um
triste dogma, através do qual veio trazer irreparáveis problemas e estagnação à
ciência na área da astronomia e em outros campos da pesquisa científica, durante
cerca de 1500 anos.

Mas, em meados de 1543, um padre polaco, Nicolau Copérnico, publicou o que na
altura se considerou uma grande ousadia, ao afirmar-se que não era a Terra mas
sim o Sol o centro do Universo, ou heliocentrismo, contrariando a ideia inicial
de Ptolomeu e consequentemente do clero católico que a havia assimilado, e por
isto sofreu dois reveses. O primeiro, pelo grande equívoco ao fazer tal anúncio,
e o segundo, em que teve de enfrentar a fúria insana da Igreja, sua perseguição
e a proibição do seu livro.

No ano de 1571, nascia na Alemanha aquele que viria mudar radicalmente a
história e o rumo das pesquisas, separando as vertentes dualistas
astrologia-astronomia, dando um cunho puramente científico à segunda. Foi
Johannes Keppler, seminarista da Igreja protestante luterana, inteligentíssimo e
profundamente inconformado com a intolerância religiosa que grassava naquela
época, em que as disputas das diferentes igrejas na usurpação da verdade divina
tornavam-nas mesquinhas, porque misturavam as coisas de Deus com os interesses
rasteiros e transitórios do homem. Keppler acreditava que Deus era muito maior
do que as questiúnculas acanhadas do clero vigente e suas preocupações de
perseguir, punir, e ainda maior do que estas próprias religiões desbotadas pela
falta de lógica do homem, porque o Criador e a própria força do Universo era
muito mais do que o Deus das igrejas, porque era também maior do que o medo e o
terror que elas infundiam naqueles que tentassem discutir as suas “verdades”
impostas. O Deus em que ele cria era maior que as ideias medievais e a sua
curiosidade levou-o às pesquisas acerca deste Criador do desconhecido. Em 1589,
aos 18 anos, foi para a Universidade de Tubingen, em Maulbrow, para continuar
com os estudos em busca da elucidação dos intrincados e complexos problemas da
Criação e, foi aí que teve os primeiros contactos com as revolucionárias ideias
de Copérnico. Porém, logo a seguir e com a cabeça cheia de devaneios e
inquietação, partiu para Graz, na Áustria, onde se tornou professor de
matemática dado o seu interesse e perseverança nos estudos. Aliás, péssimo
professor, visto pela óptica dos seus alunos, pois não lhes transmitia quase
nada daquela disciplina, em razão de andar sempre a murmurar e ruminar os
próprios pensamentos de equações abstractas, cujas soluções não encontrara
ainda, mas em que buscava não sabia bem o quê. E assim chegou até Graz o tempo
negro e obscurantista, onde quem renegasse a Igreja católica e seus postulados
era implacavelmente perseguido, confiscado em 10% os seus bens materiais e
exilado. As escolas foram fechadas e os livros que versavam ciência queimados em
praça pública.

E como não poderia deixar de ser, o jovem Keppler, que andava absorto em seus
pensamentos de pesquisas, foi exilado porque havia declarado Não brinco com a
minha fé e não aprendi a hipocrisia e, foi movidos por esta hipocrisia que lhe
impuseram uma dura vida, estando em causa o fanatismo religioso. Depois, já na
vida adulta e após continuados estudos, mesmo a meio da atribulada vida de
exilado, Keppler descobriu as hoje conhecidas Leis de Keppler, que originou a
astronomia moderna até aos nossos dias, e, no entanto, sem nunca abandonar a
crença original da harmonia celestial que promana de Deus. Mesmo assim, entre
uma vida difícil e inconstante, pela guerra religiosa, fome e doenças
epidémicas, foi também excomungado pela Igreja luterana e, neste clima de
terror, a população mais frágil e indefesa, mas sobretudo indiferente a estas
questões teológicas, ficava mais vulnerável quanto aos abusos de toda ordem e
aos desmandos de todo jaez, que foi praticado nas várias frentes beligerantes em
nome da ideologia religiosa de carácter faccionista, e qualquer pessoa que não
professassse a religião católica ou a protestante seria punida pela
neutralidade, como também, aqueles que, equidistantes de tão escabrosa luta,
eram fatalmente perseguidos e usados como bodes-expiatórios nas mãos dos
torturadores, em nome de um Deus que o seu fanatismo não os deixava compreender.
Muitas mulheres foram queimadas vivas, acusadas de serem bruxas, e nem a própria
mãe de Keppler ficou isenta de tão acerbas dores; numa noite em que estava
sozinha em casa, foi levada pela milícia da igreja, numa caixa, como um animal
feroz, e também acusada de ser bruxa, custando ao filho seis longos anos de
tentativas para libertá-la da fogueira. Porque Katarina Keppler, era este o seu
nome, inconformada com tudo, desagradava à nobreza local por ser mãe de um filho
“herético”. E como era natural, Keppler ficou preocupado pela prisão da mãe e
acusava-se pelo sofrimento inominável que passava nas prisões infectas, porque
havia escrito o primeiro livro de ficção científica da História, ao tentar levar
a ciência aos povos, sem o ranço sufocante da mística religiosa. Por isto, em “O
SONHO”, era este o título do livro que escrevera, ele idealizava subir até à Lua
e visualizar a Terra maravilhosa a flutuar no espaço incomensurável e sem fim,
porém… se flutuava, não estava inerte e assim não era o centro do Universo,
como acreditavam as mentes obtusas que pensavam deter toda a verdade. Por isto
foi acusado de infiel, de praticante de bruxaria, e de que usava os feitiços da
mãe para deixar a Terra e ir à Lua, como estava escrito no seu livro. Estava ele
a pagar caro a coragem e destemor diante da desconhecida imensidão sideral, mas
também pela procura da Verdade que está além das fronteiras estreitas daqueles
que só vêem através das lentes embaciadas pela intolerância clerical. Era a
mente fértil do pesquisador sem vínculo e sem peias diante da tirania cega da
religião castradora e dominante. Keppler, mesmo com tantas provações e lutas,
traçou uma nova direcção à ciência, cujos reflexos chegam até aos nossos tempos.
Entretanto, outro renomado cientista sofreu igualmente as agruras deste clero
intolerante em seus pontos de vista, mesmo reconhecendo os próprios equívocos,
porém mantendo-os a ferro e fogo, pelo orgulho inominável. Foi Giordano Bruno
que, a exemplo de Galileu, foi perseguido em Itália e teve menor sorte que este
e Keppler. Era monge na ordem dos Dominicanos e a sua sagacidade e espírito de
pesquisa, levaram-no ao espinhoso caminho da busca para além do convencionalismo
académico. Logo se esboçou no seu carácter o interesse pelos factos espirituais
e esotéricos, naquela altura denominados de magia, tendo ido buscar aos livros
proibidos um sentido mais directo e objectivo para suas inquirições; era a
cosmologia, o móbil das suas inquietações mais íntimas.

Giordano Bruno foi um teólogo brilhante, mas tanto quanto Keppler,
insatisfeito e irrequieto em face dos conceitos teológicos estabelecidos, um
autêntico rebelde com causa justa e, por isto, logo cedo teve início a
perseguição tirânica à sua pessoa e a censura sistemática de seu trabalho
lúcido, na área das pesquisas inovadoras para a ciência, mas incomodativas para
a Igreja da qual era monge e que agia com mão de ferro através do Santo Ofício,
ou Inquisição, contra aqueles que a desafiavam contestando.

Assim Giordano Bruno rompia definitivamente os seus votos sacerdotais, indo
para Genebra, e para não perder o senso religioso que sempre norteou sua vida,
recolhe-se no seio da Igreja calvinista, embora por pouco tempo. Também aí não
fora compreendido nas suas ideias revolucionárias inatas. Daí transitou por
Paris, Londres, Praga, Alemanha, etc.. Mas foi na Alemanha, sob a protecção de
outro italiano, Giovanni Mocenigo, que ele foi denunciado pelo próprio
“protector” de práticas “esotéricas”, caindo então nas tramas inquisitoriais que
lhe põe a mão opressora.

Qual foi o erro daquele monge? Buscar a verdade através da cosmologia para
explicar a grandiosidade de Deus e a vida para além da matéria tangível, pelo
estudo da metafísica. Mas ele foi vítima também do meio tipificado como denúncia
onde qualquer pessoa movida por qualquer motivo pessoal ou não poderia denunciar
outra pessoa, envolvendo-o nas malhas da calúnia, onde quem denunciava,
impulsionado por torpes razões, se nivelava e macomunava-se com quem as ouvia,
não se sabendo quem era moralmente pior. Era um período de densas trevas a
tolher a liberdade de pensar, sob o império da ignorância brutal. O peso das
acusações caíra sobre um leque de temas, mas o pano de fundo era mesmo o da
velha tónica da ortodoxia e os escritos do pesquisador emérito tinham o
sugestivo título: “O Infinito, o Universo e os Mundos”. Somando a tudo isto o
aprofundamento das teorias como a vida além da morte e a relação dos espíritos
com o homem através da mediunidade, que mereceram estudos acurados e grande
dedicação do emérito professor Allan Kardec, através da doutrina espírita, nos
seus vários aspectos e sob a égide da ciência e, ainda bem, longe das fogueiras
inquisitoriais. Uma das teorias de Bruno trazia no seu bojo a assertiva
maravilhosa de que o Universo era infinito e a criação de Deus um acto
permanente, ou seja, estava em contínua expansão. Ele antecipava-se assim a
Newton e a Einstein e projectou-se nas constatações actuais.

Apesar de no Evangelho (João, cap. 14. V.1) constar que “na casa do Pai há
muitas moradas”, referindo-se ao Universo incomensurável, ele foi acusado também
por acreditar não só como estudioso, mas também por ter aguçada intuição de que
era possível a pluralidade dos mundos habitados no Cosmo infinito, bem como
disse Metrodoro, o seguidor convicto das ideias epicuristas: “pensar que só a
Terra é habitada é um absurdo e o mesmo que admitir que num vasto campo semeado
com centeio só um grão germinará”, ou seja, ele acreditava na habitabilidade de
outros planetas. Assunto, aliás, vivo nos tempos modernos e objecto de
pesquisas, mas felizmente distante daqueles tempos negros onde martirizavam os
expoentes da inteligência, que sonhavam com uma verdade sem fronteiras.

Como tantos outros, Galileu, Keppler e Giordano Bruno foram vítimas inocentes
só porque vislumbravam a vida num panorama amplo da criação divina e amavam esta
Divindade pela verdade iluminada e pela razão e não por dogmas absurdos, pelo
raciocínio e não pela fé cega. Era assim também Einstein. E, por isto, foram
todos chamados bruxos, que etimologicamente quer dizer: aquele que faz bruxedo,
feitiçaria e malefícios frutos do mal. Porém, que mal? Mas foi a ignorância que
se compraz com a mentira que assim os qualificou. Um teve de abdicar dos seus
postulados científicos; o outro foi perseguido, exilado e teve a própria mãe
quase queimada na fogueira; e o último foi mesmo queimado vivo em Roma a 17 de
Fevereiro de 1600. Keppler e Giordano Bruno foram esquecidos pelos seus algozes
e Galileu foi reabilitado muito tardiamente, mas foi a própria ciência que
sofreu rude e irreparável golpe na sua marcha para o bem da Humanidade. Mas
todos voltam a ser lembrados por aqueles que crêem que Deus, como a verdade,
está acima das questões “materialistas” e imediatistas das religiões que
dominadas pela ambição da conquista se afastaram d’Ele. E por aqueles que acham
que Deus é como Sol, que está permanentemente a brilhar acima das nuvens negras
da ignorância dos homens.