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Coisas que se pode aprender com um gato

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Enéas Canhadas

Ficava reparando todas as vezes em que ele ia subir na janela. Era a mesma janela, pelo mesmo lado que subia todos os dias. Portanto era também a mesma altura, a mesma distância do chão até o alto. No entanto ele demonstrava sempre a mesma cautela. Olhava fixamente para o alto, parecia que estava medindo a distância ou a sua capacidade para realizar aquele salto tão conhecido e repetido tantas vezes. Só depois de alguns segundos dava o seu salto certeiro e realizado com a mesma habilidade de todos os dias e a leveza de uma pluma. Então, me perguntava mais uma vez “será isso o significado de cautela? E respondia para mim mesmo que fazia coisas, todos os dias, movidas por uma certeza que quase nunca consultava o meu querer. Por isso o meu respeito.  Chamei por muito tempo as suas “atitudes” de arrogância, observando que ele nos procurava quando queria ou quando precisava, ou mesmo estava a fim de receber um carinho ou aconchego. Aos poucos fui compreendendo que, no mais das vezes, ele preferia que o deixasse “na dele”, provavelmente não por orgulho ou arrogância, pois afinal de contas, não imagino que um animal possa ter esse tipo de sentimento “tão elaborado” que os seres humanos inteligentes têm de sobra. Com isso fui aprendendo que, certamente, podemos estar ao lado de alguém sem nem mesmo tocar esse alguém. Talvez a nossa presença diga sincera e verdadeiramente “estou aqui, você pode me ver e sabe que estou aqui” e talvez a tal atitude de “precisar” do outro ou de alguém, em certos momentos, não passe de precisar do outro apenas para tê-lo ao lado, sentindo a sua presença de maneira muito consistente e prestativa, e não fazermos disso uma espécie de utilização. Nesse sentido estar por perto ao alcance dos olhos de alguém parece concorrer nitidamente para a continuidade da vida, como somos, sem nenhuma apreciação valorativa.  Ir e vir, desfrutar do calor dos corpos ou das cobertas também fazia parte da qualidade de vida existente à disposição. Não precisava ser deixado para depois ser recepcionado. Talvez não ficasse sozinho ou carente, apenas ficasse, e quando chegávamos, ele apenas estava. Dava os seus miados que sempre entendemos como perguntas sobre a nossa ausência, porque afinal de contas, todos os seres que respiram, de alguma forma e em algum nível possuem a experiência da companhia. Ele, misteriosamente, chegava sempre junto conosco. Dizíamos que ele vigiava, depois fomos compreendendo que através de um sentido extra sensorial, coordenava o tempo para que aparecesse, vindo também da rua, de onde chegávamos, de modo a nos encontrar ainda na porta de casa. O nosso desconhecimento dessa capacidade dos animais por algum tempo entendeu apenas que ele poderia estar atrás da mureta na divisa de nossa casa, ou em algum canto do telhado da garage que não podíamos enxergar. Chegar junto envolve muito mais que isso. Envolve a sensibilidade de antecipar-se ao pedido do outro para que esteja presente. Demorou para compreendermos isso em toda a sua extensão.

A simpatia e a graça lhe eram inerentes. Rolava para lá e para cá, expressando de maneira clara a sua graciosidade e delicadeza alegre, de modo que pudéssemos enxergá-lo fazendo isso, mas não era preciso que o pegássemos ou o afagássemos. Isso já era demais. Era ele que precisava externar a sua alegria ou gracejos por estarmos por perto ou chegando a vê-lo. Era ele que queria externar tais gracejos. Não era para que externássemos a nossa gratidão ou também quiséssemos cobri-lo com os nossos gracejos. Era uma oferta dele para nós, incondicionalmente. Não era preciso que tivéssemos um gesto de agradecimento, e ficava e ainda fico pensando nas nossas atitudes de gratidão, muitas vezes condicionadas a respostas. Mas isso é coisa que os gatos fazem.

A sua independência, muitas vezes, enxerguei como sendo “atitude” de orgulho ou mesmo soberba. Logo era levado a pensar em ingratidão ou coisas assim. A independência nos parece algo imperdoável ou invejável, uma vez que sofremos tanto com as nossas dependências como com as nossas independências e mais ainda com as nossas co-dependências. Fui compreendendo que se tratava de viver a vida dele, como era e do jeito que era. Apenas isso.  Foram feitos  as suas exigências, mas hoje compreendo que não as fazia para alguém, nem para nós, mas as demonstrava para a sua própria condição de vida. Parecia compreender que a sua necessidade poderia ser imposta já que estávamos por perto e, se abríamos a torneira tantas vezes para outras coisas, tínhamos que abri-la para que pudesse beber a água fresca e corrente. Diante disso podíamos reagir como recebendo uma ordem ou como demonstração de compreensão de alguém que pode ter à sua disposição uma coisa boa apenas porque essa coisa boa existe à disposição, e isso pode muito bem nos ensinar o verdadeiro sentido da ajuda, quando colocamos à disposição de alguém o que temos simplesmente porque temos e não porque esse alguém está nos ordenando, exigindo ou pedindo impropriamente com direitos discutíveis. Ele não exigia, apenas nos chamava à consciência do havia à disposição e que podíamos ofertas. Ele tomava apenas o que precisava. Não se tratava de direito e obrigação.

Quando ficou doente, não o vimos nem ouvimos reclamar. Com a dificuldade própria da sua doença, arrastava-se para tomar sol como a única fonte de renovação ou de sustentação da sua breve vida. Ora um pouco no sol, ora um pouco na sombra. Apenas recolhia-se no seu canto, cada vez mais imóvel, cada vez mais silencioso. O seu olhar já não se voltava mais para nós nem para a vida ao seu redor, apenas preferia estar na sua quietude e no recolhimento do seu próprio corpo. O silêncio daqueles que parecem saber que morrer é natural e faz parte da vida. Mesmo doente por alguns dias na sua caixa forrada, parecia apenas incomodar a indignidade de não poder fazer suas necessidades no lugar devido. A sua quietude falava da sua presença que não incomodava, mas ao mesmo tempo anunciava a ausência que, em breve, viria se instalar como a presença ausente de quem se foi, mas permanece. Uma humilde, porém intensa manifestação da existência do fluído universal.

Se contemplarmos de perto as manifestações da vida, não há como não pensar nas sucessivas existências como confirmação da continuidade de tudo e das interdependências dos ciclos. Olho para dentro de mim e revejo, no meu íntimo, a confiança no fluir da vida que prossegue inexoravelmente, desejando que esse pedacinho de consciência de existir esteja em bom lugar… Adeus Chico, que por muito tempo, mais afeito ao meu cão afetuoso e companheiro, não havia reparado nesse gato que aprendi a querer bem.

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