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Como Se Define Uma Poesia Espírita?

Como Se Define Uma Poesia Espírita?

Neste ano, fui convidada para participar como jurada do V Concurso de Poesia
Espírita, promovido pela Arte Poética Castro Alves. Aproveito a ocasião para
explicar ao leitor e a aqueles que concorreram com seus poemas, quais os
critérios usados para a escolha dos melhores. E, ao comentar esses critérios,
estarei ao mesmo tempo tocando alguns traços fundamentais do que vem a poesia
espírita. Atualmente, os que são espíritas e artistas, estão buscando criar uma
“Estética espírita” e toda discussão a respeito vem a calhar. Um concurso como
esse proporciona a reflexão sobre o tema.

Um dos fatos fundamentais da Arte Espírita é que artistas não são apenas uma
meia dúzia de gênios privilegiados. Todos os seres humanos, como herdeiros da
divindade, têm um grande potencial de criatividade e expressão artística. Basta
observar que, quando estimuladas, as crianças produzem poesias, quadros e até
música com facilidade. Prova disto também é a quantidade de pessoas que
participam de um concurso como este (177) e os muitos poemas de qualidade que
recebemos.

CINCO CRITÉRIOS POSSÍVEIS

 

1o) Um dos mais importantes critérios de uma boa poesia, no
meu entender, é a sua coerência de idéias. Trata-se da capacidade
do autor em transmitir uma idéia ou um sentimento. Arte é uma forma de
comunicação e, por isso, deve alcançar a alma do receptor com uma mensagem, com
uma sensação, com uma imagem…Digo isto, porque há pessoas, que a pretexto de
originalidade, despejam no papel um amontoado de palavras sem nexo, sem ligação
entre si. Ao se terminar a leitura de um poema como este, não se tem nenhuma
sensação, a não ser de vazio. Penso também que um hermetismo ou um simbolismo
exagerado não cabem bem a uma poesia espírita. Já que a nossa é uma Doutrina
racional, clara e simples, não devemos tornar a nossa Arte indigesta, difícil e
inacessível.

 

2o) Clareza e simplicidade, porém, não significam de jeito
nenhum pobreza, banalização ou lugar comum. O que caracteriza qualquer obra de
Arte, espírita ou não, é a originalidade. Eis aí o segundo
critério. Fazer poesia é se expressar de forma única, pessoal e inédita – e é
isto que provoca o que se chama de prazer estético. Quando lemos algo dito de
maneira bonita e diferente, experimentamos aquilo que é específico da Arte, um
sabor de originalidade e subjetividade. O artista não deve apenas saber
expressar uma idéia, um sentimento, mas deve saber expressá-los a seu modo. Seu
ser tem de transpirar das palavras. O leitor tem de captar a sua alma.

 

3o) Acontece que há muita originalidade na Arte antiga e
contemporânea que não passa nem perto de uma proposta espírita de Arte.
Mensagens sombrias, niilistas, sensações de horror e desânimo, linguagem
rasteira e conteúdos de erotismo desvairado e desequilíbrio existencial… Tudo
isso pode ser expresso de forma original. Uma das especificidades da Arte
Espírita deve ser a elevação de idéias. E esse foi o terceiro
critério adotado para a análise das poesias no concurso. Que quer dizer isso?
Deve perpassar pela obra espírita, um élan otimista, uma confiança serena, uma
segurança existencial, uma fortaleza, uma pureza moral, que são característicos
da visão espírita de mundo. Não que o artista deva se forçar a sentir tudo isto.
Mas se ele for espírita de verdade, sentirá naturalmente. A Arte Espírita não
pode rastejar no desequilíbrio, no desespero, na aclamação do tétrico, mas deve
abrir a alma para o infinito, deve transcender o terra à terra, para uma visão
mais sublimada da dor, da morte, da existência, do universo…

 

4o) Intimamente ligado a este critério acima, está o aspecto
de fidelidade ao Espiritismo, que também deve necessariamente
caracterizar a Arte espírita. O conteúdo de uma poesia espírita não pode
contrariar os princípios fundamentais da Doutrina. Mas é preciso cuidado.
Fidelidade à essência do Espiritismo não quer dizer que a poesia deva ser uma
doutrinação, um catecismo, uma exposição racional de princípios, porque então
deixa de ser poesia, para ser filosofia rimada. Quer dizer que o artista,
plenamente convencido dos postulados do Espiritismo, compreendendo-os e
sentindo-os com a mente e com o coração, vai expressar suas vivências, suas
emoções, transformados e elevados pela dimensão espírita.

Quer dizer então que a Arte espírita não pode tratar de problemas e
sentimentos humanos, dos quais fazem parte a tristeza, a tragédia, a saudade, a
sensualidade? Deveríamos fazer, então, uma Arte de anjos, se ainda não somos
anjos? Não, não é isto. Mesmo porque a Moral espírita nos pede apenas que
sejamos homens de bem, enquanto não chegamos à estatura de anjos. Mas é que
filtrados pela visão espírita, os problemas, as tragédias, as dores humanas
adquirem uma cor menos dramática, uma finalidade otimista, pois sabemos que
todos caminham para o Alto, que todo mal é passageiro e que o Bem é a realidade
substancial da vida e de nós mesmos. É isso que a Arte espírita precisa
proclamar.

 

5o) Afinal, o último critério adotado, com menos rigor por se
tratar de um concurso de poesia amadora, é o da técnica poética.
Cada Arte tem suas técnicas próprias e são elas que pressupõem um aprendizado e
um treino. É verdade que muitos já nascem de posse de certas técnicas. Mas,
então, trata-se certamente de uma aprendizagem realizada em outras vidas.

Alguns detalhes técnicos

Fazem parte da técnica a poética, o ritmo, a síntese, a opção entre versos
livres ou metrificados, a opção por rimas etc.

 

1) Toda poesia deve ter um ritmo. No caso da poesia metrificada,
cada verso tem um número certo de sílabas poéticas e o ritmo se dá de acordo com
este número. Por exemplo, em versos de 7 sílabas, as
possibilidades rítmicas são maiores: (Contam-se 7 sílabas até a última sílaba
tônica).

“An/te a/ pas sa/gem/ do/ tem/(po) (1a, 4a e 7a)

Re/gis/tra o/ va/lor/ do a/go/(ra) (2a, 5a e 7a)

Na/ bên/ção/ de/ mei/a/ ho/(ra) (2a, 5a e 7a)

Quan/to/ bem/ a/ rea/li/zar” (1a, 3a e 7a)

 

(Versos de Maria Dolores/ Psicografia Chico Xavier)

Já em versos decassílabos, as regras são mais rígidas. A acentuação
tônica só pode ser na 6a e 10a ou na 4a, 8a
e 10a. Assim

“Dei/xa-/nos/ sob/ o/ ju/go/ de/ Teus/ la/(ços)

Dá-/nos/ a/ bên/ção/ de/ se/guir-/Te os/ pa/(sos)

Pa/ra o A/mor/ I/mor/tal/ da/ No/va/ E/(ra)!

 

(Versos de Auta de Souza/ Psicografia Chico Xavier)

2) Nos versos livres, onde não há um número fixo de sílabas
poéticas, o ritmo tem de ser criado pelo autor. Pode parecer mais fácil, à
primeira vista, mas é preciso desenvolver uma espécie de “ouvido poético”, para
que os versos não saiam descompassados, sem fluência rítmica. Vai aqui um
exemplo. Primeiro ponho alguns versos meus, onde penso haver essa fluência.
Depois, estrago-os, propositadamente, para mostrar a diferença:

“Quando meus olhos se perdem das coisas e andam ao vento,

cravo a mente no que não passa e me contento.”

“Quando tenho meus olhos elevados acima das coisas

andando assim ao vento

cravo a mente no que não é passageiro e me contento.”

 

Faz parte também um poder de síntese, que é próprio da poesia. Ela não pode
ser repetitiva, alongar-se em palavras inúteis. É preciso saber enxugá-la,
usando o mínimo necessário para dizer o máximo. A poesia muito palavrosa perde a
força de expressão. Por isso, entre os poemas metrificados, o soneto
é tão apreciado: é preciso colocar em 14 versos, uma idéia completa e bem
elaborada.

A rima pode ou não ser usada numa poesia. Mas se adotada, deve ser bem posta.
Num poema metrificado, ela deve aparecer no lugar certo. Nos versos livres, a
criação é do autor, mas não pode ser uma rima ocasional que aparece de vez em
quando e o resto do poema fica em versos brancos.

Há muitos outros detalhes que as pessoas que realmente desejam se tornar
poetas devem estudar e exercitar, a fim de se sentirem à vontade para expressar
suas idéias poeticamente.

FECEF 2000

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