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De Boas Intenções O Inferno Está Cheio

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Enéas Canhadas

 Esta frase é de autoria de um teólogo e santo famoso, o francês São Bernardo de Clairvaux (1090-1153). Muito místico, travou grandes polêmicas com o célebre namorado de Heloísa, o também teólogo e filósofo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142). Conselheiro de reis e papas, São Bernardo pregou a Segunda Cruzada, destacando-se no combate àqueles, que eram considerados hereges, por ousarem interpretar de modos plurais a ortodoxia católica. A frase foi brandida, não apenas contra seus desafetos, mas também a seus aliados, e tornou-se proverbial para denunciar que as boas intenções, além de não serem suficientes, podem levar a fins contrários aos esperados.  Embora carregue esse arcabouço de tal origem e conotação proverbial, essa expressão carrega também consigo um sinal de alerta para quando quisermos prestar mais atenção às nossas intenções. Talvez se deva levar em consideração o fato de que ao darmos palpites, e, como dizemos, se palpite valesse alguma coisa não daríamos de graça, não estamos propriamente demonstrando alguma intenção. A sabedoria desta expressão nos pega no contrapé quando nos dá uma indicação para fazer uma indagação a nós mesmos. Se estivermos apenas palpitando, sendo enxeridos, ou para ser um pouco mais rigoroso com a nossa própria atitude, se estamos dando algo de que o lixo está cheio, o alerta também vale para que, mediante uma intenção, nós a avaliemos se, de fato, tem algum valor, em especial se possui algum valor para ser aproveitada pela outra pessoa. As nossas intenções, neste caso, devem representar um bem para o outro e, como tal, ser oferecido como um ato de respeito e consideração pela pessoa do próximo.

O que difere a boa intenção de um palpite, ou da mera opinião, ou mesmo da necessidade que podemos sentir de fazer um julgamento sobre as atitudes ou a pessoa do nosso próximo? A boa intenção é algo valioso, como parte de nós, que está sendo compartilhada e tem como objetivo agregar à outra pessoa um valor. Quase como um ato de amor e de doação. Já os palpites podem ser comparados a ideias ou fragmentos dos nossos próprios pensamentos que nos vêm à mente a granel sem exatamente possuírem valor próprio. Basta você fazer consigo mesmo um teste. Marque no relógio quantas ideias ou pensamentos diferentes te ocorrem no tempo de um minuto. Anote num papel. Em seguida analise quantas dessas idéias ou pensamentos são importantes e quantos podem ser descartados. Observe que a maior parte delas não tem relevância nem para seus objetivos nem para o seu momento atual. Como nos ensina o Livro dos Espíritos, na resposta dada à pergunta 461 “Os pensamentos próprios são, em geral, os que vos ocorrem no primeiro impulso. De resto, não há grande interesse para vós nessa distinção e é frequentemente útil não o saberdes…”

As nossas intenções são movidas, em geral por um querer. Esse querer começa lá atrás numa necessidade de mudança que se processará conforme a nossa vontade. Ela será manifestada com a convicção e a força necessárias dependendo da administração da nossa vontade que, na verdade é a força que nos move. Isso alimentará os desejos que serão mais ou menos harmonizados com os nossos motivos e interesses pessoais. Os desejos, podemos dizer que são impulsos disparados conforme os motivos ou interesses que temos para fazer as coisas. Isso vai configurar dentro de nós certo tipo de inclinação como se fosse uma tendência, pois estará em acordo com muitas outras maneiras que temos e expressamos no nosso agir cotidiano. Falamos de inclinação porque a nossa maneira de ser acaba sendo previsível, pois é uma espécie de traço da nossa maneira de agir.

A expressão “de boas intenções o inferno está cheio” nos dá o tom da gratuidade com que as pessoas gostam de emitir opiniões e têm maneiras diversas, prolixas e pouco refletidas no momento de expressá-las. Se alguém considerar profunda e respeitosamente as atitudes da outra pessoa, seus modos, o que ela deseja fazer ou prestar atenção ao que ela está tentando dizer, talvez não fosse preciso, na maioria dos casos, emitir algum palpite, oferecer gratuitamente o nosso ponto de vista. Essa expressão, aliás, fala em algo que é nosso e como um ponto de vista vem carregado de características pessoais, valores particulares, princípios que adotamos ao longo da nossa formação e educação. Sendo assim, o que leva as pessoas a emitirem opiniões, dificilmente será plenamente aproveitável por uma outra pessoa, alguém que também possui os seus pontos de vista pessoais. Pitágoras (filósofo e matemático grego 571 ou 570 a.C a 497 ou 496 a.C) aconselhou “não te deixes impressionar por palavras alheias. Elas não te devem afastar dos projetos honestos, que tiverdes formado” e prescreveu uma ordem “cala-te, ou dize coisas que calham mais que o silêncio. Antes atirar uma pedra ao acaso que uma palavra inútil. Não digas pouco em muitas palavras, mas muito em poucas”. Essas citações até que são suaves perto do modo radical de Lao-Tse (filósofo Chinês, período de nascimento controvertido: séculos VII ou VI a.C ou 1324 e 1408 a.C.) “O homem que sabe não fala; o homem que fala não sabe”. Parece distante pensar em “boas intenções” e “palavras”, mas a questão é que as nossas intenções, na verdade, encerram o que vai pelos nossos pensamentos que se multiplicam pelas nossas digressões, fantasias e ideias imaginativas. Para que soubéssemos as verdadeiras intenções das pessoas, melhor seria não ouvir suas palavras, mas sim observar suas ações e, se ainda possível fosse, ler os seus pensamentos. No dizer de Goldsmith (10/11/1730(?) – 4/04/1774) “o verdadeiro uso da palavra não é tanto para exprimir nossas necessidades quanto para escondê-las”. Os pensamentos, estes sim, são praticamente indevassáveis, e ainda bem porque podemos contar com essa certeza também sobre os nossos próprios pensamentos.  Como todos os nossos atos precisam ser conseqüentes, melhor será que as nossas boas intenções não preencham nem os nossos infernos pessoais e tão pouco o inferno pessoal do nosso próximo. ¹Citado no livro “De onde vêm as Palavras” de Deonísio da Silva, Edit. Mandarim, São Paulo, 1997.

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