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Drogas e responsabilidade

Nestes tempos de coletivismo e de massificação, é muito comum ver a mídia
alardear “o problema das drogas na juventude brasileira”.

É um tema que desperta paixões, move grandes máquinas publicitárias, dá
margem a mil explicações sociológicas e ainda serve de tema de campanha para
alguns políticos demagógicos.

Quem olha a situação de fora pode ser levado a pensar que os jovens da minha
geração são pessoas perdidas, sem propósito na vida, mergulhados num mar de
hedonismo, em que as ferramentas para a sobrevivência são as drogas, o álcool, o
fumo, o sexo desregrado etc.

Há vários problemas nesse tipo de abordagem.

O primeiro deles é tomar casos isolados como se fossem a expressão da
realidade inteira. Como se um jovem drogado fosse uma mônada leibniziana…

Como, então, abordar a questão?

Em primeiro lugar, devemos considerar as suas devidas proporções, isto é,
delimitar o gênero a que ela pertence.

Isso feito, podemos meditar na sua solução.

É muito fácil para a mídia alardear um problema maior do que ele realmente é,
e traçar uma imagem pejorativa da juventude como um todo. A partir daí, criam-se
explicações falaciosas e teorizações absurdas. Como a idéia de que o meio que
cerca os jovens os impossibilita de escapar das drogas.

Acontece que não basta, para atacar um problema, deter-se na contemplação
mórbida de suas vítimas.

Se queremos tratar da questão a sério, devemos procurar aqueles que conseguem
escapar das drogas. Talvez não importe muito se eles são a maioria ou não, mas o
fato é que são sim.

O problema, se reduzido a suas devidas proporções, se torna bem menos
alarmante.

Não é tão fácil assim conseguir drogas, a maioria dos jovens está muito pouco
preocupada com essa obtenção, e o fato de que uma pessoa experimentou um tipo de
droga uma vez na vida não o torna um viciado – apenas facilita a falsificação
das estatísticas.

A pergunta, então, não é “o que leva um jovem à droga?”, mas sim “o que
possibilita que um jovem não se drogue?”

Mais do que estudar casos de ex-drogados, tão caros à mídia sensacionalista,
é importante estudar casos de não-drogados.

Visto que os jovens não-drogados são a maioria, torna-se muito difícil reunir
um núcleo de características comuns a todos eles. A resposta seria um painel
muito amplo da juventude de nosso tempo, a juventude da qual faço parte, e seria
uma ambição desmedida minha pretender oferecê-lo aqui. Posso, porém, retirar
alguns exemplos do convívio diário.

Convivo com um número bastante grande de jovens, nenhum deles drogado. Devo
dizer que, para a maior parte deles, a questão “usar drogas ou não” nem sequer
se coloca . O que possibilita isso?

O primeiro fator chama-se educação. É o fator mais importante e o mais
ignorado. Não se trata daquele blá blá blá todo em torno das terríveis
conseqüências do uso das drogas ou dos perigos químicos das mesmas. Trata-se
simplesmente da educação baseada na ideia de responsabilidade.

O que existe de mais fundamental na vida humana é o princípio de autoria. Eu
sou autor de meus próprios atos e não posso fugir das conseqüências deles. O
sujeito que cometeu a ação é, fatalmente, o mesmo que sofrerá suas
conseqüências. Afirmar o contrário é cair na esquizofrenia.

Se a educação ajuda a tornar o jovem consciente de que cada um de seus atos
tem implicações para ele e para as pessoas que o ato envolve, sua vida adquire,
a seus olhos, uma consistência muito maior. Ele vê a realidade com olhos mais
abertos, mais plenos. Se ele se sente responsável pela própria manutenção (não
falo num sentido econômico, mas num sentido existencial), suas preocupações
estarão voltadas para coisas mais elevadas, mais importantes do que um prazer
momentâneo que terá conseqüências destruidoras.

Uma cultura, como a nossa, que não enfatiza a responsabilidade individual,
que cria culpados abstratos para eximir o indivíduo de toda a culpa, só pode
mesmo dar margem a problemas psicológicos sérios. Ora, o culpado por cada uma de
minhas ações não é o inconsciente, não é a classe social, não é o maldito
capitalismo, não é o meio social, não é a estrutura da linguagem, não é o
complexo de Édipo; o culpado sou eu.

Todos esses fatores citados existem, mas a instância decisiva é o ego. Quem
diz sim ou não sou eu. Quem escolhe o papel que vai representar sou eu.

Qualquer tipo de educação que não destaque isso está fadado ao fracasso.

Qualquer campanha de prevenção às drogas que esqueça esse fato estará
proferindo palavras vazias para um auditório surdo.

Compreendido esse fator de responsabilidade pessoal, podemos derivar os
outros principais fatores que afastam os jovens das drogas. Entenda-se bem: sem
esse primeiro, nada se faz.

A partir daí, podemos arrolar outros, como uma sólida formação religiosa, a
atenção aos estudos, a dedicação ao trabalho, a satisfação na vida pessoal, a
estabilidade do lar. Não conheço um caso sequer de pessoas que vivam em alguma
dessas condições e se deixem levar pelas drogas.

Se, porém, repetimos o discurso da irresponsabilidade, se colocamos o prazer
acima das outras instâncias, se acreditamos na idéia de que erros não devem ser
punidos, se, sob o pretexto de aumentar a liberdade, defendemos a liberação das
drogas, então estaremos agravando um problema e criando uma juventude
verdadeiramente transviada. Estaremos abolindo da juventude a ideia de que
existem princípios sólidos a serem seguidos e caindo na armadilha do relativismo
e do imoralismo.

Os jovens, em geral, têm plena consciência disso. Estão cheios de planos para
o futuro e não querem ver suas vidas destruídas por atos inconseqüentes. Tudo o
que peço a educadores é que não destruam neles esse senso de responsabilidade.
Que não abafem a voz da juventude verdadeira, sob o pretexto de fazer um
discurso progressista. Porque o que está em jogo são vidas humanas. E
brincar com vidas humanas para defender teorias ou lutar contra o
conservadorismo
é no mínimo desprezível…

A pergunta, então, não é “o que leva um jovem à droga?”, mas sim “o
que possibilita que um jovem não se drogue?”

(Jornal Mundo Espírita de Novembro de 98)

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